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#Euro2016. Hoje é o dia em que escrevemos uma nova história

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SUPER PORTUGAL. Irá a Torre Eiffel, ao fundo, iluminar-se domingo com as cores da bandeira portuguesa?

AURORE ALIFANTI

"Ó gente da minha terra/

Agora é que eu percebi/

Esta tristeza que trago/

Foi de vós que recebi"

Há dois anos, por esta altura, estava a ouvir a voz de Mariza num restaurante de Nice, no sul de França. Não era uma casa portuguesa, antes o sonho de um jovem sul-africano que cresceu na quinta da família, apaixonou-se pela gastronomia, acabou a escrever sobre comida e lançou-se no sonho de abrir um dos espaços mais badalados da cidade. O Jan tinha acabado de chegar de Lisboa, tinha sido lá que comprara o CD da fadista. Estava apaixonado. "Achei tudo tão bonito e romântico. Um dia gostava de lá viver", contou-me.

Quando acabei de jantar e saí para a rua, a cidade tinha-se vestido de festa. Centenas de argelinos eufóricos pintavam a Promenade des Anglais, a exuberante avenida marginal, a Praça Massena, a mais movimentada da cidade, e o labirinto de Vieux Nice. Festejavam a passagem da seleção de Slimani e Brahimi aos oitavos de final do Mundial de futebol, um feito histórico para o país do Magrebe. E, pelo menos naquelas horas, a comunidade argelina, nem sempre bem integrada em França, tantas vezes incompreendida, pôde bater com orgulho no peito e dizer "Estou aqui, olhem para mim, sou argelino!"

Recordo aquela noite de festa e vejo-nos a nós, portugueses, lá nas ruas de Nice, de Paris, de Marselha, a pintar de verde e de vermelho toda a França no domingo à noite. É impossível ficar indiferente às imagens da multidão que encheu a baixa parisiense depois de assegurarmos o acesso à final. E é impossível não nos emocionarmos com os vídeos que chegaram de Timor Leste, com dezenas e dezenas de pessoas montadas em motos e exibindo orgulhosamente a bandeira de Portugal ao raiar do dia em Díli.

Há dois anos, em Nice, conheci o Armando, dono de um dos restaurantes mais procurados da cidade, o Le Bistrot d’Antoine. O Armando nasceu em Portugal há 58 anos, mas viveu toda a vida em França. Tinha um ano quando os pais decidiram dar o salto à procura de uma vida melhor. Ilegais, pois claro. Não foram tempos fáceis. Chegaram sem nada, foram explorados, discriminados, maltratados. Pagaram fortunas por um quarto exíguo, sem condições, onde dormia toda a família. Eram tratados como estrangeiros em França e em Portugal. Nem portugueses, nem franceses. Não eram de ninguém.

– A vida deles não foi fácil, sabe? Foi dura, muito dura.

Armando fala dos pais com indisfarçável orgulho. Comove ouvi-lo. Subiram na vida a pulso, montaram o próprio negócio, chegaram a viver num apartamento que compraram a um futebolista num bairro rico de Paris. Depois regressaram a Portugal para gozar uma reforma dourada pelos dias de sol. Merecida. Tantos outros continuam por França a fazer pela vida. Como o Armando.

Trabalhou na restauração com chefes famosos, juntou os trocos e um dia entrou no Bistrot d'Antoine, um clássico de Nice com mais de 100 anos de história. Perguntou ao dono se estava interessado em vendê-lo e o negócio fez-se em poucos dias. Foi um jackpot. A casa fatura mais de um milhão de euros por ano. Nas paredes, há fotos com algumas das celebridades que por lá passaram: Bono, dos U2, Alex Ferguson, ex-treinador do Manchester United, e tantos outros. Hoje, o empresário é dono de quatro espaços históricos na cidade da Côte D'Azur.

A França deu-lhe tudo, mas aos 18 anos, quando teve de optar entre ser português ou francês, nem hesitou. Escolheu com o coração. "Amo Portugal. Amo mesmo. Não por ter nascido lá, mas porque é um país sensacional".

Este domingo, às 20h, a seleção portuguesa tem encontro marcado com a história e não pode chegar atrasada. Tem a oportunidade rara de escrever um fado diferente. Não é só por nós, os portugueses que vivemos por cá, do continente às ilhas. É também pelo Armando e pelos pais dele, pelos portugueses que, há 60 anos, fugiram “a salto” para França, tentando escapar a uma vida de miséria. É pelos trolhas, pelas porteiras, pelas empregadas domésticas. É pelos portugueses de Paris, do Luxemburgo, da Suíça, de Díli, de Cabo Verde, da Guiné, do Brasil, de todo o mundo. É por todos eles e também pelo Nuno Matos, da Antena 1, a quem há de saltar o coração pela garganta quando, no final, berrar a vitória de Portugal:

É por mim, é por ti, é por nós, é por vós! C'est pour moi, c'est pour toi, c'est pour nous, c'est pour vous! Je t'aime Portugal!

PS: A foto que acompanha esta crónica é da Aurore Alifanti, uma jovem francesa que passou muitos verões com uma família portuguesa e a quem os olhos se iluminam de saudade sempre que canta a "A Portuguesa" com a mão no peito.