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O ano do verão morto

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Porque foi aquele verão tão invernoso? Como se explica a morte de milhares e milhares de pessoas, a perda de culturas e revoltas? Porquê as chuvas anormais em agosto, com um frio como nunca foi sentido no Hemisfério Norte? Porque foi o mundo invadido pela cólera, febre tifoide e doenças relacionadas com a fome? Porque é que Mary Shelley escreveu “Frankenstein”? Qual a inspiração para “Drácula” de Bram Stoker? Como se explicam as fortes colorações nas pinturas de Turner? E porque está tudo isto ligado?

Ao aproximarem-se os últimos dias de 1816, o padre e advogado bracarense José Manuel Tedim deixa para a posteridade um estranho desabafo. Aos 78 anos presencia fenómenos nunca vistos. A 19 de novembro ainda se vindimava na região devido ao amadurecimento tardio das uvas por falta de calor. Fresca na memória guarda ainda outra singularidade vivida em julho. Nunca como naquele mês vira tanta chuva, ou sentira tanto frio. “Nem mesmo nos meses de inverno” alguma vez sofrera tanto desconforto.

Mais de um ano antes, ao aproximar-se o pôr do sol de 5 de abril de 1815, o capitão do “Benares”, um cruzador britânico ao serviço da Companhia das Índias Ocidentais a navegar nas proximidades de Sulawesi, uma das ilhas do arquipélago indonésio, assinala fortes tiroteios de canhão. Assume a existência de piratas na zona e passa os três dias seguintes a escrutinar as ilhas vizinhas. Nada encontra. Em Java assinalam-se similares e poderosos barulhos parecidos com explosões. A cidade é atravessada por um estranho nevoeiro ao mesmo tempo que o sol parece esmorecer.

Cinco dias depois, por volta das sete da tarde do dia 10 de abril de 1815, acontece o apocalipse. Das entranhas da terra jorra lava, fogo, morte. Na ilha de Sumbawa, Indonésia, a mais de 300 quilómetros do local onde navegava o “Benares”, entra em erupção, tal como no dia 5, o vulcão da montanha Tambora, até ali tão adormecido que os locais consideravam ser aquela a morada dos deuses. Ainda ninguém o sabe, mas está naquele momento a começar a maior, a mais violenta, a mais destruidora erupção ocorrida no planeta Terra nos últimos 2000 anos.

Bram Stoker

Bram Stoker

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A jovem Mary

A jovem Mary

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O poeta Shelley

O poeta Shelley

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Diodatti. A Villa junto ao lago Leman teve hóspedes ilustres. Polidori, que escreve “The Vampire”, no qual Bram Stoker (de fato e gravata, em cima) se inspirará para escrever “Drácula”. Acolhe também a jovem Mary, prestes a casar com o poeta Shelley. Participam em tertúlias com Byron (retrato do século XIX), das quais resultará uma fascinante aventura literária, com a criação de “Frankenstein”

Diodatti. A Villa junto ao lago Leman teve hóspedes ilustres. Polidori, que escreve “The Vampire”, no qual Bram Stoker (de fato e gravata, em cima) se inspirará para escrever “Drácula”. Acolhe também a jovem Mary, prestes a casar com o poeta Shelley. Participam em tertúlias com Byron (retrato do século XIX), das quais resultará uma fascinante aventura literária, com a criação de “Frankenstein”

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Há um turbilhão de catástrofes a suceder em simultâneo. Colunas de lava são disparadas para o ar a dezenas de quilómetros de distância. A montanha parece ser engolida por uma gigantesca onda de fogo liquefeito. Estonteantes energias projetam em todas as direções ameaçadoras quantidades de cinza, água e rocha fundida. A mais de 100 km de distância, na aldeia de Sanggar, desaba uma chuva de pedra-pomes. Milhões de toneladas de cinzas vulcânicas e muitos milhões de toneladas de dióxido de enxofre elevam-se a mais de 32 km na atmosfera. Enquanto as nuvens de cinzas engrossam, a lava fervilhante corre montanha abaixo e aquece o ar ambiente até temperaturas inimagináveis. Cria-se um turbilhão ventoso. Há árvores a serem arrancadas pelas raízes. Homens e mulheres, gado e cavalos são arrastados, queimados vivos, ou esmagados pela chuva de rochas. As casas são arrasadas e a aldeia de Tambora desaparece sob um mar de pedras. A lava corre para o oceano. Pelo caminho destrói toda a vida aquática e provoca tsunamis de alturas desmesuradas. Violentas explosões decorrentes da reação provocada pelo contacto da lava com a água fria do mar atiram quantidades ainda maiores de cinzas para a atmosfera e criam vastos campos de pedra-pomes ao longo da costa, alguns deles com quatro quilómetros de extensão. Três horas após o início da erupção, as colunas de magma colapsam sob o seu próprio peso. O topo da montanha está completamente destruído. Onde antes havia um buraco com pouco mais de 90 metros de diâmetro, há agora uma gigantesca cratera.

