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Colada à pele

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d.r.

A roupa interior tem muito que se lhe diga. Revela a evolução dos costumes, conta a história da moda e descreve-se como o caminho moral que a sociedade se impôs ou não a si própria

Alexandra Carita

Alexandra Carita

em Londres

Jornalista

É a escolha mais íntima que se faz, aquela em que decidimos que roupa interior vamos usar. Quase como uma pele que se cola à nossa, a sua evolução denota cada alteração do comportamento social e da estética de um mundo que sempre esteve preso à noção do belo e do corpo ideal. Apresentasse ele formas bojudas ou formas nenhumas. A par, o conforto e a higiene acompanharam esse desenvolvimento. É isto que a exposição “Undressed: A Brief History of Underwear” mostra em mais de 200 peças, que vão do século XVII à atualidade e que não deixam nunca de provar que essa roupa interior e a moda como hoje a conhecemos sempre andaram de mãos dadas.

A roupa interior esteve lá para cobrir o corpo quando ele tinha de estar coberto, e está lá sempre que ele tem de estar a descoberto. Em linha reta para se tornar um objeto de luxo e já com o nome específico de lingerie, chega aos dias de hoje trabalhada por designers do mais alto gabarito e pelos mais provocadores também. E o que é essa lingerie se não também um elemento de sedução e de erotismo?

Comecemos pelo início. Umas meias de seda verde de 1760 feitas e bordadas em Espanha e importadas para Inglaterra dão o mote para esse universo íntimo. E cheguemos ao fim de seguida. Um corpete bordado a brilhantes para ser vestido pela mais elegante das manequins de passerelle conclui que a roupa interior, que os homens hoje também tanto gostam de mostrar, foi sempre um adereço maioritariamente feminino. Separados por séculos, os dois objetos têm em comum o luxo. Quase todas as peças são assim.

d.r.

Corpetes. Nasceram como a roupa interior por excelência. Eram feitos à medida, entrelaçados com tiras de ossos de baleia, particularmente apertados, forçavam a postura mas impediam o movimento. Maiores ou mais pequenos, atravessaram quase três séculos para se tornarem a lingerie mais vestida como roupa de dia ou de noite, indiscriminadamente

Corpetes. Nasceram como a roupa interior por excelência. Eram feitos à medida, entrelaçados com tiras de ossos de baleia, particularmente apertados, forçavam a postura mas impediam o movimento. Maiores ou mais pequenos, atravessaram quase três séculos para se tornarem a lingerie mais vestida como roupa de dia ou de noite, indiscriminadamente

d.r.

É que a roupa interior é o vestuário mais precioso que temos no nosso guarda-roupa. Normalmente escondida pela roupa do dia a dia, mais comum, mais utilitária e mais confortável, mantém um erotismo sempre presente, mesmo tratando-se de peças mais práticas. Há sempre aquela possibilidade de poder vir a ser vista, acidentalmente ou mesmo porque o design da roupa assim o permite. O seu corte, textura, fabrico e decoração refletem mudanças nas atitudes e comportamentos sociais e culturais. Isto quer em relação ao género quer em relação ao sexo e ao conceito de moralidade. Ao longo dos séculos, a roupa interior foi ainda abrindo caminhos nas esferas do público e do privado. É usada com um sentido de higiene e também como parte do conforto natural de homens e mulheres e, ainda, como proteção das suas partes mais íntimas. Foi modificando-se, ajustando-se às necessidades de cada um, que a escolhe e a compra com mais ou menos prazer.

O CORPO IDEAL

No entanto, algumas peças, como os corpetes, por exemplo, bem como as peças contemporâneas que são feitas propositadamente para delinear a silhueta, têm a função específica, determinada pelas várias tendências de moda ao longo dos séculos, de criar o corpo ideal. Outras, como as peças femininas mais delicadas ou peças de dormir mais requintadas, a que nos habituámos a chamar lingerie desde finais do século XIX, têm como função tornarem as mulheres sedutoras e atraentes.

Mesmo tendo estado sempre na moda, a roupa interior tem os seus adversários. Os ‘reformadores’ do vestuário do século XIX opunham-se àquilo que se usava na época e argumentavam que ela era pouco higiénica, pouco económica e com níveis estéticos muito baixos. E hoje, num volte-face completo, existe mesmo um movimento contra a roupa interior que reclama o facto de que ela perpetua os estereótipos dos géneros. Seja como for, as nossas escolhas individuais refletem uma identidade, um modo de vida, um gosto, desejos e fantasias. Tal como nos dizem as peças que o museu londrino expõe até março de 2017.

