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Do balneário do Vitória (com Manuel Machado a cravar cigarros) para um supermercado em França

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HENRIQUES LOPES. Jogou no Guimarães (perdão, no Vitória) há uns anos e agora é gerente de um supermercado português em França. Apanhámo-lo durante uma das nossas viagens no Euro

Henrique Lopes era daqueles que fazem falta à seleção portuguesa: um ponta de lança tradicional que marcava golos. Não tantos como Hugo Vieira, que gostava que tivesse sido convocado para o Euro, mas bem mais do que Nuno Espírito Santo, com quem jogou nos juniores do Vitória de Guimarães, antes de emigrar para França para gerir um supermercado… português

Mariana Cabral

Mariana Cabral

Reportagem, enviada ao Euro 2016

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

Infografia

Infografico

Já estava em Saint-Étienne há três dias e já não era a primeira nem a segunda vez que apanhava um táxi para a Rue des Alliés, ‘numero un-six-sept’. Mas à terceira lá foi de vez: o Intermercado português estava aberto. Vida de jornalista não é fácil (mesmo quando anda a ver jogos do Euro e a falar com os melhores jogadores do mundo – desculpem), mas mesmo quando corre bem, ainda há hipótese de vir a estragar tudo, como ia acontecendo com Henrique Lopes.

- Então e no Guimarães…
- No quê? No Vitória, no Vitória! Não é não gostar “do Guimarães”, é o Vitória, o nome é esse. Vitória é o nosso, não são os outros.

O que vale é que Henrique Lopes estava bem-disposto e lá se riu da minha pata na poça vimaranense, no meio dos corredores de um supermercado com comida portuguesa, música portuguesa, bandeiras portuguesas e, claro, donos portugueses. “Temos uns patrões, que são o grupo Agriberia-Panier du Monde, que são portugueses, proprietários da Quinta da Pacheca, no Douro”, explica ao Expresso Henrique Lopes. “Mas não são só os portugueses que vêm cá. Tenho muitos clientes que vão a Portugal de férias, ficam maravilhados com o nosso país e a primeira coisa que fazem quando cá chegam é vir aqui ao supermercado buscar o nosso bacalhau e o nosso azeite. Os nossos produtos têm um toque diferente.”

Henrique não passa dois minutos sem dizer maravilhas de Portugal, mas nasceu em França, depois de o pai ter decidido emigrar à procura de melhores condições de trabalho. “Nasci em Lille, mais para o norte, em 1974, e depois regressei para o nosso magnífico país com 11 anos, porque o meu pai teve um acidente de trabalho. Quer dizer, regressei como quem diz, porque foi a primeira vez que fui para lá.” Para lá, para Guimarães, onde Henrique cresceu, estudou e trabalhou – e jogou futebol no Vitória.

“Em França já jogava, no USM, perto de Lille, e quando cheguei a Portugal comecei a jogar em fevereiro, no dia de carnaval, nunca mais me esquece. Foi um primo meu que me disse ‘tu devias ir para o Vitória dar uns toques’. Lá fui. E estive lá até aos meus 18 anos, fiz as camadas jovens todas do Vitória e depois joguei noutros clubes no regional e no nacional.”

Sempre a ponta de lança, ainda que não fosse “jogador por aí além”, admite. “Sabia que era muito difícil chegar aos seniores do Vitória. E em Guimarães há um ditado que é ‘santos da terra não fazem milagres’. Tivemos lá alguns jogadores que sempre que jogavam eram criticados. Claro que gostaria de ter jogado lá, mas reconheço que não tinha qualidade para isso.”

Ainda assim, Henrique diz que há pontas de lanças com qualidade em Portugal, ao contrário do que se costuma dizer. “Temos alguns, não são é aproveitados. Agora tínhamos o Hugo Vieira, quando foi o Mundial no Brasil tínhamos o João Tomás, que era o melhor marcador português, e temos o Éder, que é criticado por todos mas não é mau de todo”, diz o ex-ponta de lança do Torcatense. “Gostava era de ver o Hugo Vieira na seleção. Cheguei a jogar contra ele, quando ele estava no Santa Maria, em Barcelos, há uns oito anos. Nunca mais me esqueço que me marcou sete numa época [risos]. Jogámos três vezes contra eles, duas para o campeonato e uma para a taça da Associação de Futebol de Braga, e ele marcou sete golos. Era mais de meia equipa”, elogia.

