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Só as cidades inteligentes vão sobreviver

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Lisboa tem, desde a semana passada, um CDO – Chief Data Officer. O cargo é inédito na Câmara Municipal de Lisboa. Aliás, será único em cidades portuguesas. A capital do país passa a ter um responsável pela gestão dos dados produzidos pelas entidades públicas, empresas privadas e pela população. Isto quer dizer o quê, exatamente? Que João Tremoceiro, que assume o cargo, vai ter construir as “pontes” que ligam todos estes dados e, acima de tudo, transformá-los em informação relevante para Lisboa. Sim, só quando os dados são cruzados e tratados é que se tornam relevantes. Numa cidade essa informação vai permitir, por exemplo, gerir melhor os fluxos de trânsito ou otimizar o consumo da eletricidade e da água. Mas fará mais.

À medida que empresas públicas e privadas abram e partilhem os seus dados será possível monitorizar em tempo real, até, a movimentação de pessoas dentro dos espaços urbanos. O futuro das cidades depende desta inteligência. Conseguir medir é crítico para poder antecipar. Saber quando acontecem picos de consumo de energia vai impedir que existam roturas no abastecimento – cortes, por exemplo.

Isto só é possível porque a tecnologia amadureceu. O Big Data (alojamento e tratamento de grandes quantidades de dados) ganhou ferramentas mais fáceis de utilizar e, essencialmente, mais baratas. É esta grande nuvem de informação que vai servir para Lisboa se otimizar. Mas não só Lisboa. Almada, Oeiras, Porto… são outros exemplos de cidades portuguesas que estão a olhar para a tecnologia como motor de sustentabilidade.

Não se pense que isto das “cidades inteligentes” é só uma questão de investir em máquinas e em software. Sim, é preciso comprar tecnologia. Afinal, as cidades precisam, por exemplo, de uma rede de sensores que recolha uma série de dados em tempo real – a qualidade do ar, por exemplo. Sim, é necessário comprar (alugar) software que analise e cruze os dados para poder perspetivas cenários. É preciso gastar dinheiro para conseguir poupar dinheiro.

No entanto, o maior desafio é o desafio das mentalidades. Essencialmente, estimular a colaboração entre diferentes organizações. Para isso, é necessário acabar, de vez, com as “quintas”. Não faz sentido, nenhum, que as entidades públicas não deem acesso público a dados como os fluxos de trânsito. Rio de Janeiro, Los Angeles, Jacarta, Sidney, Budapeste… são exemplos de cidades que abriram os dados de trânsito à aplicação Waze, da Google.
Hoje, milhões de utilizadores da app podem, nessas cidades, receber avisos em tempo real sobre congestionamentos ou alterações nos fluxos da cidade. Por exemplo, em Sidney, ficou a saber-se que 1 minuto de congestionamento no trânsito equivale a custos de mil dólares para a economia local.

O acesso a este tipo de informação a empresas privadas e públicas (devidamente reconhecidas e autorizadas) permite o surgimento de um ecossistema de inovação onde podem surgir abordagens surpreendentes. Em Lisboa, por exemplo, há apps desenvolvidas por startups que permitem delinear os melhores trajetos de bicicleta ou uma que desenha rotas para experiências gastronómicas baseadas no estado de espírito do utilizador.

Tomemos como exemplo o turismo em Lisboa. Imagine-se o potencial que existe para o desenvolvimento de novos negócios, de novas apps… a partir do momento que seja disponibilizada informação sobre quais os trajetos mais percorridos dentro da cidade; qual o perfil de consumo das pessoas que nos visitam; qual a tarifa energética imposta a Lisboa… etc.
Por isso, é crítico que as organizações públicas e privadas partilhem os dados. Claro que isto pressupõe um quadro legal conforme. Afinal, são necessárias normas e regras que regulem quem tem acesso ao quê – o direito à privacidade, de todos, deve imperar acima de qualquer desígnio economicista.

Em súmula, são três os grandes desafios que se colocam a qualquer cidade que almeja ser inteligente: angariar a verba para a transformação digital, promover a partilha de dados entre as organizações e implementar o quadro legal que regule estas relações.

Em Lisboa, o novo CDO terá de lidar com estas questões que são iminentemente mais do foro das relações pessoais do que das técnicas. Sem resolver as primeiras, as segundas não podem ocorrer.

Os primeiros passos estão dados. O Lisboa Aberta é um bom exemplo. Este portal da Câmara Municipal de Lisboa já disponibiliza alguns dados. É um bom princípio.

E esta semana, na sexta e no sábado, ocorre mais uma etapa do Smart Open Lisboa – o evento onde várias equipas vão desenhar soluções para fazer de Lisboa uma cidade mais inteligente.
A sobrevivência das cidades vai depender do quão inteligente se tornem. E, por vezes, é mais fácil reconverter as antigas do que fazer de raiz. E Masdar é o exemplo perfeito. A cidade encomendada pelos Emiratos Árabes Unidos seria de “emissão zero”. O pináculo em termos de utilização de energias renováveis. Foi há uma década que o projeto foi comprado pelos árabes. Hoje, apenas 5% da cidade está terminada. O sonho de fazer, de raiz, a primeira metrópole inteligente e amiga do ambiente esbarrou com a dura realidade dos erros do Homem. Neste caso, o que parou Masdar foi a crise económica. Deixou de ser de “emissão zero” e passou a ser “livre de carbono”. Talvez em 2030 esteja concluída. Talvez.