Quando por fim o vulcão se acalma, Tambora terá libertado 100 km cúbicos de rocha fundida. Seria o suficiente, explicam William e Nicholas Klingman no livro “The Year Without Summer: 1816 and the volcano that darkened the world and changed history”, para cobrir uma área quadrada com 160 km de cada lado e uma profundidade de quase quatro metros. Pelo caminho, só nas primeiras 24 horas após o início da erupção, ficavam 12 mil pessoas mortas. Nos dias e meses seguintes morrem mais dezenas de milhares em consequência da fome e doenças várias. Aquele é o verão de todas as calamidades. As temperaturas baixam e ocorrem profundas alterações climáticas em quase todo o mundo. É um verão de medos, de superstições, de exacerbar de crenças religiosas. É o verão do reinado da literatura gótica e das pinturas marcadas por céus ameaçadores e estranhos pores do sol. Aquele é o verão do caos absoluto, e nada volta a ser como antes.

Ricardo Trigo, 49 anos, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, investigador na área das ciências geofísicas, explica que o sucedido em Tambora “com explosões ouvidas a milhares de quilómetros, é como se metade da ilha do Pico desaparecesse, explodisse e fosse quase toda para a estratosfera. É tudo do domínio do inimaginável”. Estas erupções, sublinha, “lançam quantidades gigantescas de poeiras, cinzas e aerossóis para a atmosfera a grandes altitudes”. Tudo quanto não vai além dos 10 km cai rapidamente. Porém, prossegue, “se passa a troposfera e chega à estratosfera, onde vai encontrar um ambiente mais estável, o efeito de ventos fortes permite que dê a volta ao mundo, influenciando o clima durante meses ou anos”. Foi o que sucedeu. As fortes correntes de vento empurram para o ocidente as poeiras com tal velocidade que, em duas semanas, dão a volta à Terra. Dois meses mais tarde estavam no Polo Norte e no Polo Sul. A juntar a tudo isso, finíssimas partículas de enxofre vão permanecer suspensas no ar durante anos.

Com as alterações das dinâmicas da atmosfera, há zonas que ficam mais frias e outras aquecem. Em 1815/16, em particular na Eurásia e na América do Norte, há registo de assinaláveis descidas de temperatura durante o verão. Como diz Ricardo Trigo, “o verão na Europa e nos EUA foi muito frio, ao ponto de haver descrições de neve e gelos em junho e julho”.

O invulgar arrefecimento e as anómalas precipitações desencadeiam uma enorme quantidade de problemas para grande parte dos residentes na Europa Ocidental, e fomenta novas vagas de emigração para as Américas. Contudo, chamam a atenção os investigadores Jürg Luterbacher, do departamento de Geografia e Climatologia da universidade de Giessen, na Alemanha, e Christian Pfister, do Centro para as Mudanças Climáticas da Universidade de Berna, na Suíça, num trabalho publicado na revista “Nature Geoscience”, “os efeitos não foram uniformes. Em junho, julho e agosto de 1816, as temperaturas foram persistentemente baixas — 2 a 40 abaixo da média do período 1951-1980 tomado como referência — na Europa Central e Ocidental, bem como na zona do Mediterrâneo ocidental. Mas no Leste europeu, no Ocidente da Rússia e em partes do Leste da Escandinávia, as temperaturas foram normais ou até ligeiramente mais quentes do que a média”.