Muito pouco se sabe, no entanto, sobre a maioria da roupa interior representada na coleção do Victoria & Albert Museum. Só as cuidadosas reparações encontradas em muitas dessas peças sugerem o seu valor e talvez também o seu significado emocional para quem as usou. Enquanto algumas das peças quase não foram usadas, outras tornaram-se mais suaves e confortáveis na sua textura de fabrico devido à quantidade de vezes que foram lavadas. Muitas outras estão também bordadas com iniciais e nomes, dando presença viva aos fantasmas que no passado as vestiram.

A HISTÓRIA DA ROUPA INTERIOR

O facto é que a lingerie é normalmente guardada por razões sentimentais ou por causa do seu elevado preço original. Tradicionalmente, estava sempre presente no enxoval da mulher que se preparava para o casamento e para uma vida nova. Até meados do século XX, muitas peças de roupa interior eram feitas em casa pelos membros femininos da família, empregadas e costureiras. Os modelos para as roupas feitas em casa estavam disponíveis em livros ou em brochuras periódicas, mandados vir por correio ou comprados em lojas de modelos específicas. As pessoas com menos posses e sem recursos para fazer roupas compravam-nas em segunda mão a negociantes que ofereciam lingerie ‘pronta a vestir’.

Hoje, comprar lingerie online é muitíssimo comum, devido à quantidade de tamanhos e modelos disponíveis. No século XVIII, contudo, era preciso mandar as medidas ou mesmo uma peça já usada para ser copiada e fabricada a nova roupa interior. Com o aparecimento das salas de prova, a vida ficou bem mais facilitada a quem queria comprar lingerie já pronta numa loja que a comercializasse. Não eram muitas, contudo. Mas esse início foi o caminho do fim das costureiras que iam a casa e dos comerciantes também. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da indústria têxtil teve grandes consequências na comercialização da lingerie, ao fazer baixar os preços das peças e tornando-as mais acessíveis.

À medida que as manufaturas de roupa interior começaram a proliferar, o mercado tornou-se mais competitivo. Designers em nome individual e empresas candidatam-se a registar modelos e invenções e, a partir de 1839, a reclamar direitos de autor sobre os desenhos. Muitas mulheres foram verdadeiras inventoras, sobretudo no campo dos colchetes e afins e, a partir do último quarto do século XIX, também no design dos primeiros minicorpetes, os antepassados dos sutiãs. Roxey Ann Chaplin (1793-1888), que ganhou uma medalha de prata pela qualidade dos seus corpetes na Grande Exposição Mundial de 1851, era ao mesmo tempo uma inovadora no mundo da lingerie e uma escritora. Promoveu a importância do exercício físico na saúde da mulher enquanto dava destaque aos seus desenhos...

OS MATERIAIS

E a história continua. As manufaturas também competiam na procura de novos materiais que pudessem modelar e sustentar o corpo. O metal fino começou lentamente a ser substituído pelo elástico, por exemplo. O algodão também deu lugar a todo o tipo de fibras e regressou em força na roupa interior de algumas décadas do século XX. A seda manteve-se o tecido de exceção, as rendas nunca deixaram de ser alvos preferidos para decorar a roupa mais requintada, o látex serviu os anos 80 do século passado, foi usado por designers de moda e por marcas mais ousadas em lingerie para mulheres e homens sem preconceitos, e por aí fora. A exposição “Undressed: A Brief History of Underwear” reflete toda esta história de forma verdadeiramente abrangente, mas não deixa de se ater a detalhes mais específicos, organizados por ‘capítulos’, que põem em destaque uma evolução essencialmente cultural, social e comportamental de homens e mulheres ao longo dos tempos. E, de facto, tudo começou com necessidade de higiene e de conforto. Sendo o linho e o algodão os materiais de eleição para serem usados junto ao corpo, tinham a vantagem de poderem ser lavados a altas temperaturas e, como fibras naturais, podiam ainda regular a própria temperatura do corpo, e aí a lã passa a entrar no ‘campeonato’.

