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Alain de Botton: “Nós somos vulneráveis e muito ansiosos”

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mathias marx

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Critica a Academia pelo modo como ensina os estudantes e, na volta, recebe o desdém de quem o arruma na gaveta da “filosofia pop”. Alain de Botton usa a medida da História para relativizar o alarido contemporâneo dos media enquanto mantém em alta a cotação das ideias. Milita contra as “coisas feias”, colocando o pensamento sobre as cidades no centro do alvo, e, a propósito, confessa o ódio por Boris Johnson [o anterior mayor de Londres]. Com formação em história, literatura e filosofia, Alain de Botton fundou a School of Life juntamente com uma comunidade de pensadores que dá prioridade aos “problemas comuns”. Passados 20 anos sobre a publicação do seu primeiro romance, Alain regressa ao tema com uma proposta inédita: falar do amor, não o do enamoramento, mas o da duração, cheio das dificuldades do dia a dia. À medida que conta a história, analisa as causas, o tal misto de emoção e racionalidade que atravessa toda a sua obra. Admite que é preciso coragem para experimentar novas fórmulas de escrita. Como esta sobre a qual discorreu sentado à minha frente no seu escritório londrino. Numa tarde de final de maio, a luz branca ofuscava através das janelas, que davam sobre o verde omnipresente das pacíficas ruas de Belsize Park.

Trabalhou neste romance sobre o amor durante cinco anos. Tem vários projetos a correr ao mesmo tempo?
Sim, vários, e há um momento em que os pensamentos que vão surgindo parecem certos.

Então, quando se diz que, 20 anos depois de “Ensaios de Amor”, volta ao tema do amor não faz muito sentido...
Não faz, porque, de certa maneira, nunca abandono o tópico, está sempre presente, e os outros livros ajudam a dar forma ao pensamento. Tudo se interliga no cérebro.

Tem vindo a desafiar convenções, algumas delas estabelecidas há séculos. É o caso do Romantismo com letra grande, convenções sociais como o casamento, a religião, o trabalho, a política...
Eu não as desafio completamente, procuro o que é interessante nelas. Quando tratei da religião, não disse que deveríamos esquecê-la... Sou sempre muito simpático com o objeto do meu ataque. A religião era o alvo do ataque, mas também o aliado. Desta vez, com o amor... eu não quero que se diga que o livro ataca o amor, não. Sou muito a favor do amor. Penso é que temos de ter mais cuidado. É uma manobra semelhante à que usei com outros temas... A arte está muito bem, mas temos de a usar de determinada maneira.

Está sempre a dizer “vamos ser diretos e fazer uma abordagem racional”, seja do que for, como se dissesse “vamos ter maturidade perante as coisas”...
Concordo que maturidade é uma palavra interessante. É maçador quando se diz que tem de se ser mais maduro, porque vivemos numa sociedade com uma mentalidade impulsiva, romântica e muito jovem. A minha ideia dos seres humanos é que têm cérebros dignos de muito pouca confiança, e este é um ponto filosófico clássico. É como dizer que temos este cérebro que julgamos que nos dá informação rigorosa, mas não é verdade. Nós não compreendemos mesmo as outras pessoas, não nos compreendemos a nós próprios, e tudo é muito mais perturbador e complexo do que imaginamos. Por isso temos de ter cuidado e analisar, pensar, parar, separar elementos... esse tipo de coisas. Em particular em áreas como as relações amorosas, em que as pessoas são particularmente impulsivas e impacientes. Há quem acabe com um casamento por causa de um fim de semana que correu mal! O quê?

Esses gestos não estão diretamente ligados às expectativas?
Sim. Eu não sou uma pessoa de expectativas baixas, acredito em expectativas altas... mas se as temos torna-se mais complexo e somos obrigados a trabalhá-las, a planear.

A complexidade não é um problema em si...
Não, mas uma pessoa tem de estar preparada para ela, não há nada pior do que a complexidade que não foi prevista. As pessoas ficam muito impacientes, entram em pânico, sentem-se perseguidas, perguntam-se porque é que a vida está a correr tão mal. No espaço público não há informação suficiente sobre a complexidade das coisas. A história que contamos a nós próprios a propósito, digamos, do amor não é suficientemente honesta em relação às complexidades que implica.

