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Singularidades de um museu

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SFMOMA. O novo museu de arte moderna de S. Francisco abriu no dia 14 de maio

HENRIK KAM/SFMOMA

É um objeto insólito. Não há como evitar dizê-lo. Para quem desemboca naquele quarteirão onde, após vários anos de obras de remodelação e expansão, se impõe agora o novo SFMOMA-San Francisco Museum of Modern Art, reaberto no passado dia 14 de maio, há um misto de curiosidade e estranhamento proporcionado por um edifício em diálogo provocante com as memórias da cidade.

Concebido pelo gabinete de arquitetura norueguês Snohetta, o mesmo ao qual foi atribuída a construção do memorial do 11 de setembro em Nova Iorque, possui uma fachada poderosa no modo como constrói metáforas várias relacionadas com a baía e o nevoeiro de S. Francisco. Vai transformar-se numa das mais icónicas imagens da cidade, não custa antecipar.

É difícil dizer o que possa ser um museu de nova geração, quando, por acréscimo, a proposta de S. Francisco não é uma construção de raiz e traduz, antes, uma ampliação para o triplo do já existente.

Escultura de Richard Serra

Escultura de Richard Serra

HENRIK KAM/SFMOMA

E, no entanto, tem tudo um ar, não apenas novo, como inovador. Desde as fantásticas e cativantes zonas de entrada, uma delas, em anfiteatro, com uma esmagadora instalação escultórica de Richard Serra, ao acesso e percurso por salas luminosas e concebidas a uma escala muito humana, ou até a aplicação de telemóvel para acompanhar a visita.

O SFMOMA é um dos principais museus de arte moderna e contemporânea dos EUA, com um acervo de mais de 33 mil obras de arquitetura, design, pintura, fotografia e escultura, a que se junta a parceria destinada a exibir a coleção Doris e Donald Fisher (um casal de investidores e filantropos norte-americanos, criadores da marca de roupa Gap), uma das maiores e mais importantes coleções privadas de arte do pós-guerra e contemporânea. No conjunto de obras da coleção selecionadas para esta fase de abertura do museu estão importantes exemplos de arte abstrata, pop, minimalista e figurativa, assinadas por artistas como Chuck Close, Roy Lichtenstein, Agnes Martin e Andy Warhol. Podem ver-se ainda trabalhos de artistas alemães posteriores a 1960, como Sigmar Polke e Gerard Richter, uma importante coleção de trabalhos de Alexander Calder ou esculturas de alguns britânicos de referência, como Tonny Cragg, Richard Deacon, Barbara Hepworth e Richard Long.

IWAN BAAN/SFMOMA

A fotografia foi sempre um dos pontos fortes do SFMOMA, reforçado com o novo Prtizker Center for Photography, que oferece o maior espaço expositivo, de interpretação e estudo da fotografia existente em qualquer museu norte-americano.

Nos seus imponentes sete pisos, o museu suscita longas horas de fruição por entre os caminhos de múltiplas propostas artísticas. O próprio edifício é, em si mesmo, fonte de permanentes surpresas pelas soluções arquitetónicas encontradas. Com tanto para ver no interior, torna-se fascinante o convite implícito às ocasionais escapatórias para os terraços adjacentes a várias galerias. Para lá de conseguirem construir fundamentais momentos de descompressão, fomentam o encontro com um sem fim de esculturas de exteriores e proporcionam vistas únicas sobre a cidade.

Para um português de visita ao novíssimo SFMOMA é de assinalar o inesperado encontro com uma galeria dedicada a uma artista portuguesa contemporânea, a escultora Leonor Antunes (Lisboa, 1972), que vive entre Berlim e Lisboa e apresenta ali uma instalação instalação muito ancorada em referências históricas, a partir da qual se revelam detalhes e componentes diversos do trabalho de artistas, arquitetos e designers associados ao modernismo.

Exterior do museu

Exterior do museu

HENRIK KAM/SFMOMA

O outro lado das maravilhas contidas no museu resulta de uma característica bem norte-americana, às vezes detetável na Europa e quase inexistente em Portugal. Ao passar de pouco mais de 6 mil para mais de 15 mil metros quadrados de área, o SFMOMA contou com o indispensável apoio de uma campanha de recolha de fundos destinada a cobrir os 160 milhões de dólares destinados a suportar os custos da obra. Depois, as coleções do museu são alimentadas por uma forte contribuição da comunidade local. Isto é, homens e mulheres a quem o dinheiro abunda, decidem, com apenas umas migalhas dos seus rendimentos globais, enriquecer o património artístico de uma casa da qual todos podem usufruir.

Vista de terraço exterior com esculturas

Vista de terraço exterior com esculturas

FOTO IWAN BAAN

Neste processo, o SFMOMA desencadeou uma Campanha pela Arte. Recebeu mais de três mil ofertas de obras de arte oriundas de 230 doadores. As exposições inaugurais incluem 600 dessas novas aquisições de arte moderna e contemporânea, para lá de instalações especiais centradas na fotografia, arte contemporânea e desenho.

É um outro mundo, este que encontrará se for a S. Francisco. (E como eu andava há longos anos a ver se encontrava uma oportunidade de usar esta frase emblema de uma canção de uma época: “If ‘re going fo to San Francisco/Be Sure to Wear Flowers in Your Hair”, cantada por Scott McKenzie e escrita em Junho de 1967 para promover o Festival de Monterey). Por isso, se for a S. Francisco, leve ou não flores no cabelo, mas assuma a necessidade de reservar uma manhã ou uma tarde para ver um museu singular.