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Uma morte não vai parar os carros autómonos

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ÁGUA NA FERVURA. Elon Musk deve conter o seu discurso sobre as potencialidades do Autopilot e referir as limitações que ainda existem no sistema de condução da Tesla FOTO GETTY

getty images

O dia em que Elon Musk fez um tuíte sobre Joshua Brown terá sido, quase de certeza, o mais feliz da vida deste ex-militar norte-americano, de 40 anos. Brown tornou-se a primeira vítima mortal num acidente envolvendo um carro semiautónomo. Aconteceu em maio, quando o seu Tesla não evitou a colisão com um atrelado.

Joshua Brown adorava o seu Tesla. Tanto que lhe arranjou um petit nom: Tessy. Fez milhares de quilómetros no carro elétrico, que tem um sistema, Autopilot, que permite, entre outras coisas, detetar as linhas que marcam a estrada ou a distância que separa o carro de outros objetos.

Isto permite ao condutor retirar, mesmo, as mãos do volante e deixar o carro conduzir-se sozinho. Como é possível VER NESTE TESTE que fizemos na Exame Informática. Voltamos a Joshua Brown. Este entusiasta da Tesla gostava de levar o carro ao limite e usava um canal no YouTube para mostrar as suas proezas ao volante do bólide norte-americano. Foi um destes vídeos, onde o carro evita a colisão com um camião na autoestrada (VER AQUI), que foi retuítado por Elon Musk. Foi o momento de glória para Brown, que poucas semanas depois morria quando, alegadamente, o seu Tesla não travou e se enfaixou no atrelado de um camião.

O que provocou o acidente? Ainda não sabemos. A investigação oficial está a decorrer, mas a Tesla já avançou uma possível explicação para o acidente. Os sensores que integram a muita tecnologia do Autopilot não conseguiram distinguir o atrelado branco do céu brilhante que pintava aquele dia fatídico (VER TAMBÉM AQUI). A câmara e o radar do Tesla teriam ficado confundidos e não deram a ordem aos travões. Agora, diz-se que Brown vinha em excesso de velocidade e, pasme-se, a ver um filme de “Harry Potter” no ecrã do carro (CLIQUE AQUI).

Futuro em risco?

As ações da Tesla desceram 2,5% após o acidente e a consequente investigação se terem tornado públicos. Por todo o mundo, artigos de opinião serviram os dois lados da barricada. Os que diabolizam o futuro onde os carros se conduzem sozinhos; e os que só vislumbram estradas com rodas conduzidas por computadores. Parece não existir um meio termo. Mas existe. E o Autopilot da Tesla, curiosamente, está nesse terreno a meio caminho dos extremos. No teste que fizemos na Exame Informática, notámos que o sistema está permanentemente a avisar-nos para colocar as mãos no volante. Aliás, o próprio manual do Autopilot refere que há situações em que o sistema pode não funcionar com tanta eficácia. A “luz direta do Sol” é uma delas.

No entanto, quem ouve Elon Musk a falar fica com uma ideia totalmente diferente. O patrão da Tesla chegou a dizer que, com o Autopilot atualizado, seria possível ir de São Francisco a Seattle sem colocar as mãos no volante. Estas declarações inflamadas, típicas de Musk, enchem de confiança os donos dos Tesla. Acham, eles, que podem testar até ao limite estes carros que já estarão no futuro da mobilidade. Ou seja, o primeiro passo para dar uma dose de realidade a estes futuristas iludidos é fazer com que Musk controle algum do seu génio. O que não é missão fácil.

É preciso entender que a tecnologia da Tesla é uma assistência à condução. Tem limitações. E é isso que os condutores têm de perceber. Por mais que endeusem tanto a marca quanto o seu fundador.

No entanto, é preciso compreender que estamos apenas a dar os primeiros passos nos carros autónomos. Os maiores fabricantes mundiais estão na corrida, mas fazem-no de uma forma menos ostensiva que a Tesla e mais cautelosa. Nenhum chama à sua tecnologia “auto qualquer coisa”. A Honda, a Toyota, a Mercedes… são bons exemplos.

E é preciso não esquecer: no futuro, os carros que se conduzem sozinhos vão ter de tomar várias decisões. Em última análise, perante um acidente inevitável terão de escolher quem salvam. O condutor? Os ocupantes da outra viatura? Os transeuntes? Os dilemas morais serão colocados às máquinas tal como nos são colocados a nós. Quer experimentar? Vá até ESTE “Máquina da Moral”, criada pelo MIT. Vai ficar com uma ideia do quão complicado será para a Inteligência Artificial do sistema tomar as decisões mais corretas.

Uma coisa é certa, os carros autónomos vão causar mais feridos e mais mortes até à sua massificação. Basta tomar como exemplo o que aconteceu na história do automóvel antes de se inventar o semáforo ou o sinal de stop.