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O mundo português por quem o viveu

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“Fora do Padrão” relembra a Exposição do Mundo Português de 1940 através de testemunhos de quem a visitou e propõe uma nova forma de olharmos para a História

No dia 23 de junho de 1940 inaugurava em Lisboa a grande Exposição do Mundo Português. Este acontecimento coincidiu com o início da Segunda Guerra Mundial e foi preparado com o propósito de comemorar as datas da fundação de Portugal (1140) e da Restauração da Independência (1640). Sobretudo, a ideia era reafirmar na Europa a extensão do império português e resultou na maior celebração de propaganda do Estado Novo. Era a visão de um Portugal moderno que se queria projetar e tudo foi planeado ao mínimo pormenor e pensado para a festa. Dos grandes cortejos de Leitão de Barros ao fogo de artifício, das réplicas dos ambientes das aldeias portuguesas e ultramarinas aos pavilhões desenhados em grande escala e concebidos por arquitetos sob o comando do mestre Cottinelli Telmo, nunca um evento do regime de Salazar concentrara tantos artistas nas suas diversas áreas a trabalhar no mesmo espaço, nem nunca uma encenação sobre a nossa História fora programada em tão grande escala. Situado em Belém, ocupando uma extensão de 560 mil metros entre o Tejo e o Mosteiro dos Jerónimos, este evento tinha também como objetivo desenvolver as bases da renovação urbana da zona ocidental de Lisboa e foi uma nova cidade que surgiu a partir dali.

Segundo dados da época, entre junho e dezembro desse ano, três milhões de pessoas visitaram Belém para se deslumbrar com a dimensão daquele mundo. No espaço físico da exposição internacional, concebida para ser efémera, só permaneceram os edifícios do Museu de Arte Popular e o Padrão dos Descobrimentos, posteriormente construído em pedra e convertido em monumento nacional. Desse momento único, inúmeras vezes revisitado, sobraram os filmes oficiais, perto de cem mil fotografias captadas pelas câmaras dos fotógrafos profissionais e milhares de registos de visitantes anónimos.

Fora do Padrão

“Eu lembro-me”. Foi a partir desta evocação pronunciada na primeira pessoa do singular, que foi elaborada uma exposição inédita que hoje se inaugura no Padrão dos Descobrimentos. Ao longo de um ano, o mesmo tempo que demorou a preparar o evento de 1940, um grupo de antropólogas recolheu filmes amadores, fotografias e álbuns pessoais, materiais evocativos, como bilhetes de entrada ou merchandising da Exposição do Mundo Português de 1940, e procurou testemunhos de pessoas ainda vivas — na altura crianças e adolescentes, filhos de operários de fábricas, de arquitetos e artistas, de donas de casa ou de marinheiros —, refazendo nas suas lembranças um mosaico social e cultural daquela época.

“Fora do Padrão — Lembranças da Exposição de 1940” — realizada em parceria entre o CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia), a Universidade Nova de Lisboa e o Padrão dos Descobrimentos — convocou 28 pessoas a recordar o que viram e sentiram ao visitar o Mundo Português, trazendo pela primeira vez a público as vivências quotidianas de gente anónima.

É nos rostos e nas vozes de quem conta, recolhidas em filme e fixadas em vários ecrãs, que se construiu o guião desta exposição, num trajeto repartido em cinco núcleos: ‘Os Visitantes’, ‘O Espanto e os Sentidos’, ‘O Tanque e o Tejo’, ‘Guerra e Recreio’ e ‘Lembrar, Deslembrar, Voltar a Lembrar’. E nós, os visitantes daqueles outros visitantes, embalados no eco das suas memórias, somos convidados a rever o nosso olhar sobre a História.

As imagens passam rápidas, a narrativa constrói-se nas frases que nos vão dizendo: “Lembro-me do som daqueles altifalantes muito roufenhos; Ainda tenho nos ouvidos a música de um anúncio: ‘linda e divina de sabor ideal, tão fresca e tão fina a cerveja Cristal’; Senti que era uma espécie de mundo novo, um grande cenário, e lembro-me bem do cheiro a gesso; Vi um homem de cor, que estava tão calmo, tão sereno, eu tinha 7 anos e não sabia que havia homens daquela cor, saí da mão do meu pai para ver se era uma estátua, era humano; Havia leões e macacos e depois os pretinhos nas cubatas, que foram mandados vir para cá, a fazer lume como lá nas terrinhas deles; Passava a minha vida no Jardim Colonial porque encontrei amizade com o João, que por acaso era filho do rei do Congo; O rei do Congo saía para ir à missa aos Jerónimos e lá ia ele com o seu séquito, era uma figura imponente; Na rua de Macau faziam a manufatura das taças de cânfora que podíamos comprar e encontrámos um stand com chá Licungo, de Moçambique; Passou o leão com uma grande cabeçorra e senti medo; Vivia em Belém e isto tudo foi abaixo, aqui era a leitaria Rosa de Ouro, depois a barbearia do Barbinhas e a sapataria Bola Verde, onde são os Pastéis de Belém; A guerra rebentou em 39, havia muitas dificuldades; Atravessava o rio de barco com a minha mãe e irmã até Porto Brandão para buscar carvão e vínhamos carregados com sacos, porque no tempo da Guerra não havia carvão; No colégio trocávamos impressões sobre o que tínhamos visto e cada um via coisas diferentes.” Revela Maria Cardeira da Silva, antropóloga e comissária da exposição: “O imaginário do Estado Novo foi tão construído e implementado naquele território que se torna difícil de desmontar. A ideia foi passar da memória às lembranças que nos trazem os relatos biográficos, mais sensoriais e emotivos, onde os pequenos gestos se contrapõem à monumentalidade dos registos do regime, para se desenhar uma outra cartografia, para lá da memória cristalizada pelos registos oficiais.” Nesta proposta, pretendeu-se organizar um laboratório de reflexão sobre a memória coletiva de um tempo histórico e abrir a possibilidade de unir os arquivos institucionais aos pessoais. Quem viveu o Mundo Português fora do Padrão pode agora acrescentar as suas lembranças por e-mail para o Arquivo Fora do Padrão.

Fora do Padrão: Lembranças da Exposição de 1940
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa, até 30 de outubro de 2016

Artigo publicado na edição do Expresso de 25 de junho 2016