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A vida e as mentiras dos burlões profissionais

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ilustração nuno saraiva

João vendia casas de luxo que não eram dele. José fingiu ser piloto para seduzir e enganar mulheres. Rui assumiu-se como advogado do PS e imitava vozes de políticos. Olga jurava ser juíza para cobrar dívidas do Estado. Todos tiveram sucesso. Mas afinal porque é que caímos nos esquemas dos burlões?

Catarina Guerreiro (texto), Nuno Saraiva (ilustrações)

Ao abrir a carta que chegou por correio com os pagamentos de IMI das propriedades dos pais, percebeu que na lista faltava o imposto referente à moradia de luxo que a família tinha em Moledo, Caminha. Achou estranho e foi de imediato às Finanças. “Essa casa já não é vossa. Foi vendida.” Ficou atordoado com o que ouviu, meteu-se no carro e acelerou para Moledo. Conhecia bem a casa, uma vez que tinha sido ele o autor do projeto de arquitetura. As chaves ainda abriam a porta e tudo parecia igual. Mas a verdade é que Paulo M. tinha nas mãos uma escritura, que entretanto conseguira arranjar, a confirmar que a casa fora comprada por uma sociedade de gestão imobiliária por 275 mil euros. O seu valor real seria, contudo, cerca de um milhão de euros, devido aos 620 metros de área construída e ao terreno de 2300 m2 onde existe uma piscina. Para encontrar uma explicação para a misteriosa venda, feita sem que os proprietários soubessem dela, seria preciso recuar alguns meses.

Em finais de 2010, um homem fez-se passar por Paulo M. e celebrou o negócio em nome dos pais. Esse homem era João Carlos Moura. Aos 33 anos, tinha como modo de vida usurpar identidades para, com vários cúmplices, vender, através de documentos falsos, imóveis de luxo desabitados que pertenciam a outras pessoas. Neste momento, João Carlos Moura está em fuga, é procurado pela Interpol e há mandados de captura em seu nome em todos os aeroportos e fronteiras. Fugiu a 27 de maio de 2015, no dia em ouviu a juíza de um tribunal de Lisboa, onde estava a ser julgado por outros casos semelhantes, condená-lo a cinco anos de prisão. Apesar de a sua advogada, Teresa Manique, ter conseguido que ficasse em domiciliária, o rapaz de olhos claros, alto e musculado cortou a pulseira eletrónica e desapareceu.

Terá tido, acredita quem o conhece, receio da sentença que lhe seria aplicada em breve neste caso da vivenda de Moledo, a julgar em Matosinhos. Foi ele quem, segundo a acusação, fingiu ser Paulo M. para vender a casa e ficar com o dinheiro. Em novembro de 2011, fez uma visita ao imóvel com o cliente, Jorge F., e contou-lhe que a moradia era dos pais e tinha sido desenhada pelo irmão, arquiteto. E ainda desvendou que a ideia inicial era que toda a família fosse para ali viver, mas que uma das suas avós, de Cascais, tinha adoecido, o que obrigou todos a irem para perto dela. O teatro correu-lhe bem e a 6 de dezembro, na Conservatória do Registo Predial de Matosinhos, foi celebrado o contrato de compra e venda. Nesse dia, João teve a companhia de um dos cúmplices, o amigo Vasco Vieira, à data com 60 anos — simulou ser o seu pai, levando documentos falsos, incluindo uma procuração da sua alegada mulher, Ilda.