Parece-me que vivemos em várias épocas diferentes consoante o sector da vida. A política rege-se por regras ultrapassadas, os resultados eleitorais já não refletem o eleitorado como antes, as tecnologias de informação deixam bem claro que parece que vivemos simultaneamente em eras diferentes...
Sim, é verdade, e muitas das nossas respostas têm um milhão de anos! Dá em grandes contrastes quase cómicos. Já fomos à Lua, estamos de partida para Marte, mas ainda não sabemos como evitar a discussão sobre a maneira de pendurar a toalha das mãos no toalheiro.

Não conseguirmos resolver essas pequenas coisas torna-nos ridículos?
Ontem estive numa conferência organizada pela Google [“Talks at Google”], e o Eric Schmidt [presidente da Alphabet] dizia durante a sua intervenção que estamos a trabalhar na cura do cancro, conseguimos ter segurança nas estradas, criamos viaturas sem condutor... A certa altura perguntaram-lhe se havia alguma área em que a Google não desse cartas, e ele respondeu: “Fanatismo, falta de tolerância... Não sabemos o que fazer com isso.” E acrescentou que gostaria que a Google fizesse uma aplicação para a sabedoria e para a tolerância. Eu fiquei a pensar como é fascinante que quem sabe tratar o cancro diga que não pode fazer nada pela tolerância. Intriga-me! O que pode ser mais difícil do que curar o cancro? Deveria estar ao mesmo nível de dificuldade!

O que é que o espanta?
Espanta-me muito a falta de ambição das nossas sociedades relativamente a questões emocionais. Já que a nossa felicidade e bem-estar são tão dependentes do nosso funcionamento emocional, é muito estranho que abandonemos e entreguemos esta área à sorte e ao instinto. É que mesmo estas grandes companhias tecnológicas que detestam deixar as coisas entregues ao instinto respondem: “Ah, sim, OK, isso é um mistério.” O quê? Que interessante!

Voltando ao Romantismo com letra grande, cito-o: “O Romantismo diz-nos que vamos conhecer a pessoa, o que é erróneo, porque todos nós somos humanos e loucos de formas incrivelmente variadas.” Falhámos a abordagem desta loucura?
Se ouvirmos discussões que os casais têm após passarem algum tempo juntos, os maridos ou mulheres estão muito zangados com o outro por ele não estar certo, por não ser suficientemente bom. Isto é frequente porque partimos da posição errada da afeção e seguimos em direção ao fundo. Como acontece com a religião. Tenho muita simpatia pela ideia católica do pecado original, que diz basicamente que toda a gente é pecadora. Eu sou um judeu secular, porém acho-a uma ideia encantadora e um ótimo ponto de partida. Se se começar uma relação com alguém admitindo “tenho muitos problemas, não sou nada perfeito”, é um bom ponto de partida. Significa que não haverá tanta autoconsciência de integridade moral, que é o verdadeiro inimigo do perdão. E o perdão é muito importante!

Está a falar de generosidade?
Eu digo algures no livro que temos de nos tratar uns aos outros como fazemos com as crianças pequenas, porque quando lidamos com elas somos muito generosos. É um trabalho difícil, mas somos sempre capazes de procurar uma boa explicação para o facto de, se a criança não é uma pessoa horrível, porque fez uma coisa horrível? Aos adultos, classificamo-los logo como horríveis, presumimos que o que fizeram foi para nos magoar, em vez de pensarmos que os outros, se calhar, estão apenas cansados, maçados, esse tipo de coisas.

