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Prémios Nobel apelam a fim de campanha da Greenpeace contra alimentos transgénicos

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David Greedy/Getty Images

Mais de cem personalidades laureadas com o Nobel da Química, Física, Medicina, Economia e Paz acusam a organização ambientalista de “crime contra a humanidade”, por estar focada na luta contra o arroz dourado, que consideram ter potencial para combater a malnutrição

O que é que o arroz geneticamente modificado pode contra a malnutrição que existe no mundo? O arroz dourado é considerado um precursor da vitamina A, o que, num planeta onde 250 milhões de crianças sofrem de carência desta vitamina e 500 mil de cegueira irreversível na sequência desta (dados da Organização Mundial de Saúde), pode levá-lo a ter um papel essencial no combate à malnutrição. É isto que defendem as 110 personalidades laureadas com o Nobel da Química, Física, Economia e Medicina (bem como Nobel da Paz e ex-presidente de Timor Leste, Ramos Horta), que assinaram uma carta aberta contra a Greenpeace.

Em causa está a campanha da organização ambientalista contra os alimentos transgénicos. “A Greenpeace tem encabeçado a oposição ao arroz dourado, que tem o potencial de reduzir ou eliminar grande parte das mortes e doenças causadas pela deficiência de vitamina A, que ceifam as pessoas mais pobres de África e do sudeste asiático”, lê-se na carta encabeçada por Richard Roberts, diretor científico do New England Biolabs, juntamente com o Nobel da Medicina de 1993 Philip Sharp. “Quantas pessoas pobres precisam de morrer no mundo antes de considerarmos isto um crime contra a humanidade?”

Criado em 1999, o arroz dourado foi geneticamente modificado para ser enriquecido com vitamina A. Os signatários apelam à Greenpeace que “reconheça as conclusões das instituições científicas competentes” e “abandone a sua campanha contra os organismos geneticamente modificados, em geral, e o arroz dourado, em particular”. Acusam ainda a organização de deturpar “os riscos, benefícios e impactos” desse tipo de cultura e de apoiar “a destruição criminosa de campos de testes aprovados e projetos de pesquisas.”

O debate entre alguns cientistas e os ativistas ambientais não é novo. Os prémios Nobel recordam que várias agências científicas e reguladoras têm reconhecido a segurança dos alimentos melhorados pela biotecnologia, colocando-os ao nível dos derivados de outros métodos produtivos. E recordam que, além de não existir qualquer caso confirmado de danos para a saúde de humanos ou animais, os impactos ambientais são menos prejudiciais que outras tecnologias.

Em comunicado, a organização ambientalista refutou as acusações, realçando que o arroz dourado “não provou ser eficaz para a deficiência de vitamina A”. “O arroz dourado falhou como solução e ainda não está disponível comercialmente, mesmo após mais 20 anos de investigações”, declarou a representante da Greenpeace no sudeste asiático, Wilhelmina Pelegrina. E aponta o dedo a algumas instituições que considera estarem a exaltar “em excesso” o arroz dourado para “abrir caminho no sentido da aprovação global de culturas transgénicas mais lucrativas”.

Já Richard Roberts recorda, em entrevista ao “The Washington Post”: “Somos cientistas. Entendemos a lógica da ciência. É fácil perceber que o que a Greenpeace está a fazer é prejudicial e anticientífico - primeiro a Greenpeace, depois alguns dos seus aliados, que estão deliberadamente a assustar as pessoas. É um forma de angariarem dinheiro para a sua causa”.