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Uma vacina universal contra o cancro?

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Uma vacina de imunoterapia contra o cancro é o que um grupo de cientistas afirma ter alcançado

Seria a melhor notícia do mundo para os milhões de pessoas atingidas ou tocadas pelo cancro a nível global. Segundo dados deste ano da Organização Mundial de Saúde (OMS), 8,2 milhões de pessoas morrem de cancro todos os anos, o que representa 13% das mortes no mundo (embora quase o dobro da população receba um diagnóstico de cancro). Um dos maiores problemas é que se espera que o aumento de novos casos nas próximas décadas seja de 70% — o que não augura nada de bom. Mas há esperança no horizonte. Um grupo de cientistas da universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha, afirma ter alcançado um “avanço bastante positivo” na criação de uma vacina universal de imunoterapia contra o cancro. Os resultados da investigação (feita em ratos e em três pessoas com melanoma avançado) foram apresentados na revista “Nature”.

O objetivo da vacina é conseguir levar o sistema imunitário a atacar os tumores do mesmo modo que o faz contra os vírus. O método dos cientistas passou por separar o RNA (ácido ribonucleico, que é responsável pela síntese de proteínas da célula) do código genético do cancro. De seguida, colocaram-no em nanopartículas de gordura e injetaram a mistura na corrente sanguínea de três pacientes em fase terminal de cancro de pele.

A reação dos seus organismos foi muito positiva: criaram linfócitos T (glóbulos brancos) que atacaram as células cancerígenas. E ajudaram a travar o crescimento de tumores, em ratos. Apesar de as doses da vacina terem sido baixas, não há ainda provas de que o cancro tenha desaparecido totalmente, alertam os cientistas. Mas o tumor linfático de um dos pacientes reduziu de tamanho, outro que removeu cirurgicamente os tumores estava livre de cancro sete meses depois da vacinação e o terceiro viu os seus oito tumores estabilizarem depois da vacina.

Nuno Miranda, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas e especialista em Hematologia Clínica, confirma que “o artigo publicado sobre as vacinas baseadas em RNA como arma terapêutica para o cancro corresponde a um marco significativo do progresso científico”, embora seja “um campo de investigação já com algumas décadas”. O médico continua: “Este grupo de cientistas usou uma estratégia diferente para produzir vacinas. Em vez de utilizarem proteínas para provocar a resposta imunológica, utilizaram o RNA responsável pela síntese das mesmas. Identificaram o material genético correspondente a estas proteínas, colocaram estas sequências em embalagens construídas por nanotecnologia e injetaram-nas em doentes. Foi já dentro dos doentes, e num tipo específico de células do sistema imunitário, que foram fabricadas as proteínas de interesse, levando a uma estimulação mais eficaz da resposta imunológica”.

São várias as vantagens. “As maiores são a facilidade e a velocidade com que se podem produzir as vacinas e a maior eficácia de estimulação do sistema imune. No entanto, os resultados são muito preliminares. A aplicação na clínica está ainda longe, e existe uma limitação óbvia à generalização desta tecnologia: se o tumor não tiver alvos para o sistema imune, este é ineficaz”, ressalva. Como tal, a conclusão é que este é mais um passo na luta contra ao cancro. Mas ainda longe da vitória.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 25 junho 2016