Era este o esquema que João e o grupo a que pertencia usavam: identificavam imóveis valiosos e devolutos, ou onde ninguém habitava; através da morada obtinham o registo predial, pelo qual ficavam a saber o nome dos proprietários; depois, falsificavam documentos de identificação e procurações; a seguir, vendiam as casas. Nos meses seguintes à burla em Moledo, João Carlos Moura não parou. Pelo contrário. Fez-se passar por neto do dono de uma metalúrgica e proprietário de seis frações de um prédio na Penha de França, em Lisboa. Assumiu-se como intermediário legal de um casal rico de idosos que queria vender uma casa em Viana do Castelo, com vista magnífica sobre o mar. E ainda vestiu a pele de presidente do conselho de administração da Neptuno S.A., uma empresa de investimentos turísticos e imobiliários, dona de um palacete devoluto em São João do Estoril, com um valor estimado de dois milhões e meio de euros. Nos primeiros dois casos, foram feitas escrituras e os imóveis vendidos. Só a burla do palacete se complicou porque o potencial comprador desistiu.

ilustração nuno saraiva

O que leva tantas pessoas, hoje em dia, a acreditar e cair nas mentiras dos burlões acaba de ter uma resposta: a escritora norte-americana e colunista da revista “The New Yorker” Maria Konnikova, lançou no início do ano o livro “The Confidence Game: Why We Fall for it... Every Time”, onde desvenda como é que os burlões enganam o cérebro das vítimas. O que leva alguém a ser burlado, concluiu a investigadora, não é tontice, ingenuidade ou ter qualquer outra característica de personalidade, mas o seu estado de espírito. Mudanças radicais na vida, a perda de emprego ou o divórcio são momentos perigosos. Mas as fases de sucesso também são de risco, por se estar mais disposto a ver o lado positivo de tudo o que acontece, incluindo de coisas das quais desconfiaríamos noutras circunstâncias.

Conceição Jacinto, coordenadora da investigação criminal da diretoria da PJ de Lisboa e Vale do Tejo, concorda: as pessoas que estão vulneráveis são as grandes vítimas dos burlões, que conseguem enganar até os aparentemente mais inteligentes e com maior formação académica. A responsável da PJ admite que os crimes de burla estão a aumentar e adianta que um dos esquemas mais usados pelos burlões portugueses é precisamente o de, falsificando documentos, se fazerem passar por donos de casas, carros e telemóveis para os venderem sem os reais proprietários saberem. Outros optam por esquemas mais complicados, como fingirem ser juízes, polícias, advogados ou médicos.

Há poucos meses, foi colocado em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Leiria um homem, de 30 anos, que fingiu ser inspetor da PJ. Inspirou-se no agente que num processo antigo o interrogou em Lisboa, recorda ao Expresso fonte da Judiciária de Leiria, explicando que o burlão usou frases e características do inspetor para criar a sua personagem. Com isso, fez dezenas, ou mesmo centenas, de burlas. Ligava às vítimas, entre elas donos de restaurantes, convencendo-as de que tinham infringido alguma norma legal e obrigava-as a depositar quantias elevadas. “Neste momento existem já 35 a 40 processos, mas haverá muitos mais”, acredita aquela fonte da PJ, sublinhando que o burlão atuava pelo país e que, mesmo depois de ser apanhado em maio de 2015 e ter ficado obrigado a apresentar-se às autoridades, não o fez. Por isso, agora está em prisão preventiva.

Pela mesma altura, em Lisboa, foi preso um homem que se fazia passar por funcionário da Santa Casa da Misericórdia. Simulava ser o responsável pela instalação das máquinas de jogos sociais nos estabelecimentos e burlou vários proprietários de livrarias e quiosques. A imaginação de quem quer enganar os outros dá para tudo: há uns tempos, Artur Batista da Silva fingiu ser um consultor da ONU; José Carlos Martins disse, durante 13 anos, ser filho de Jerónimo Martins, pretenso dono do Pingo Doce (morto há 200 anos); e José Perestrelo Nogueira vestiu-se de falso piloto da TAP para seduzir e enganar dezenas de mulheres.

