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Michel Rocard ao Expresso, em 1999: “Otelo foi um pouco louco”

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Quando Portugal assinalou os 25 anos sobre a Revolução dos Cravos, o antigo primeiro-ministro francês - que este sábado morreu - deu uma entrevista, onde falou sobre o periodo revolucionário português e a situação do nosso país. Esta é a republicação dessa entrevista.

Antigo primeiro-ministro francês, Michel Rocard é um histórico do socialismo europeu - aderiu ao PSF em 1974 vindo do PSU (PS Unificado), que dirigia desde 1967.

Reformista e moderado, foi um dos principais adversários do ex-Presidente François Mitterrand, com quem nunca se entendeu. Durante o período revolucionário português, Rocard veio a Portugal «sete ou oito vezes» para apoiar os socialistas portugueses.

Revela ter feito então, a pedido de Mário Soares, um relatório «sobre os bloqueios» na economia portuguesa.

Vinte e cinco anos depois da revolução, acha que Portugal está bem ancorado, está num bom porto

Claro! O problema era construir primeiro a democracia, e isso foi feito; a seguir era voltar a enraizar Portugal na Europa, de onde estava excluído devido ao fascismo, e também isso foi feito; em terceiro lugar, era preciso acabar com as guerras coloniais, que não tinham sentido, e reconhecer que chegara o tempo da independência das colónias, e ainda isso foi conseguido. Tudo isto é magnífico! Mesmo que não tenha sido possível suprimir toda a pobreza e que o crescimento económico não tenha sido tão rápido quanto possível, acho que o caminho percorrido por Portugal é notável.

Chegou a ter receio de que os comunistas conquistassem o poder?

Toda a gente teve receios desse tipo. Estive em Lisboa diversas vezes no período quente, designadamente num imenso comício do PS, liderado por Mário Soares, que era um «meeting» pela unidade ao qual os militantes chegavam lentamente vindos das províncias. Recordo-me que os comunistas tentavam impedir pela força que eles viessem ao comício, porque o PCP estava na altura claramente numa política de tomada do poder. Eu estava na tribuna e lembro-me de que nós, os socialistas estrangeiros, tivemos medo, porque não conseguíamos medir bem a relação de forças entre os democratas de esquerda e os comunistas, que eram de esquerda mas não eram democratas. Mas todos admirámos a firmeza militante das forças socialistas portuguesas e todos gritámos: «Bravo Mário Soares, que coragem e que defesa!»

Espantou-o o comportamento dos militares portugueses, que fizeram um golpe de esquerda e acabaram por entregar o poder aos civis?

A mim não. Mas eu faço parte do grupo de pessoas que estudaram sociologia, que conhecem a história das forças armadas e que sabem que é difícil ser militar. Eu sabia que as forças armadas portuguesas eram muito diferentes de umas forças armadas fascistas.

Não eram como as sul-americanas...

E mesmo na América do Sul depende dos países... Temos o exemplo do Chile, com um golpe horrível. Já no Brasil, as forças armadas também fizeram um golpe, mas acabaram por encontrar uma via interna que as levou a restaurar a democracia e a entregar o poder aos civis. Não me surpreendeu que os oficiais, e também os soldados, recusassem fazer guerras coloniais que não podiam ganhar e que eram mal pensadas, devido a razões políticas misturadas com negócios da grande burguesia portuguesa.

Acha que Mário Soares foi o homem-chave do período da revolução e dos 25 anos que se seguiram?

Não foi o único, mas foi o homem-referência, o pilar de todo este período. Mas felizmente que ele teve ao seu lado alguns militares verdadeiramente democratas e não golpistas, elementos responsáveis e equilibrantes na marcha para a democracia civil. O meu amigo Otelo foi um pouco louco, foi demasiado longe... Foi uma aventura muito complexa que os portugueses viveram apaixonadamente.

Que tipo de apoio foi dado pelos socialistas franceses à revolução portuguesa

Logo a seguir à revolução dos cravos viajei para Portugal. Não demos apoio financeiro, pois sempre fomos um partido pobre. Mas no apoio moral, no apoio político, no apoio técnico, sobretudo, fomos muito activos.

Guarda algumas recordações especiais das suas viagens a Portugal?

Para além daquela do comício, de que já falei, guardo outras menos revolucionárias e menos poéticas, de reuniões de trabalho pela noite dentro com a Administração portuguesa para fazer avançar certas decisões...

Se não tivesse ocorrido o 25 de Abril, o que teria acontecido a Portugal e quais seriam hoje as suas relações com a Europa e com a França?

Ninguém pode responder a isso, porque não se reinventa a História. Mas decerto que Portugal teria perdido muitos anos a gerir a transição progressiva da saída do fascismo. A sociedade civil de esquerda, com Salazar e Caetano, era muito menos desenvolvida do que em Espanha. Além disso, em Espanha, o Opus Dei conseguia afrouxar alguns travões, mesmo tendo em conta Franco. Em Portugal, tornava-se claro que a mudança deveria passar pelo Exército. Sem a revolução dos cravos, seriam 15 ou 20 anos de negociações com o poder, e o país ficaria extremamente atrasado.

O que é que lhe diz hoje Portugal?

É um país membro da União Europeia, respeitado pela dureza das condições com que instaurou a democracia, respeitado porque, desde há 25 anos, nunca mais houve um acidente contra as regras da democracia e porque existe a alternância de poder e o respeito pelas eleições. Portugal é um país que está «muito bem».

(Entrevista publicada na Revista do expresso, edição 1382, de 24 de abril de 1999)