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Henry Marsh: “Lembro-me mais dos desastres do que dos triunfos”

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tiago miranda

Neurocirurgião experiente, Henry Marsh escreveu um notável livro de memórias sobre mais de trinta anos de operações ao cérebro, muitas delas com o paciente acordado

Aos 66 anos, Henry Marsh está oficialmente reformado, mas continua a operar: em Londres (uma vez por semana) e em países necessitados, como o Nepal e a Albânia. “Não Faças Mal” (edição Lua de Papel), o livro em que evoca o seu trajeto e as suas impressões sobre a neurocirurgia, revela uma honestidade absoluta. Raras vezes um médico terá assumido, de forma tão clara, os seus erros e arrependimentos.

Ao fim de três décadas de trabalho como neurocirurgião, o cérebro humano foi-se tornando menos misterioso?
Não. Pelo contrário. É ainda mais misterioso agora. Quanto mais leio sobre o cérebro, quanto mais estudo, quanto mais o vejo, e lhe toco, e o abro, mais me parece que compreendemos pouquíssimo sobre o seu funcionamento.

A dada altura, no seu livro, desabafa: “Trabalho terrível, a neurocirurgia.” Mas tem tanto de terrível como de maravilhoso, não?
Claro. O neurocirurgião vive numa espécie de bipolaridade. O seu trabalho tem muitos altos e baixos. Quer dizer, altos muito altos e baixos muito baixos. Quando as coisas correm bem, a sensação é maravilhosa. Mas os triunfos não seriam verdadeiros triunfos se não houvesse também desastres. O que acontece é que muitos cirurgiões preferem esquecer os fracassos. Eu sempre tive tendência para me lembrar mais dos desastres do que dos triunfos.

Foi para revelar esse lado simultaneamente mais honesto e mais humano da sua profissão que decidiu escrever este livro?
Na verdade, eu sempre escrevi, a maior parte do tempo para mim mesmo. Mantenho um diário desde os 13 anos. Quando a minha segunda mulher, que é uma escritora e antropóloga muito conhecida no Reino Unido [Kate Fox], me pedia para falar do meu trabalho, lia-lhe passagens do diário. Ela mostrou algumas dessas passagens ao seu agente e incentivou-me a escrever um livro. “Não Faças Mal” é basicamente uma reescrita do diário, onde fui fixando as experiências que vivia no hospital, antes que se dissipassem e desaparecessem. Quanto à honestidade de admitir os meus erros, houve quem me perguntasse se não seria mau que as pessoas deixassem de confiar nos médicos. Seria péssimo, claro. Mas a questão devia ser outra: como se pode confiar nos médicos se eles não forem honestos? A confiança não pode assentar na fé cega.

Qual é a maior dificuldade com que um neurocirurgião tem de lidar na sala de operações?
Talvez não seja fácil compreender isto, mas a neurocirurgia não é muito difícil em termos manuais, uma vez que dominas a técnica e sabes o que fazer. A dificuldade está no processo de tomar decisões, de estabelecer os riscos de uma operação. Isto é, não apenas os riscos de operar, mas também os riscos de não operar. Tudo tem de ser ponderado ao mínimo detalhe.

E esse processo de tomada de decisão vai melhorando com o tempo, com a experiência acumulada?
Julgo que sim. Espero que sim. Mas nunca deixarão de acontecer desastres.

O fator da sorte, ou do azar, também tem o seu peso...
Sem dúvida. Mais do que as pessoas imaginam. Mas o importante é perceber a diferença entre o azar e o erro. E só há uma forma de compreender essa diferença: errando.

Foi um dos pioneiros da cirurgia ao cérebro com anestesia local. Como é a experiência de operar doentes que estão acordados e conscientes do que lhes está a acontecer?
É algo de extraordinário. No próximo mês, vou fazer uma operação dessas, em Tirana, na Albânia. Como opero com uma videocâmara acoplada ao microscópio, pergunto ao paciente se ele quer ver o próprio cérebro. Muitos dizem logo que não. Mas, aos que aceitam, anuncio com pompa: “Vai passar a fazer parte da muito pequena minoria que na história da espécie humana pôde ver o próprio cérebro.” Certa vez, estava a operar o córtex visual, e o paciente estava a olhar precisamente para a imagem da área do cérebro que processa as imagens. Foi incrível. Temi que acontecesse o equivalente filosófico do feedback acústico. Mas não. O doente limitou-se a dizer: “Isto é de loucos!” E tinha razão. É de loucos. [risos]

Ao longo da sua carreira, assistiu a grandes avanços tecnológicos. Quais é que o surpreenderam mais?
Costuma dizer-se, por piada, que o verdadeiro progresso na neurocirurgia é tornar a neurocirurgia desnecessária. Durante a minha vida, a grande mudança deu-se no modo como são tratados os aneurismas. Costumava ser uma operação muito complexa, equivalente ao desarmadilhar de uma bomba, uma cirurgia perigosa e excitante, de grande delicadeza, que era uma medida da coragem de um cirurgião, mas agora foi quase completamente substituída por uma técnica não cirúrgica. Coloca-se um cateter na artéria femoral e é muito mais simples.

Embora continue a trabalhar fora do Reino Unido, está oficialmente reformado?
Sim, estou. Apesar de já não ser obrigatório parar aos 65 anos, eu decidi aposentar-me, por estar cada vez mais zangado e frustrado com os problemas do sistema nacional de saúde inglês. Mas continuo a trabalhar um dia por semana no meu hospital, sobretudo para ajudar o cirurgião que me substituiu. Gosto de fazer com ele as operações mais difíceis.

Uma espécie de transmissão de saber?
Sim, é isso. Tal como há o piloto e o copiloto, devíamos ver a cirurgia mais como um exercício colaborativo do que um ato individual, executado por uma criatura heroica que supostamente não comete erros.

Quando já não tiver condições para operar, de que vai sentir mais falta?
Da camaradagem. De trabalhar com os colegas. E de treinar os médicos mais novos. Mas sei que vou ter de parar. O problema é saber quando. Mais vale que seja cedo do que tarde. Para já, vou abrandando o ritmo. E vou transmitindo, enquanto puder, o que sei e aprendi aos que ficarão depois de mim.