Somos muito vulneráveis, achamos que tudo pode destruir-nos por qualquer razão?
Exato! Somos muito vulneráveis e muito ansiosos. É básico para todos, e achamos que é verdade para nós mas não para os outros. Uma lição básica é acreditarmos que sabemos imenso sobre nós próprios e, na verdade, tão pouco sobre os outros. Temos de acreditar que as outras pessoas têm o mesmo tipo de vulnerabilidades que nós. Não exatamente o mesmo arrependimento, mas arrependimento. Não exatamente o mesmo medo, mas medo. Insistimos que as outras pessoas são diferentes e projetamo-lo no amor, e quando idealizamos uma pessoa achamos que ela é perfeita. Quando odiamos uma pessoa, fazemos o mesmo e achamo-la o diabo, um horror. E isto porque simplesmente recusamos ter a perceção de que o outro é mais ou menos como nós, uma mistura de bom e mau, estúpido e esperto...

Ideias. A filosofia pode mudar as nossas vidas, há uma religião para ateus, as notícias poderiam interessar e informar os cidadãos e a arte salva: estas são ideias que têm sido defendida se fundamentadas por De Botton

Ideias. A filosofia pode mudar as nossas vidas, há uma religião para ateus, as notícias poderiam interessar e informar os cidadãos e a arte salva: estas são ideias que têm sido defendida se fundamentadas por De Botton

mathias marx

Disse há pouco que a maturidade é maçadora enquanto assunto. No entanto, ela é essencial para a relação entre adultos. Ao crescermos, admitimos com mais dificuldade que um adulto seja imaturo?
Ser imaturo não é um insulto. Há uma obsessão tão grande por não se querer ser infantil... O cristianismo é de novo interessante quando diz que toda a gente é uma criança filha de Deus. É um ótimo ponto de partida. A psicanálise diz o mesmo, que o adulto será chamado adulto e que tem muitos períodos, incluindo a infância, a existirem simultaneamente dentro de si. Não é um insulto, é só a realidade. Se a cultura nos enviar estas mensagens, ajuda, porque modela o tipo de conversas que as pessoas têm na cozinha e no quarto...

O conceito de normalidade é difuso.
A cultura decide o que é normal, e eu acho que a nossa ideia do que é normal não ajuda nada, deixa demasiada coisa de fora. Faz com que muitas pessoas se sintam estranhas. O que é normal tem a ver com as especificidades de cada cultura. Nós achamos que o século XIX foi muito anormal e que agora somos muito maduros na nossa aferição do mundo, mas não é exatamente assim.

E cada época pensa em si deste modo?
Sim.

Enquanto escrevia “O Curso do Amor” pensava no que seria normal para um casal?
Claro, quando dei o livro a ler ao meu editor ele mostrou preocupação por os personagens serem malcriados e agressivos um para o outro. Eu perguntei-lhe como é ele em casal. E ele respondeu: “Tal e qual como eu e a minha mulher, não é normal.” E eu retorqui: “Porquê?” Porque não é normal para a conversa pública. A conversa pública a propósito do amor ainda é reduzida.

O que se pode fazer por ela?
A arte e a literatura deveriam ser responsáveis por trazer o amor para a conversa pública, é essa a sua função. Em sociedade, as pessoas dizem sempre que estão “bem, ótimo”, e depois vamos para casa com vontade de nos matarmos. A arte para mim é alargar o sentido daquilo que é normal, fazer-nos sentir um pouco menos solitários. A função primordial da arte é assegurar o leitor da sua normalidade, da legitimidade do seu medo, esperança, infantilidade, zanga...

A literatura hoje precisa de ter objetivos?
Está muito fora de moda ter objetivos. O modernismo centra-se no esvaziamento da ideologia e foge ao didatismo. Os artistas visuais não devem ter missões artísticas afirmadas, é considerado vulgar, ordinário. Se alguém disser: “Estou a pintar para ajudar as pessoas a serem melhores pessoas”, soa muito esquisito. Eu tenho um sentido neorreligioso, nós vimos de sociedades religiosas que nos guiavam e tinham ideias sobre sabedoria (nem sempre a certa) mas com uma fortíssima intenção moral. Isto entra em colapso no final do século XIX, início do século XX, e o que o substitui é a liberdade, a ideia de que cada pessoa é livre. Mas liberdade também significa sozinho, e aquilo que passa a estar no lugar da religião é a cultura. Por isso se constroem as óperas, as livrarias... Toda esta energia está realmente a dizer que a cultura pode guiar-nos como a religião o fazia antes. Há que ver como.