Conhecido como “burlão do amor”, José Perestrelo Nogueira é um impostor profissional. O seu processo voltou em março aos tribunais para serem ouvidas, por ordem dos juízes da Relação de Lisboa, três novas testemunhas, que a sua ex-mulher e cúmplice, Leonilde Santos, também condenada, alegou que não foram chamadas por pressão de Perestrelo Nogueira. Quanto a ele, a Relação não lhe deu qualquer razão e confirmou a pena de 16 anos a que foi condenado por um tribunal de júri, em Benavente, em julho de 2013. Durante anos, o “burlão do amor” destroçou os corações e as contas bancárias das suas vítimas. O seu plano era minucioso e os alvos mulheres frágeis e recém-divorciadas. Fingia ser piloto da TAP ou da Iberia, dizia ser descendente de uma família com brasão e aparentava estar bem na vida: guiava bons carros e tinha cartões de crédito na carteira. Através da internet, conquistava-as. Começavam a namorar e convencia-as a irem morar com ele. Arranjava forma de ficar com os bens delas e, mal conseguia, acabava tudo. Algumas relações duraram apenas 72 horas.

ilustração nuno saraiva

Maria João vivia no Funchal e, um mês depois se cruzar com José Perestrelo num site de encontros, ele voou para a Madeira. Ela, divorciada, ficou encantada com o piloto da TAP, de 52 anos, e bastaram alguns dias para decidirem morar juntos na ilha. Tudo foi vivido com uma rapidez estonteante. Ainda o namoro não tinha completado três meses quando, com promessas de casamento, viajaram para Lisboa. Ficaram na Chamusca, numa herdade dos pais de Maria João, mas passados 30 dias mudaram-se para outra casa arrendada na mesma zona.

Decoraram-na com bens que transferiram da herdade e contrataram uma empresa de mudanças para lhes trazer do apartamento do Funchal os móveis caros e antigos que ali existiam, assim como outras peças, entre as quais quadros de Marcos Fagundes Vasconcelos, um conhecido artista plástico da Madeira. Parecia estar tudo a correr bem quando Perestrelo começou a sugerir que mudassem de novo de casa, desta vez para Benavente. Por ela recusar, discutiram e ele chegou a fazer ameaças com uma arma de fogo.

Maria João acabou por aceitar, mas o relacionamento degradou-se. Seis meses depois de se conhecerem zangaram-se e ela voltou para casa dos pais. Quando tentou recuperar o valioso recheio que tinha deixado na casa de Benavente percebeu que tinha caído numa armadilha. E tornou-se uma das primeiras vítimas, pelo menos entre as conhecidas, do “burlão do amor”. A sua queixa levou outras seis mulheres a juntarem-se num processo que desmascarou as fantasias de José Perestrelo Nogueira.

Exatamente no início de 2008, na altura em que começou a namorar a madeirense, o burlão conheceu Filomena. Apresentou-se como engenheiro mecânico, divorciado há sete anos e piloto civil da Iberia, com um ordenado de €7500. Ligava-lhe todos os dias a dizer que se encontrava em vários pontos do mundo — mas, na realidade, estava em Portugal, muitas vezes ao lado de Maria João, com quem vivia na Chamusca. A Filomena, o falso piloto começou por pedir que pagasse o sinal de €10 mil para comprarem a casa de Benavente, que ficou em nome do burlão. E depois conseguiu levá-la a adquirir por €20 mil um Audi A4 azul que, sem ela saber, colocou em nome do filho, Tiago. Pelo meio, inventou uma história mirabolante: um dia, ligou-lhe e disse que estava preso no Japão com o copiloto e que tinha de pagar uma fiança de onze mil euros — ela transferiu a quantia. O dinheiro foi para uma conta que, segundo ele, era da irmã, mas na realidade pertencia a Leonilde Santos, mãe do seu filho mais velho e com quem viveu 20 anos.

Em março de 2009, depois de Filomena descobrir as mentiras, separaram-se. Mas nessa altura José Perestrelo Nogueira já namorava e vivia há três meses com Maria José que, entretanto, ficou grávida de um rapaz. Era dona de uma loja em Samora Correia e os dois tinham-se conhecido quando ele a contratou para decorar a casa de Benavente. Maria José passou a pagar todas as despesas da habitação e ainda lhe deu €14 mil com o objetivo de abrirem uma empresa de decoração em Espanha. Apesar de ele se ter tornado violento, mudaram de casa, para Almeirim. As agressões aumentaram e em março de 2010 Maria José fez queixa na GNR e o burlão foi preso.