As fibras de celulose chegam mais tarde e o nylon vem a seguir. O corpete, séculos antes da invenção do sutiã, era tido como a mais confortável peça feminina, pois sustentava o peito e apoiava todo o tronco. Era ainda sinónimo de respeitabilidade e recomendado para fazer face a várias condições de saúde, dizendo-se indispensável para corrigir a postura. Quando as manufaturas começaram a alcançar um desenvolvimento técnico sério, até corpetes ortopédicos ofereciam às suas clientes. Os corpetes, além disso, eram tidos como uma peça extremamente higiénica, enquanto a roupa interior de noite nasceu de uma exigência de conforto.

Brilhantes. Uma das peças mais cobiçadas da exposição, um corpete todo cravejado de brilhantes, revela a forma como a lingerie evoluiu para um produto de luxo

Brilhantes. Uma das peças mais cobiçadas da exposição, um corpete todo cravejado de brilhantes, revela a forma como a lingerie evoluiu para um produto de luxo

d.r.

Os vestidos de noite e camisas eram muitas vezes usados em casa durante o dia, tanto no século XVIII como XIX. Só já perto do final deste último século é que se transformaram em smokings, no caso dos homens, e em vestidos de ‘chá’, no caso das senhoras. Ainda no que respeita ao conforto, os pijamas, sempre muito versáteis, foram largamente usados em casa durante as décadas de 20 e 30 do século XX. Foram mais tarde substituídos, e falamos agora nas décadas de 40 e 50 do mesmo século, por vestidos de ‘anfitriões’. Hoje em dia, a roupa de descanso é um sector em grande desenvolvimento no mercado da moda.

‘ARMADURAS’

Entremos num outro ‘capítulo’ específico, o das estruturas que dão forma ao corpo. Quem não visualiza imediatamente os vestidos longos de Madame de Pompadour, por exemplo, com as ancas armadas a seguir à cintura e a saia radicalmente rodada, os decotes generosos e o peito bem subido? Quantas armaduras e que tipo de armaduras não sustentavam todos aqueles quilos de tecido? Aqui, a moda e a roupa interior andam mais do que nunca de mãos dadas. E cada estrutura construída de materiais diversos serve para um vestido diferente em cada dia. As peças estruturais, como lhes chamam na história do vestuário, dão ênfase à silhueta feminina de forma acentuadíssima. Repita-se: peito, ancas, cintura e rabo. No entanto, quando a moda o exige, a roupa interior também é capaz de dissimular todas essas linhas, como acontece nos glamorosos anos 20 do século passado. E aí a história avança rapidamente, evoluindo ao sabor dos direitos cada vez mais adquiridos das mulheres modernas e das suas funções no plano laboral.

Os materiais e as estruturas que no passado deram forma ao corpo e suportaram o vestuário afetavam a postura e os movimentos e desenhavam um corpo falso que comprometia a mobilidade. Ao contrário, a partir da década de 90 do século XX, os designers contemporâneos esbateram todas as fronteiras entre o movimento e o vestuário. A lingerie pouco se distingue dentro das esferas do público e do privado. Tudo se mistura: roupa interior e vestuário de rua, sportswear e roupa interior, pijamas e lingerie. Ao mesmo tempo, acentua-se a diversidade de materiais, o algodão cruza-se com o nylon, com a seda, com o látex, com a renda, com a musselina e até novamente com o metal. É uma espécie de vale tudo que serve para agradar a todos os gostos.

O MERCADO

A liberdade feminina e a sua capacidade de sedução dão azo a todas as derivas. Mas são, de facto, os corpetes, sutiãs e negligées que mais prosperam no que diz respeito à comercialização e às opções de escolha. A par desenvolvem-se os modelos masculinos, e os homens passam a mostrar até as marcas que usam nos elásticos dos seus boxers. É a moda e a publicidade a chegarem em força a um mercado que sempre teve grande vitalidade. Toda a gente parece descobri-lo e querer entrar nele a todo o custo. As vendas disparam no século XXI, e há quem se disponha a pagar fortunas por um corpete pronto a vestir que se usa em cima de um par de calças de ganga à vista de toda a gente.

É a roupa interior a tornar-se exterior. Fatos de noite e vestidos de noiva, só para citar exemplos de grande monta, vão buscar inspiração à roupa interior dos séculos passados. E dos séculos passados se trazem camisas de noite flutuantes a fazer de vestidos para todos os padrões e transparências e até os mesmos cortes. Lugar ainda para a extravagância assinada pelos costureiros de primeira linha e pelas linhas mais tentadoras. O erotismo passou mesmo por aqui.

O Expresso viajou a convite da Reiber & Partners

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 18 junho 2016