Quer dar um exemplo?
Se eu for à Tate Gallery e disser que me sinto sozinho e confuso, eles perguntam-me: “O quê? Não podemos ajudá-lo, somos apenas a Tate Gallery!” A Tate não é a catedral de Londres, não é um lugar de consolo. Isto preocupa-me porque criámos uma cultura solitária onde é muito difícil percebermos para onde podemos virar-nos.

É comum crentes, em particular católicos, acusarem os ateus de terem escolhido estar sozinhos no mundo. Penso que a responsabilidade de um ateu é considerável...
Concordo, atribui um grande fardo ao indivíduo. A pessoa está sozinha, mas tem de encontrar soluções... Eu sou ateu, sempre fui, e vivo numa sociedade ateia. Ninguém é crente em Inglaterra, a Igreja desapareceu há muito tempo, a religião é uma coisa de outro tempo, por isso não acho que ser ateu seja uma ameaça. Imagino que em Portugal seja diferente, que haja maior presença da religião e que, por isso, a sua ausência seja mais ameaçadora.

Concorda que a religião é hoje mais vezes formulada em termos de fanatismo, extremismo, radicalismo? No caso do Sadik Khan, recentemente eleito para a Câmara de Londres, praticamente todos os comentários sobre ele o reduziam ao facto de ser muçulmano e moderado.
O cristianismo foi uma religião extremamente fanática em vários pontos da sua história. Comparado com uma religião poderosa e impositiva, é atualmente um gatinho. As religiões passam por períodos de maior e menor violência, perseguição e intolerância. O islão está numa fase parcialmente de extrema intolerância. Não me surpreende que os media falem de Sadik Kahn como muçulmano... mas moderado, porque os extremistas têm sido um problema.

Que tipo de impacto tem na sociedade britânica?
O Reino Unido é extremamente tolerante. Não porque os britânicos sejam extraordinários, mas porque há um sentido da vida pública que é fria, mas também muito tolerante. O país tem sido um lugar de tolerância religiosa há centenas de anos. No século XVII, quando os franceses andavam a queimar protestantes, eles fugiam para Inglaterra, onde ficavam à vontade. Há uma notável tolerância numa cidade como Londres. Parte da vitória de Khan deveu-se ao facto de as pessoas em Londres não poderem imaginar o que faria à sua autoimagem recusar um político que fosse muçulmano ou simplesmente por ele ser muçulmano. Qualquer pessoa aqui dirá que não se julga ninguém pela sua religião!

E como vê a mudança de Boris Johnson para Sadik Khan?
Eu detestava o Boris Johnson, acho que é um homem horrível e perigoso, por isso estou muito contente que tenha saído. Espero que ele não destrua o país de outra maneira qualquer.

Já fez estragos na liderança da campanha para o Brexit, não?
Corremos o risco de fazer estragos muito sérios.

Escola. A School of Life, academia que dirige em Londres, estabeleceu uma nova dinâmica nas ideias. Além dos cursos e das edições, a escola produz desde há um ano vídeos temáticos de quatro minutos para o YouTube

Escola. A School of Life, academia que dirige em Londres, estabeleceu uma nova dinâmica nas ideias. Além dos cursos e das edições, a escola produz desde há um ano vídeos temáticos de quatro minutos para o YouTube

vincent starr

Fez um vídeo sobre Londres onde diz que a cidade se está a tornar uma má versão do Dubai e chama-lhe Dublon. Em tom de campanha, exorta os londrinos a transformarem a raiva em ação. Não é intervenção política?
Acho que um dos problema das nossas sociedades é a fealdade, e é muito estranho que nenhum politico assuma que o problema do mundo é ser feio. Porém, a fealdade é um assunto muito importante. Muitas vezes aparece ligado à pobreza, as pessoas não dizem a palavra pobreza, mas associam a fealdade à descrição da pobreza. O mundo moderno é muito mais feio do que tem de ser, e não se trata de uma questão de dinheiro: é uma questão de ideias. Temos ideias erradas sobre o planeamento das cidades, a responsabilidade dos governos nisso, como funciona a arquitetura... Bastou que se fizessem dez grandes asneiras para que o mundo moderno tenha um aspeto geral desastroso. Os seres humanos adoram a beleza, basta ver que quando vão de férias vão para sítios bonitos, não vão para Birmingham nem para Frankfurt, porque são lugares feios. Vão para Amesterdão ou para Veneza, porque são sítios bonitos. Mas porque é que são tão raros, porque há tão poucas cidades assim bonitas?

