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#Trolls. Carta de um jornalista 'cocainado' à sua mãe

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TROLL. A criatura que vai para as caixas de comentários das publicações online vomitar ódio, insultos, preconceito

Perdoa-me, mãe, a dor que te causei. Imagino como te terás sentido ao ler nos comentários da minha última crónica que sou um "jornalista cocainado" e que deveria ir fazer "mais uma cura a Espanha". O Gonçalo, um tipo que, a acreditar no que escreve no Facebook, se preocupa com a difamação na imprensa, insinua que deve ter sido no Lux, uma discoteca de Lisboa, que apanhei o vício. Ele e o Manuel, um tonto da Arrentela, lá saberão do que falam. Tu educaste-me melhor, mãe, não merecias isto. Perdoa-me.

Claro que, como é óbvio, nada disto é verdade e não deixa de ter alguma piada que se acuse de ser 'cocainado' quem nunca fumou sequer e raramente bebe. Seria risível se a difamação não fosse um crime. Seria só patético, se não fosse patológico. Seria um fait divers se não acontecesse todos os dias a jornalistas, a figuras públicas e a cidadãos anónimos de todo o mundo. Esta gente odiosa tem um nome: são os trolls da internet e já mereciam um estudo antropológico.

O troll é a criatura que vai para as caixas de comentários das publicações online vomitar ódio, insultos, maldade, crueldade, preconceito. É um terrorista cobarde, que se esconde detrás do anonimato para escrever sistematicamente comentários desagradáveis, violentos, sem argumentação construtiva, na internet ou nas redes sociais. Que posta mensagens ofensivas em páginas de Facebook em memória de pessoas que morreram. Que usa linguagem racista, sexista, misógina e homofóbica. É um verme, solitário e obscuro. Sem espinha dorsal.

O troll não vê virtudes, só defeitos. O troll nunca elogia. O troll insulta, inventa, difama, espalha rumores, mentiras, falsidades. Ameaça. Aconteceu a Jared Yates Sexton, um professor universitário norte-americano que ousou escrever sobre um comício de Donald Trump. Esta semana contou que quando a sua história "American Horror Story" foi publicada na "New Republic" chegou o assédio online. E, por fim, as ameaças de morte. No Twitter, alguém sugeriu que o enforcassem. Este troll, como muitos outros, tem provavelmente família, filhos, um emprego estável. Mas também é um criminoso, que se julga inimputável porque se esconde detrás de um ecrã e porque pensa que a Internet é território sem lei, onde vale tudo. Não vale.

O vício do troll é irritar o maior número de pessoas possíveis, arruinar-lhes o dia. Tira prazer de ficar a vê-los perder a compostura, angustiados. O troll quer que desçamos ao nível dele para nos poder bater pela experiência. É, por isso, que nunca devemos responder a um troll. O melhor é deixá-lo a falar sozinho.

Sexton tentou uma abordagem diferente. Abordou alguns dos seus trolls para tentar perceber as motivações destes. Para sua surpresa, houve quem abandonasse os ataques e se encontrasse com ele "a meio do caminho". Desde então, tem estado a trocar mensagens com pessoas que, há alguns dias, questionavam agressivamente as suas motivações e a sua integridade. "Falam-me dos seus filhos, dos seus trabalhos, dos seus filmes favoritos. O mais provável é que nunca concordemos politicamente, mas podemos ao menos ter uma conversa." Talvez seja esse o antídoto para os trolls, sugere o autor. Tentar ver para lá dos nomes do ecrã, encontrar a pessoa do outro lado da máquina. Não será demasiado otimista?

Como jornalista, tenho de estar preparado para o rigoroso escrutínio público do meu trabalho. Para que o critiquem, mesmo que injustamente. Do outro lado, haverá sempre quem acredite com a mesma paixão em ideias opostas às minhas. Essa discordância é até salutar, porque a realidade tem diferentes matizes. Só que, nas caixas de comentários dos jornais online e das suas redes sociais, raramente se discutem ideias. Fazem-se juízos infundados, insulta-se, ameaça-se. Cria-se um ambiente que torna impossível qualquer debate. O problema, defende Whitney Phillips, autora de "This is Why We Can't Have Nice Things Online", não é apenas dos trolls. É da cultura onde estes prosperam.

Por isso, mãe, às vezes o que apetece é fazer como o Ronaldo. Pegar no troll e mandá-lo para o lodo, o lugar onde ele pertence. Mesmo que ele encontre sempre forma de voltar a rastejar de lá para fora.