Quando saiu voltou ao mesmo esquema de burlas e sedução: apresentava-se como piloto e ex-Asas de Portugal, e dizia que a sua ex-mulher Leonilde era juíza do Tribunal da Relação. Em agosto de 2010 começou a namorar e a viver com Ana F. A relação não durou mais de um mês. Ainda tentou que ela vendesse um apartamento que tinha no Entroncamento para investirem num negócio, mas Ana F. desconfiou e recusou. Seguiu-se Ema, com quem teve mais sucesso: depois de muita pressão, conseguiu que ela levasse toda a sua mobília e bens para uma casa em Tomar e convenceu-a a abrir uma conta bancária conjunta, onde Ema depositou mais de onze mil euros. Envolveu-se entretanto com Maria V. e, em abril, arrendaram uma casa em Cascais. De repente, e numa questão de dias, José Perestrelo Nogueira disse-lhe que não se sentia bem ali e os dois foram morar para casa dela, em Linda-a-Velha. Havia uma razão para isso: o burlão precisava de um sítio para instalar a sua próxima vítima, uma brasileira que conhecera num chat na internet e que convenceu a vir para Portugal com promessas de casamento. Antes de ela embarcar, disse-lhe para fazer um empréstimo de alguns milhares de euros. A brasileira chegou a 7 de abril, mas três dias depois, a 11, o falso piloto informou-a de que já não queria casar e deixou-a sozinha à porta do Hotel Roma, em Lisboa. Voltou a focar-se em Maria V., a quem roubou várias coisas, entre elas 12 anéis de ouro no valor de €24 mil. Para desviar as atenções, acusou a empregada, que foi despedida.

ilustração nuno saraiva

Pouco depois, José Perestrelo Nogueira foi preso. No ano passado, o Supremo Tribunal condenou-o a mais cinco anos de prisão por outros crimes, que envolvem violência doméstica, falsificação de documentos e posse de arma. Só em casa dele, a polícia descobriu mais de 15 armas, entre pistolas, granadas e munições. Ficou provado que viveu à custa dos esquemas para enganar mulheres. Não fazia descontos para a Segurança Social desde fevereiro de 2000 e entre 2006 e 2010 até recebeu o rendimento social de inserção. “Ele sempre mentiu e criou uma realidade fictícia”, conta um seu familiar, explicando que a infância do impostor foi marcada pela ausência do pai, um almirante da Marinha, que “ele queria impressionar”.

Aos juízes, Perestrelo contou que viveu com a mãe, o padrasto e uma irmã, que frequentou colégios privados, incluindo o Colégio Militar e que se licenciou em dois cursos, Engenharia Mecânica e Agronomia. E deu como principal atividade a de professor de equitação. “Ninguém sabe o que é verdade e mentira na vida dele”, diz aquele parente, lembrando que a única coisa que se recorda é de ele ser praticante de motonáutica. Nos anos 80, Perestrelo começou a dedicar-se a este desporto, mas as suas mentiras traíram-no. Apesar de ser “um bom praticante”, adulterou resultados desportivos e fez-se passar por campeão nacional para conseguir patrocínios. Por isso, em 1994, a licença emitida pela federação foi-lhe revogada.