TAMBORA. A erupção criou uma gigantesca cratera, espalhou pelo globo uma enorme nuvem de minúsculas partículas, bloqueou a luz do sol, arrefeceu a Terra, destruiu colheitas e gerou ondas de fome

TAMBORA. A erupção criou uma gigantesca cratera, espalhou pelo globo uma enorme nuvem de minúsculas partículas, bloqueou a luz do sol, arrefeceu a Terra, destruiu colheitas e gerou ondas de fome

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As ilhas britânicas, França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, a Alemanha e a Suíça registam em junho de 1816 o dobro da quantidade de precipitação habitual para a época. Julho revela-se um pouco mais seco, mas em agosto regressam as chuvas. Por contraste, em algumas regiões de Espanha o verão é mais seco do que o habitual, enquanto em Portugal os meses de julho e agosto são mais chuvosos.

Num trabalho publicado no International Journal of Climatology, assinado por Ricardo Trigo e mais cinco investigadores portugueses, espanhóis e o suíço Luterbacher, destaca-se o facto de uns anómalos 20 mm a mais de precipitação em agosto poderem ser mais significativos (em termos estatísticos) do que a correspondente anomalia de 50 mm a mais em janeiro. Esta perceção é essencial, dizem, “para que se perceba porque é que tanta gente em Portugal se refere ao chuvoso verão de 1816, apesar de a quantidade total de precipitação naquela particular estação ter sido menor que a registada num típico inverno seco”.

A verdade é que, em termos gerais, o verão de 1816 foi frio e húmido, com efeitos terríveis nas colheitas. Um pouco por todo o lado, as safras de 1816 e 1817 foram miseráveis. No seu livro “Tambora: The Eruption that Changed the World”, Gillen d’Arcy Wood, professor na Universidade de Illinois (EUA), lembra que no início do século XIX a grande maioria da população vivia num mundo essencialmente agrícola e dependente dos humores da natureza. Quando as colheitas são gravemente prejudicadas, como sucedeu em 1816 e no ano seguinte, “legiões de pessoas avançaram dos campos para as cidades para mendigar esmolas ou vender os filhos a troco de comida. Doenças relacionadas com a fome, bem como a cólera ou a febre tifoide, invadiram o mundo, da Índia a Itália, enquanto o preço do pão e do arroz, os alimentos dominantes à época, disparavam sem qualquer contemplação”. As tragédias humanas nunca afetam todos e muito menos a todos da mesma maneira. A desgraça de uns pode ser a sorte de outros. Os agricultores da Rússia e do Oeste norte-americano, revela ainda Gillen Wood, “floresceram como nunca, vendendo as suas colheitas a preços estratosféricos a compradores desesperados”.

Num continente europeu devastado pelas guerras napoleónicas, mais de 90 mil veteranos desmobilizados vêm-se incapazes de alimentar os seus familiares. Aumenta o desespero nas populações e os diferentes poderes começam a temer o deflagrar de motins suscetíveis de colocarem em causa a ordem estabelecida. Num trabalho publicado na revista “The Economist” pelo historiador John Post a pretexto dos efeitos do Tambora, afirma-se que o ambiente de desordem surgido na sequência do mau tempo verificado entre 1816 e 1818, com a subsequente repressão, criou regimes autoritários que imperaram até meados do século XIX.

Há um ambiente de medo, de terror, próprio de uma época de superstições e fantasmas, com muitas alucinações à mistura. Desde logo porque só dezenas de anos depois surgem estudos capazes de fazer uma associação entre aquelas drásticas alterações climatéricas e a erupção de um vulcão na Indonésia. Em rigor, só com o advento da chamada Guerra Fria, já em pleno século XX, e com a sofisticação dos aparelhos de controlo e vigilância, começam a ser coligidos dados capazes de fazer compreender em toda a sua extensão os danos provocados pelo Tambora. Assim, naquele início do século XIX vive-se um ambiente marcado pelo estranhamento, pela sensação de apocalipse, que não poderia deixar de se refletir na criação artística e literária.

Neste contexto de incerteza, de dúvida e de profundas convulsões sociais, um poeta inglês, Percy Shelley, decide, em maio de 1816, partir para a Suíça, de modo a passar uma temporada junto ao lago Leman, em Genebra. Vai acompanhado de uma jovem de 17 anos, então ainda conhecida por Mary Godwin, filha do escritor e filósofo William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft. Partem por sugestão da meia-irmã de Mary, Claire Clairmont. Um dos objetivos deste difícil percurso através de uma Europa devastada e atormentada por inexplicáveis fenómenos climáticos consiste em materializar o desejo manifestado por Shelly de conhecer o poeta romântico George Gordon Byron, celebrizado no mundo das letras com o nome de Lorde Byron.