Bem menos produtivo mas igualmente talentoso era o guarda-redes dos juniores do Vitória: Nuno Espírito Santo. “Posso dizer que o Nuno sempre teve jeito para ser treinador, porque já quando era jogador percebia muito daquilo. E como guarda-redes tinha outra visão do jogo, como jogava ali atrás. Ele sempre foi muito entendido de futebol”, conta Henrique.

COLEGAS. Henrique Lopes jogou com Nuno, atual treinador do FC Porto, nas camadas jovens do Vitórias

COLEGAS. Henrique Lopes jogou com Nuno, atual treinador do FC Porto, nas camadas jovens do Vitórias

JOSÉ COELHO / EPA

“Quando o Nuno veio para o Vitória jogar connosco já tinha passado pelas camadas jovens do FC Porto, por isso já tinha estaleca para tudo, já falava bem. Sabia estar no futebol. Julgo que lhe vai correr bem no Porto, mas também quem faz os bons treinadores são os jogadores. Por isso, se o Porto souber investir com qualidade, então é meio passo para o sucesso”, diz um dos jogadores que foi campeão nacional de juniores pelo Vitória, em 1991/92.

“Lembro-me bem da data porque ainda há pouco tempo fizemos, lá no Estádio Dom Afonso Henriques, os 25 anos de campeões. O treinador era o Manuel Machado, o professor Manuel Machado. Era um homem tranquilo, já era um filósofo como ainda é”, graceja Henrique, referindo-se à eloquência do atual treinador do Nacional da Madeira.

“E era um bom crava de cigarros também [risos]. Claro que nós não podíamos fumar, mas às escondidas… E ele lá vinha tirar-nos os cigarros para fumar ele [risos]. Eram tempos assim. E foi a partir desse ano que o professor começou a evoluir, quer dizer, a ter mais sorte no futebol e a subir até entrar na 1ª divisão”, conta.

Henrique não teve tanta sorte no futebol, por isso trabalhava durante o dia como metalúrgico numa empresa de frigoríficos. “Era amador, treinava à noite para ter um extrazinho, tinha sempre a carteira um bocadinho mais recheada. Mas depois, com a crise em Portugal, era difícil viver com o salário que tinha, o estado tira-nos tudo. Viver vivia, mas se queria dar um futuro melhor aos meus filhos é preciso sempre mais alguma coisa. Então decidi arriscar e vim para França”, explica, acrescentando que não esperava ter de emigrar aos 40 anos.

“Mas gostamos aqui da zona, eu, a minha mulher e o meu filho de seis anos, que na escola fala francês mas em casa fala português”, diz. Então não pensa em voltar para Portugal? “Claro que penso, claro que penso”, responde sem pestanejar. “E o mais rápido possível. Logo que organize a vida mais um bocadinho, penso eu que é logo para arrancar. Tenho saudades do meu país, o cheirinho a Portugal faz-nos falta”, acrescenta, ainda que nem se sinta propriamente em França. “Tenho todos os canais portugueses e vejo sempre. Às vezes nem parece que estou em França [risos]. Só quando faço a estrada do trabalho até casa é que estou em França, de resto aqui no trabalho é um supermercado português e em casa é a televisão portuguesa. Mas todos os dias temos saudades de tudo em Portugal”.

E do Vitória? “Claro, acompanho sempre que posso. No jogo da seleção estava lá no estádio uma faixa do Vitória, acho que era para o Vieirinha, e até tirei foto para os meus amigos em Guimarães verem”, diz, depois de lamentar o resultado do jogo com a Islândia (1-1). Igualmente infeliz foi a época de outro ex-colega de equipa vimaranense, Armando Evangelista, que começou como treinador da equipa, mas foi trocado por Sérgio Conceição no decorrer do ano. “Infelizmente começou mal, com o meu amigo Armando, mas depois melhorou com o Sérgio Conceição. É verdade que quando o Sérgio Conceição chegou lá eu era contra, por aquilo que ele nos tinha dito quando estava no Braga, mas depois de ele ter assinado com o Vitória para mim já era o melhor do mundo”, explica. “Tive muita pena de vê-lo sair, porque, para mim, era um treinador à Vitória. Só que houve muita gente que lhe cortou as pernas e infelizmente teve de ser assim. Agora, o melhor treinador do mundo será o Pedro Martins.” Do mundo e do Vitória… Sport Clube.