Vítimas de “burlões do amor” deste género chegam regularmente às consultas de psicologia clínica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “A maioria das situações passa-se na internet. Os burlões contactam as vítimas, vão-se aproximando e descrevendo uma vida que não existe para depois as enganarem”, explica ao Expresso Tânia Munoz Hornos, psicóloga daquela unidade de saúde. A especialista garante que, apesar de algumas pessoas caírem na armadilha emocional por serem “dependentes de afetos”, qualquer mulher é suscetível de ser apanhada:

“O que as torna vulneráveis é o feitio feminino em si, a ideia de que com o seu amor conseguem mudar o outro”. “Aliás, não há muitos homens a cair nesta burla do amor”, nota a especialista. Os homens, segundo a coordenadora da PJ da diretoria de Lisboa, estão entre as “grandes vítimas das chantagens sexuais na internet”, fenómeno conhecido como sextortion — são seduzidos, iniciam relações virtuais e enviam fotos íntimas a quem está do outro lado, acabando a viver sob chantagem para que as imagens não sejam divulgadas.

A internet, acreditam as autoridades, é um paraíso para os charlatões. “O mundo virtual potencia o crime de burla, não há dúvida”, afirma Conceição Jacinto, recordando que na Net o criminoso encontra milhares de eventuais vítimas e pode esconder facilmente a sua identidade. Os burlões à antiga, que andam pelo país a enganar as pessoas cara a cara, parecem estar quase em vias de extinção. Já não surgem com regularidade casos como o de Rui Humberto Oliveira e Silva, um dos impostores portugueses com mais processos no país. Está preso no Estabelecimento Prisional de Coimbra, a cumprir uma pena de 15 anos e 6 meses.

Rui fez negócios de futebol, fingiu ser padre e advogado e fez-se passar por vários políticos, como Salgado Zenha e António Capucho, para enganar as pessoas. Conseguia imitar as vozes de figuras conhecidas e pedia ajuda em nome delas. Muitas vezes dizia que tinha tido um acidente em Espanha para pedir dinheiro. É o mais novo de oito irmãos. A mãe morreu durante o parto e ele ficou entregue a uma religiosa da congregação das Franciscanas, a irmã Isilda. Aos nove anos, foi entregue a uma família de acolhimento. Ainda pensou em seguir o sacerdócio. Esteve num seminário e chegou a frequentar o primeiro ano do Curso de Teologia. Mas em 1975, quando tinha 21 anos, estreou-se nas condenações em tribunal: fingiu ser padre e executou as primeiras burlas. Foi preso, saiu, mas não tardou a regressar à vida na cela. Esteve na cadeia até 1994. Nessa altura beneficiou de uma amnistia e foi para casa, mas quando depois foi condenado num processo já antigo recusou-se a voltar.

Com estatuto de contumaz, decidiu arranjar uma identidade falsa. Passou a chamar-se Joaquim Ferreira de Melo. Infiltrou-se no meio futebolístico e conseguiu fazer alguns negócios, incluindo transferências de jogadores em Portugal. Tinha relações próximas com clubes espanhóis e chegou a fingir que tinha arranjado um comprador para o Málaga, que estava à procura de solução para a situação de falência em que vivia.

ilustração nuno saraiva

Com medo de ser apanhado, andava sempre de um lado para o outro. Dizia ser advogado e militante do Partido Socialista. Aproximava-se das pessoas e, depois de ganhar alguma intimidade, dizia-lhes que era um advogado com bons conhecimentos. Muitas vezes, o telefone tocava e ele atendia, dizendo que eram altos dirigentes socialistas, como Almeida Santos. Convencia as pessoas a investirem em imóveis que seriam boas oportunidades por estarem em insolvência. As vítimas davam-lhe dinheiro para sinalizar a compra e ele desaparecia. Fez isso por todo o país e tem julgamentos de norte a sul. É perspicaz e não deixa nada ao acaso. É ferrenho do FC Porto, mas num dos julgamento soube que o juiz era do Benfica e apareceu na sessão com um fato de treino do clube da Luz.

