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Dente a dente fica sempre alguém doente

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Para muitos o parente pobre da medicina geral, a higiene oral continua um passo atrás do resto do sector da saúde em Portugal. Numa fase em que se discute o alargamento deste campo aos cuidados de saúde primários, saiba o que está em causa

Tiago Oliveira

Tiago Oliveira

Texto

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Quando foi a última vez que foi ao dentista? Sabe como estão os seus dentes? Quando vai a uma consulta, é no sector privado ou público (sim, por mais desconhecida e pouco disponível que seja, essa hipótese existe)? Se está a ler isto e não consegue responder com um grande grau de certeza a cada uma das perguntas então é altura de fazer uma pausa, olhar para o espelho, abrir a boca e perceber o que pode fazer pelos seus dentes. Eles agradecem. E a saúde da população portuguesa também.

De acordo com os dados mais recentes da Ordem dos Médicos Dentistas, 46,7% dos portugueses não consultam um profissional da área há mais de um ano. Dito de outra forma, praticamente metade da população não cumpre sequer o requisito mínimo para se inteirar da sua situação dentária. Este valor coloca-nos na cauda da Europa e é indicativo do estatuto (ou falta dele) que a higiene oral ainda possui no nosso país. Por exemplo, no panorama da Europa Ocidental, a OMS recomenda a existência de um médico dentista por 1500 a 2000 habitantes quando, em Portugal, esse número é de um por 1161. Mas a falta de acessibilidade faz com que, na prática, este rácio seja de um médico dentista para 500 a 600 habitantes.

“Os indicadores que nos permitem conhecer a situação da saúde oral no nosso país, infelizmente, ainda apresentam dados que nos deixam insatisfeitos”, confessa Orlando Monteiro da Silva. O bastonário dos médicos dentistas diz que há várias razões para que esta realidade continue a subsistir em Portugal, mas faz questão de realçar uma em particular, capaz de “tirar o sono”: os fatores de acesso económico. “Apesar de termos atualmente profissionais técnica e cientificamente bem formados e uma rede de clínicas e consultórios que cobrem a totalidade do território nacional, a acessibilidade dos portugueses a cuidados de saúde oral é ainda muito problemática”, garante Orlando Monteiro da Silva. “Antes da crise económica e financeira estávamos a entrar numa curva interessante. Era timidamente ascendente, mas começava a indiciar consistência. Cada vez mais pessoas visitavam regularmente o médico dentista, começávamos a ter algumas camadas da população que anteriormente não nos visitava, a dor passava a não ser a única motivação da consulta. A crise, como todas as crises, obrigou a maioria da população a reorientar os seus gastos, e a saúde oral foi uma das vítimas.”

Na opinião de Fátima Duarte, presidente da Associação Portuguesa de Higienistas Orais, a solução não passa por ter mais dentistas, quando já existem perto de nove mil médicos, mais de 600 higienistas orais, entre outros profissionais da área, como médicos estomatologistas e ainda vários odontologistas. Valores “em excesso” que deveriam ser “suficientes para sanar esta situação” e que tornam ainda mais “assustadora” a incidência de “doenças orais comuns”, mesmo a contar com os avanços realizados nas últimas décadas. A especialista em higiene também não tem dúvidas de que “outra das situações que faz também as pessoas não aderirem às consultas” é, muitas vezes, a ausência de “preços razoáveis ou mesmo baixos.”

Por outro lado, a questão cultural também provoca um grande impacto. Veja-se a percentagem de portugueses que não vai ao dentista porque não acha necessário: 38,1%. Um número que impressiona e que, para Miguel Pavão, da organização não-governamental Mundo a Sorrir, demonstra como “a questão educacional é uma razão que não pode ser descartada como motivação para não ir ao dentista.” O responsável advoga que o principal foco de medidas para melhorar a saúde oral dos portugueses “não deve ser assistencialista, mas sim preventiva, de educação.” Por isso, defende que projetos em “escolas e comunidades desfavorecidas”, como os que são levados a cabo pela sua organização, podem fazer toda a diferença.