E podem estar rodeadas de lugares feios...
Sim, basta olhar para os arredores de Paris: não é falta de dinheiro, é um erro intelectual. E isso endoidece-me! Escrevi um livro sobre isso, fiz uma série de televisão, provoquei imensa agitação e mantive-me muito ativo neste debate no Reino Unido durante dez anos. Estou ligeiramente retirado agora porque me cansei. Ainda me preocupo, é um desespero.

Qual é o papel dos intelectuais nestes debates?
Muitas vezes, os intelectuais e os académicos acham que os problemas do mundo radicam no desconhecimento de uma solução. Por isso, vão para as universidades e escrevem um livro sobre a justiça, como resolver o problema da fome e da corrupção ou a fealdade das cidades. Ótimo! E o mundo muda porque se escreveu um livro. Só que não funciona assim. Não basta a ideia, é preciso saber se alguém está a ouvir, se as pessoas acreditam nas conclusões a que se chega... Daí passa-se à educação, à política, meios de comunicação social, tudo isso...

E o intelectual na sociedade?
Perturba-me a posição do intelectual na sociedade porque tem muito pouco poder! Os meus livros são todos animados por este desejo de mudança, este interesse na alteração é um tema em si. Ao longo da vida tentei de várias maneiras e acho que a resposta é fazer-se o que se pode.

Diz que vivemos na época wiki — Wikipédia e WikiLeaks —, há intelectuais ativos, dispomos de informação, temos os media, temos os instrumentos, sabemos tudo...
E não fazemos nada! A política, numa sociedade democrática, uma eleição ou um político é o resultado de todo o tipo de ações que demoram muito mais tempo. Estamos a falar de cronologias diferentes. Uma eleição é o resultado de uma década de acontecimentos na sociedade, factos muito mais lentos. O fenómeno Trump nos Estados Unidos não começou hoje. O papel dos media deveria ser ajudar um certo tipo de política a acontecer, porque os media informam a sociedade das várias questões que lhe dizem respeito. Um político só pode fazer algumas coisas com ajuda dos media. Os políticos são o último estágio da mudança, os media estão antes disso na pirâmide da mudança, da mesma forma que no primeiro momento está a educação e depois a arte e a cultura.

Voltando ao novo livro: espera-se que uma história de amor caia do céu como um raio, e o que aqui faz é trazer a história à terra e analisá-la. É mais próximo de um caso de estudo?
Sim, eu sei que não é um livro para todos, que haverá quem recuse aquela voz analítica e exija a história, mas ela está lá. Aprendi que tenho de usar o meu prazer de escritor e escrever aquilo que gostaria de ler. Mesmo que seja pouco habitual. Há que ter a esperança de que alguns leitores gostem de um livro assim, é para isso que é preciso coragem. Este livro tocou profundamente algumas pessoas e outras nem de raspão.

Obriga as pessoas a refletirem sobre as próprias vidas?
Sim, e eu não quis escrever um ensaio filosófico nem só um romance. Quis uma fusão dos dois com uma tensão permanente.

A terapia não é muito popular. Não fica mais difícil?
Concordo, há muita hostilidade contra as terapias. E é verdade que há por aí muitos psicoterapeutas malucos, mas há ideias básicas na psicanálise que me parecem totalmente corretas. Coisas básicas como dizer que a forma como amamos foi modelada pela experiência com os nossos pais parece-me irrefutável. Certos estilos de vínculo, o modo como nos relacionamos com outras pessoas depende do nível de segurança que sentimos em crianças. Estas coisas têm todas uma história pessoal, e não sei como é que se poderia compreender um ser humano sem este modelo.