Quando regressou à prisão em 2004, conseguiu ganhar a confiança do diretor da cadeia de Izeda e tinha alguns privilégios. Era comum apostar em jogos sociais e um dia, em plena reclusão, ganhou o Euromilhões, 55 mil euros, segundo as notícias da altura. Algum tempo depois, a 14 de outubro de 2011, teve direito a uma saída precária e não regressou. Contou aos mais próximos que tinha aproveitado para ir a uma consulta médica. Foi capturado na fronteira, em Caminha, quando vinha de Espanha, a 19 de janeiro de 2012. Segundo o seu advogado, Gil Balsemão, Rui terá tido perto de 100 processos em todo o país. “Agora já não tem mais nenhum para julgar”, diz ao Expresso.

O último julgamento que enfrentou foi em 2014 — ludibriou um casal de idosos na Amareleja e ficou-lhes com o sinal de €30 mil de uma casa que lhe iam comprar em Vilamoura. Foi condenado em Lisboa a mais cinco anos de cadeia. Mas, feito o cúmulo jurídico, em junho de 2015, ficou com a mesma pena de 15 anos e meio. Em outubro foi-lhe avaliada a liberdade condicional. Foi recusada. Só de uma coisa ele tem a certeza: a 18 de janeiro de 2018, quando completar cinco sextos da pena, estará a sair em liberdade.

Há burlões que não têm cura. E, mesmo depois de passarem anos na prisão, mal são libertados repetem exatamente os mesmos crimes. Foi o que fez Olga Gracinda Araújo Silva Almeida, uma ex-auxiliar de ação médica e mãe de onze filhos, de 49 anos. Há poucos meses foi condenada de novo por burla. Estava em liberdade condicional desde 2012, ao fim de oito anos de cadeia por várias condenações: fingia ser juíza, e às vezes advogada, para cobrar alegadas dívidas das vítimas sob pena de lhes penhorar os bens. Fez mais de 200 burlas.

No dia 14 de outubro de 2015 não apareceu no julgamento, que decorreu no Porto, estando em parte incerta. Foi representada por uma advogada oficiosa que ouviu a sentença: mais oito meses de prisão. A pena só não foi mais pesada porque falharam duas das suas tentativas de burla (para um lar de terceira idade e uma clínica veterinária). Já quando telefonou para casa de uma idosa, dizendo que era juíza e que tinha pendentes mandados de busca no âmbito de um processo judicial do filho da visada, processos que podiam acabar em mandados de captura, o esquema resultou e a mãe, preocupada, emitiu um vale de correio urgente de 200 euros.

A ideia de usar este esquema surgiu-lhe através de uma antiga inquilina a quem alugou um quarto em sua casa há vários anos. Contou-lhe que costumava ir aos jornais ver os anúncios sobre dívidas para depois telefonar aos devedores a cobrar o valor. Olga decidiu experimentar. Passou a devorar avisos dos tribunais e conservatórias publicados nos jornais: recolhia dados sobre pessoas e empresas que tinham processos com dívidas e contactava-as. Outras vezes selecionava números de telefone ao acaso da lista telefónica, sempre na esperança de encontrar alguém com dívidas que pudesse enganar. Fez isso com êxito ao Infarmed (Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento), à empresa de mobiliário Moviflor e aos hotéis Savoy, entre muitos outros. Já um engenheiro da empresa de Américo Amorim descobriu a tempo a burla e evitou o pior.

O que todos estes burlões fazem, descreve a escritora norte-americana Maria Konnikova no seu livro, é tirar vantagem da tendência natural do ser humano para confiar nos outros. Alguns têm um talento de tal forma especial para inspirar confiança, que fazem disso modo de vida. “Os tipos de burlas não têm fim. E vão até onde a imaginação alcançar”, avisa, por seu lado, a coordenadora da PJ de Lisboa. O número de denúncias deste ano? “Está muito longe da dimensão real do fenómeno”, acredita a inspetora. E a razão é simples: muitas vítimas não apresentam queixa por terem vergonha de assumir que foram enganadas. Mas não tinham motivos para isso. Afinal, como descobriu Maria Konnikova, não depende só da vítima e, na verdade, pode acontecer a qualquer um.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 18 junho 2016