Gestão mais eficiente

Negligenciar o problema da mentalidade de base provoca (e tem provocado) “círculos viciosos negativos”, que se repercutem “em investimentos a montante” quando deviam ser “a jusante” e “gastos de dinheiro públicos supérfluos” que não atacam diretamente a raiz do problema. Não é por acaso que ainda “se trata do parente pobre da medicina geral”, aponta Miguel Pavão. As consequências estão à vista e colocam Portugal como um dos países onde se morre mais por causa de problemas na dentição. Complicações médicas ligadas a problemas cardiovasculares, diabetes ou pneumonia, entre outros, são agravados por falta de higiene o que, ligado a uma incidência superior na população idosa e à maior fragilidade dos sistemas imunitários, provoca uma situação potencialmente explosiva.

Para tentar contrariar o que Orlando Monteiro da Silva caracteriza como a “exclusão da saúde oral por parte do Serviço Nacional de Saúde” desde a sua criação — “até parece que os portugueses não têm boca”, atira — o Governo lançou recentemente um projeto-piloto de integração de médicos dentistas nos cuidados de saúde primários, a decorrer em 13 centros de saúde espalhados por Lisboa e Alentejo.

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O objetivo é aumentar a capacidade de resposta e aproximar estes cuidados da população e surge na sequência da introdução do cheque dentista (que dá acesso a um conjunto de cuidados para crianças e jovens, mulheres grávidas, idosos e doentes com a infeção VIH) no SNS. A medida é apoiada pelo bastonário “se a tal universalidade de acesso se veja assegurada nesta experiência e se a qualidade for uma certeza e a sustentabilidade se comprove”.

Aprovação que também é dada por Fátima Duarte, para quem medidas como esta podem “dar alguns números positivos para a saúde oral dos portugueses”, mas deixa o alerta que “ainda muito está por projetar e fazer de forma adequada”. Uma sugestão que deixa, “com base no sistema nórdico”, é a introdução de um “esquema de obrigatoriedade do Estado em que esta área da saúde fosse obrigatória, tal como as vacinas”. Tudo para dar passos com a meta de acabar com uma “situação gritante”.

Longo prazo

A passagem de algumas das competências do Estado neste campo para as autarquias e entidades locais é entendida por Miguel Pavão, porque aquelas “têm uma noção bem mais adequada do que são as verdadeiras necessidades do terreno e podem ajudar a uma gestão mais eficiente dos fundos públicos”. Mas num país onde só existem cerca de “20 dentistas no Serviço Nacional de Saúde” para todo o continente, o projeto-piloto só pode ser visto como “louvável”. Gestos pequenos como fazer com que as crianças levem a escova de dentes para a escola ou legislação como a recentemente anunciada taxa para produtos açucarados são exemplos de medidas com grande potencial de impacto a longo prazo. Porque não se pode esperar que a situação mude “rapidamente e de forma radical”. Só com um plano estruturado e bem pensado para “20 ou 30 anos” é que se pode almejar conseguir “algo de substancial” no sector.

Ainda assim, já se colhem alguns frutos destas medidas, e Fátima Duarte acha mesmo que “as pessoas estão mais despertas para a sensibilização da saúde oral” uma vez que as campanhas de sensibilização levadas a cabo pelos profissionais “têm vindo a abrir a mente quer a nível individual quer comunitário”. Acentua-se a experiência de adotar outras medidas de prevenção — em número bem maior se compararmos com fins do século passado — e a perceção que não é “necessário investir tanto no tratamento e sobretudo na dor”.

O ‘parente pobre’ tem um caminho grande a percorrer. Mas é essencial que haja bases para o fazer porque, como diz Orlando Monteiro da Silva, “sem saúde oral, não há saúde geral”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 25 junho 2016