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Francisco Miranda Rodrigues, psicólogo: “Este efeito de bem-estar é só de curto prazo”

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Alberto Frias

As peripécias de Portugal no Euro-2016 tomaram conta das emoções de muita gente. O psicólogo Francisco Miranda Rodrigues olha para os estados de alma destes dias e dá pistas para perceber o que pode estar para chegar

Paulo Paixão

Paulo Paixão

(texto)

Jornalista

Alberto Frias

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Fotojornalista

Num desempate por penáltis sofre-se muito...
É verdade. E há uma tentação muito grande para se utilizarem algumas defesas. Como não assistir em direto à marcação dos penáltis.

É uma jogada muito usada?
Nestes grandes eventos, quando nos juntamos todos à volta da equipa, criamos uma sensação de pertença. E sentimo-nos a ganhar, se a equipa ganhar. Mas também há o receio de perder. Então há muitas pessoas que optam por não assistir aos momentos decisivos. É como se não estando a ver aliviássemos a ideia de que estamos, ou podemos, perder. E diferimos um pouco as coisas. Ouvimos o som dos vizinhos a gritar os golos, por exemplo. Mas vamos sempre a tempo caso ganhemos, porque somos peritos em contar histórias a nós próprios: “Eu vi o tempo todo, só aquele bocadinho é que não vi, mas acompanhei, através dos vizinhos”. Estas histórias são muito importantes para que nos sintamos coerentes connosco. No fundo, é da mesma forma como mentimos.

Somos um povo de oito e de 80. Num jogo particular, ganhámos 7-0, éramos os maiores; depois, três empates, a desilusão; agora, o povo parece ter voltado às nuvens. São emoções vividas em altos e baixos...
Sim. Mas não são só os portugueses que vivem as coisas assim. Há reações idênticas noutros lados. Basta ver as manchetes dos jornais desses países.

Uma eventual derrota nas meias-finais pode levar tudo de volta ao oito? Ou já se ganhou o suficiente para exibir a “taça do dever cumprido”?
Foram criadas expectativas altas, até pelas pessoas mais responsáveis [Fernando Santos], de lutar até ao fim para vencer o campeonato. Logo há possibilidades de haver maior frustração. Essa expectativa pode levar a que se demore mais tempo a ultrapassar uma eventual deceção. Mas tanto na vitória como na derrota, será algo temporário na vida das pessoas. Depois, tudo se normaliza.

Como define o estado de espírito que se vive hoje [sexta-feira]: euforia ou mera satisfação?
Há uma contaminação positiva. Enquanto formos tendo resultados positivos, é como se isso desse a todos uma sensação de eficácia. E é natural que hoje [sexta-feira] ao regressar ao trabalho muita gente esteja viver um efeito de fim de semana ainda mais forte, de antecipação. Se calhar, a sexta-feira ao fim da tarde começou logo de manhã.

Um povo satisfeito trabalha mais?, melhor?, ou menos, porque quase só fala de bola?
A satisfação terá sempre efeito positivo na produtividade. Mas esse efeito de bem-estar é de curto prazo. Não se trata da manutenção de um estado de felicidade, em que as pessoas fiquem satisfeitas com a sua vida de uma forma geral. É momentâneo. Se estamos a festejar, não estamos a produzir; logo não será benéfico. Mas se ficamos com a sensação positiva de sermos capazes de conquistar coisas, e nos focarmos no trabalho, essa atitude, mesmo que de modo temporário, só beneficia a qualidade e a produtividade.

Portugal, como outros países, sem moeda própria, tem vivido da assistência externa e está sob a ameaça de sanções. O primeiro-ministro e o Presidente da República têm sido presenças assíduas em França. As pessoas veem hoje a seleção como o último reduto da soberania nacional?
Não sei se o saberão de uma forma refletida. E não diria que é o único reduto. A seleção agrega e cria um sentimento de pertença muito alargado e reforça a identidade nacional. E não é estranho que os principais responsáveis do país se juntem à volta de algo que tem esse efeito sobre os cidadãos. Por outro lado, as campanhas publicitárias em redor da seleção vão buscar aspetos históricos e das conquistas, é uma narrativa que usa factos com mais de 500 anos, que fazem parte da nossa identidade. [A seleção] é como se fosse agora a nossa forma de partir às conquistas.

À cautela

Francisco Miranda Rodrigues, 42 anos, é o diretor-executivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Consultor em desenvolvimento pessoal e organizacional, liderança, eficácia pessoal e de equipas, tem formação pós-graduada em psicoterapia. Prepara o doutoramento em psicologia clínica. Gosta de futebol e na quinta-feira também esteve com o coração nas mãos. “Sim, sofri um bocadinho“, diz, rindo. Já usou “ferramentas profissionais” em jogos de maior risco. “Por vezes tento defender-me e adotar uma estratégia para não sofrer tanto. Mas em casa própria nunca se é tão eficaz”, alerta.