Em todos prevalece, porém, o desejo de fuga, recorda Filomena Vasconcelos, professora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. As bordas do lago Leman constituíam, à época, um excitante espaço de encontro de livres-pensadores, aventureiros sexuais, filósofos e outro tipo de exilados do pensamento dominante, disponíveis para frequentar os muitos salões literários por onde jorravam espaços de criatividade. Oriundo de uma Inglaterra muito conservadora nos costumes, aquele grupo tinha todos os motivos do mundo para procurar refúgio na imaginária tranquilidade do lago suíço.

Percy Shelly, um frequentador das tertúlias em casa do pai de Mary, escrevera em 1811 um tratado intitulado “The Necessity of Atheism” (“A necessidade do Ateísmo”). Aos diretores dos colégios da Universidade de Oxford, onde estudava, chega uma cópia da primeira versão e o choque é de tal ordem maiúsculo que o jovem Percy acaba por ser expulso. Para lá de se recusar a negar a autoria do ensaio, em conjunto com o seu amigo Thomas Jefferson Hogg, não aceita formular qualquer pedido de desculpa. Três anos mais tarde incompatibiliza-se com William Godwin. Não obstante todas as teorias libertárias alimentadas nos seus escritos e prática quotidiana, ao filósofo repugnara o comportamento de Shelley. Casado e com dois filhos, o poeta, então com 21 anos, seduzira a adolescente Mary, cinco anos mais nova, com quem empreende uma fuga que não evita o escândalo e até o ostracismo com que ao longo dos tempos ambos se irão confrontar. Claire Clairmont era parte interessada na viagem. Tivera em Londres um caso com Byron, acabado de sair de um divórcio tormentoso. Famoso, também pela sua voragem sexual, estava a ser acusado de ter alimentado uma perigosa situação muito próxima do incesto ao envolver-se com uma sua meia-irmã. Claire vê na viagem à Suíça uma hipótese de reencontro com este homem que não a amava, mas, dirá mais tarde, nunca poderia recusar uma jovem que constantemente se lhe oferecia. A todos eles juntava-se John Polidori, o jovem e recente médico pessoal de Byron, que ali estaria, segundo algumas teses, como espião a soldo da editora do poeta.

A viagem não fora simples. Atravessam, diz Filomena Vasconcelos, uma França “muito arrasada pelas consequências da Revolução Francesa, passam por Itália e chegam à Suíça”. Como irá recordar mais tarde Mary num seu livro de viagens, passam por um mundo desolado, marcado por vastas extensões de neve. Ficam-lhe na memória paisagens assustadoras e todo um ambiente de grande depressão. Exausta, após dez dias de viagem iniciados em Londres, chega à Suíça feita um farrapo.

Se julgavam ir encontrar uma paisagem idílica, mergulham na frustração total. Acabam fechados em casa, como única forma de escapar ao que já lhes parecia serem chuvas perpétuas e tempestades sem fim. Começam por se alojar num hotel. Todavia, por sugestão de Byron, que conhecem um dia após a chegada, mudam-se todos para o conforto de duas vivendas alugadas. Byron instala-se na luxuosa Villa Diodati, com fantásticas vistas sobre o Lago Leman, e os Shelley (ainda o não são de facto, mas não tardarão a casar-se) optam pela muito próxima e mais modesta Maison Clairmont.

Começa uma das mais fascinantes aventuras literárias do século XIX. Passam horas reunidos nos salões da Villa Diodati, onde crescem tensões e pulsões de toda a ordem, com Claire a querer Byron, com Byron a querer Mary, com Mary a rejeitar Byron, com Byron a engravidar Claire, com Percy recolhido no seu próprio mundo, e com Polidori a beber tudo de uma forma que teria depois uma tradução avassaladora.

