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Londres: O segredo está nas ilhas

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Foto 1

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Para conhecer Londres é preciso ziguezaguear o Tamisa. Há maravilhas a norte e a sul

Londres não é uma cidade, mas uma federação de vilas, cada uma com as suas vivências e carácter, cheiros e sabores. Londres é a urbe mais multicultural da Europa, o que lhe dá riqueza e gera tensões (boas e más). Depois de Boris, o louro esgrouviado, o mayor é agora um muçulmano liberal e sensato, Sadiq. Gosto das metrópoles atravessadas por rios e esta, além do Tamisa, tem os canais de Little Venice (foto 1), uma bela relíquia da Revolução Industrial. Só catedrais, há três (Westminster, St. Paul’s e Southwark, com ligações shakespearianas), mais a vetusta Abadia de Westminster, onde o monarca é coroado. Com 8,5 milhões de habitantes, Londres é a maior capital da União Europeia, com o dobro da população de Berlim (a segunda maior).

Foto 2

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Para Dickens, Londres era a ‘lanterna mágica’ que iluminava a sua imaginação. Passeiem-se pelas ruelas que foram sórdidas, mas não percam a Lincoln’s Inn, por onde se arrastou o caso jurídico de “Bleak House”. O tribunal remonta ao século XVI, mas o campus é hoje um oásis de paz e de história aninhado em Holborn. Por perto fica o Sir John Soane’s Museum recheado de tesouros. Em Londres o campo poliniza a malha urbana. Ouve-se falar do Hyde Park com a Serpentina, mas eu prefiro o aconchego de Dulwich a sul, com uma surpreendente Picture Gallery (foto 2). Para apetites mais rurais há quintas citadinas como a Vauxhall City Farm onde se pode adotar um animal: vaca, ovelha, porco, alpaca, etc. As raposas, essas passeiam-se por South London a toda a hora.

Foto 3

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Uma das glórias de Londres é o teatro (a outra, os museus gratuitos). Tudo começou (e continua) no Old Vic, mas hoje o Teatro Nacional alberga quatro auditórios com cerca de 30 espetáculos por semana (sem esquecer o Globe à moda de Shakespeare). No verão, Buckingham Palace e o Parlamento abrem as portas (com marcação). Esqueçam o London Eye e regalem-se com a boa arquitetura de torres como o Gherkin (Foster) ou o Shard (Piano). A Newport Street Gallery (Vauxhall), onde Damien Hirst enterrou 25 milhões de libras para recuperar velhas oficinas de teatro, vale o desvio. Os cafés europeus estão em vias de extinção, mas em Londres os pubs pululam como locais de convívio e debate, à volta de uma pint de cerveja. ‘Best Bitter’, se faz favor, que a cerveja quer-se morna. O Borough Market (foto 3) (de quinta a sábado) e lojas adjacentes é o paraíso dos gourmets. Para maior bulício étnico, arriscar o mercado de Brixton, mas evitem o Little Portugal da South Lambeth Rd.

Em Londres cabem todos. Karl Marx está sepultado no cemitério Highgate (East), em Camden; a casa de Freud em Hampstead (com o célebre divã), é também obra de um português, Alexandre Bento; Handel viveu paredes-meias com Jimi Hendrix em Brook Street (Mayfair), embora separados por 210 anos. Vêm aí os Proms no Royal Albert Hall, mas por 5 libras não percam o som e a fúria dos concertos clássicos da Multi-Story Orchestra que atraem multidões a um desativado silo de estacionamento automóvel em Peckham.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 25 junho 2016