Lá fora, o mundo parece desabar sobre si próprio. Tudo está ao contrário. Ao meio-dia acendem-se velas para contornar a escuridão. No verão, o tempo é de inverno. Esporádicas saídas permitem-lhes o prazer de raros passeios de barco no lago. Lá dentro discute-se política, fala-se de poesia, lê-se literatura gótica alemã traduzida em francês, debatem-se os caminhos da ciência. É, explica a professora da Faculdade de Letras, “uma atitude muito típica do segundo romantismo”, esta apetência por uma visão científica da sociedade. Mais tarde, Mary deixará escrito que muitas e longas eram as conversas entre Lorde Byron e Shelley, às quais assistia “como ouvinte devota, mas silenciosa”. Num desses serões a discussão incide “sobre doutrinas filosóficas e, entre outras, sobre a natureza do princípio da vida, e se havia possibilidade” de materializar esse conceito.

Uma noite surge um desafio inesperado. Byron incita cada um dos presentes a escrever uma história de fantasmas. Inicia ele próprio um conto, depois inserido, escreve Mary, no final do seu poema “Mazeppa”. Shelley começa um conto baseado nas suas primeiras experiências de vida. Polidori concebe “qualquer coisa sobre uma mulher que tinha por cabeça uma caveira”. Mary, muito culta, apesar da sua juventude, concentra-se em criar “uma história que falasse aos misteriosos medos de nossa natureza e despertasse um espantoso horror”. Queria, afinal, uma história capaz de deixar o leitor amedrontado, com o sangue gelado e o coração a bater de forma acelerada. Se o não conseguisse, admite, a sua história de fantasmas “seria indigna do seu nome”.

Passam os dias e nada lhe ocorre, apesar do ambiente feérico vivido na Villa Diodati, com vinho e láudano (um preparado de vinho, ou whisky, açafrão, canela e ópio) a correrem com abundância pelos copos de vários dos convivas. As conversas tomam rumos tão inesperados como sinistros. Talvez fosse possível reanimar um cadáver. Talvez fosse possível fabricar as partes que compõem uma criatura. Talvez fosse possível juntá-las e dar-lhes vida. Talvez os impossíveis não existam naquele mundo às avessas. Num desses encontros, evoca Filomena Vasconcelos, a agitação atinge limites insuportáveis para Percy Shelley, devido ao modo como Byron recita o poema “Christabel”, de Samuel T. Coleridge. Mary fica perturbada e tem uma noite difícil. Não consegue dormir. Tem um pesadelo durante o qual vê “o horrível espectro de um homem estendido que, sob a ação de uma máquina poderosa, mostrava sinais de vida”.

Naquela madrugada, naquele quarto, enquanto o mundo vive um tempo de trevas, nasce uma das criações fulcrais da literatura do século XIX. Na manhã seguinte, exultante, Mary proclama: “Encontrei!” Recorda o terror vivido ao experienciar a possibilidade de alguém se substituir ao criador e pensa que o que a aterrorizara por certo encheria de horror os outros. Nascia “Frankenstein”.

É um dos mais invulgares, mais famosos e importantes romances daquele século. Escrito sob a forma de cartas, a história é contada a partir de diferentes pontos de vista. “Frankenstein”, livro que originou vários filmes, o mais célebre deles protagonizado pelo ator Boris Karloff, conta a história de um cientista, Victor Frankenstein, cego com as suas investigações ao ponto de perder o contacto com a realidade. Consegue criar uma nova vida através da junção de partes de corpos e dali resulta um ser monstruoso que, apesar de tudo, tem sentimentos humanos. Responde à rejeição com fúria e violência e vem colocar a questão do criador e da criatura através de um conjunto de dilemas éticos ainda hoje atuais. Não por acaso, Mary Shelley dá-lhe como subtítulo “O Moderno Prometeu”, numa referência à mitologia grega e ao roubo do fogo dos deuses para ser dado aos homens. Prometeu é punido por Zeus, devido ao receio que os homens ficassem tão fortes como os deuses. Mary, assinala Filomena, “está consciente da situação dos homens, da necessidade de transgredir”. Percebe, porém, que “a ciência pode ultrapassar a natureza, mas a consciência desta transgressão é a morte”.

Se Mary, com “Frankenstein”, decidira suscitar a fundamental questão sobre o direito moral de criar vida artificial, Byron opta por um longo e apocalíptico poema intitulado “Darkness” (“Escuridão”). John Polidori, que entretanto se incompatibilizara com Byron, escreve “O Vampiro”, uma obra precursora de um género, na qual muitos reviram a figura de Byron e que mais tarde servirá de inspiração a Bram Stoker para escrever “Drácula”.

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Cinema. Publicado anonimamente pela primeira vez em março de 1818, “Frankenstein”, escrito de forma brilhante por Mary Shelley com apenas 18 anos, inspirou vários filmes. O mais célebre data de 1931, tem Boris Karloff como protagonista e é dirigido por James Whale

Cinema. Publicado anonimamente pela primeira vez em março de 1818, “Frankenstein”, escrito de forma brilhante por Mary Shelley com apenas 18 anos, inspirou vários filmes. O mais célebre data de 1931, tem Boris Karloff como protagonista e é dirigido por James Whale

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Nas discussões do mundo académico e jornalístico anglo-saxónico é muito frequente partir-se de uma pergunta especulativa — what if? (E se?) — para desenvolver hipóteses e raciocínios. É por isso tentadora a ideia de lançar a pergunta: E se o mundo não tivesse estado próximo do colapso naqueles anos de 1815 a 1818, teríamos conhecido alguma destas obras? O pintor inglês William Turner teria pintado as suas famosas paisagens com céus avermelhados, numa óbvia reprodução dos estranhos pores de sol vividos naquele período? Teria ressurgido com tanta força o muito celebrado e antigo, mas esquecido, género de versos chineses chamado “Poesia dos sete lamentos”, através do qual o poeta dramatiza as perturbações e males infligidos aos cinco sentidos, a que se juntam os sentimentos de injustiça e amargura?

Nunca o saberemos, mas temos elementos bastantes para considerar uma resposta negativa. Como temos dificuldade em perceber quanto se possa ter passado noutras latitudes. Até porque, realça Ricardo Trigo, o autor do estudo onde se cita o trabalho do investigador José Marques com a história do padre de Braga referida no início deste texto e publicado na revista “Bracara Augusta”, é muito escassa a informação proveniente de arquivos de África, Austrália ou América Latina. Há notícias de uma epidemia de cólera em 1817 que terá começado na Índia, estendeu-se até Itália e deixou um rasto de milhões de mortos. No Sudoeste da China, diz ainda o autor de “Tambora”, numa zona de montanhas e selvas percorridas por tigres e elefantes, assistiu-se a um mês de julho de 1816 com nevões sem precedentes. As colheitas de arroz perderam-se e a fome subsistiu durante anos.

Não há qualquer evidência de que uma erupção similar à do Tambora possa ocorrer nos próximos tempos. Porém, a acontecer, teria consequências infinitamente mais devastadoras, seja em vidas humanas, seja em destruições materiais, por ser hoje outra a realidade do mundo. O clima continuará a passar por significativas alterações. Essas mudanças, refere Ricardo Trigo, têm vindo a provocar um aumento da temperatura média. Fenómenos como El Niño ou La Niña têm consequências de efeitos contrários e contribuem também para essas variações de temperatura. Porém, o aumento global verificado no último meio século, reforça o geofísico, “é resultante do efeito dos gases de estufa emitidos pelo homem”. No seu todo, prossegue, a temperatura vai aumentar nos próximos 20 ou 30 anos. O modo como evoluirá dependerá de ocorrer, ou não, uma megaerupção, ou uma La Niña, que não se consegue prever.

O clima varia em função de todos estes fatores, mas, diz ainda Ricardo, é importante ter a noção de que em cima de tudo isso há o contributo do homem, “que começou a alterar o clima de forma dramática nos últimos 200 anos”. De resto, conclui, depois da glaciação, há 10 mil anos, “foi o homem que introduziu uma nova variável, com a desflorestação e o aparecimento da agricultura. Começou aí uma lenta mas decisiva alteração do clima, uma vez que a destruição das florestas tem tanto ou mais efeito que os gases de estufa, ao alterarem os padrões de humidade e de chuva”.

Em 1816 o verão não existiu. Naquele ano, o verão morreu. Duzentos anos depois, todos os dias o homem dá gigantescos passos em direção a um futuro cada vez mais feito de incertezas. O abismo está próximo. Com ou sem apocalípticas erupções de vulcões adormecidos.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2016