No seu trabalho, dá um passo atrás para olhar a estrutura daquilo que analisa. Fá-lo em termos de séculos, de história e como mecanismo para pôr os assuntos em perspetiva. É tranquilizante?
Estudei história das ideias em Cambridge, onde o treino nos dizia que cada ideia tem uma história e é sempre interessante recuar e aprendê-la. Fica-se a perceber as coisas fora de comum da nossa própria sociedade, boas ideias que ficaram bloqueadas no passado... Não diziam exatamente isto, mas foi o aproveitamento que eu fiz do que se ensinava. Parte do papel do pensador é recuar e resgatar o que pode esclarecer as estranhezas do presente. A dada altura no livro escrevo que o romantismo defende que, quando amamos, temos de amar tudo na outra pessoa, que a crítica é sempre agressiva e negativa, não se pode pensar em educar o amante. Se recuarmos à Grécia Antiga, o amor para eles é educação. A educação é o amor de se tornar uma pessoa melhor através do amor. Temos uma ideologia do romantismo fixada em 1750 que permanece nas cozinhas de Lisboa de hoje em dia. É fascinante, adoro estas ideias que não sabemos de onde vêm, achamo-las normais como se não tivessem história. Mas têm sempre uma história.

A compreensão pela história é uma espécie de terapia?
Sim, dá-nos mais opções, abre uma janela. De repente, este casal está a discutir, e abre-se uma janela pela qual podem olhar para os gregos antigos à distância.

Se lhe dá mais recuo pensar através da história, como reage à globalização?
É o mesmo princípio. Em vez de o fazer através do tempo, faço-o através do espaço. Da mesma forma que na história podemos olhar para épocas diferentes, agora podemos olhar através de diferentes países. Hoje em dia, na China, sabe-se mais sobre o Ocidente e vice-versa, ainda que, muitas vezes, não em profundidade. A proposta vazia da globalização diz que podemos enviar uma banana através do mundo em dois minutos. Mas a proposta interessante diz que se pode observar o relativismo de todas as convicções introduzindo mais opções, em última análise, as melhores opções para determinada sociedade. É o oposto do provincianismo, onde não se dispõe de suficientes janelas abertas e as pessoas pensam que aquilo que pensam é tudo o que existe. O provincianismo tem uma arrogância, e eu acho que nos tornámos um pouco menos provincianos com a parte boa da globalização.

A parte boa da globalização?
Sim, lembro-me sempre do que Flaubert dizia a propósito do caminho de ferro: um idiota entrava num comboio em Rouen e duas horas depois saía em Paris sendo ainda um idiota. É brutal, mas significa que as pessoas podem continuar a ser provincianas independentemente dos instrumentos que tenham ao seu dispor. O aeroporto é uma possibilidade, mas podem fechar-se os olhos.

Disse-me que, tal como Freud, é um pessimista. Como?
Há uma diferença entre ser um pessimista e ter uma filosofia pessimista. Ser um pessimista pressupõe a expectativa de que não vale a pena fazer muito porque vai correr tudo mal. Eu não tenho esse tipo de pessimismo. Penso que a filosofia do pessimismo tem muito a ensinar-nos, em particular sobre coisas como política, amor. Porque algumas das piores características da nossa época podem ser ligadas a uma especial de utopia furiosa, como a de Donald Trump. É interessante que Barack Obama seja extremamente pessimista. A resposta que deu para justificar não enviar tropas americanas para o Médio Oriente foi que provavelmente não faria qualquer diferença.

Não será realismo depois do que já aconteceu?
Com certeza! O que quero dizer é que é muito pouco comum quando estamos tão habituados à retórica do “vamos em frente, vamos resolver tudo”. O pessimismo é uma boa filosofia nos momentos em que suaviza a utopia furiosa. Pode tornar-nos mais pacientes e capazes de perdoar. Eu prefiro esperar pouco e ser agradavelmente surpreendido. O pessimismo não compromete um resultado positivo, ajuda-o.

A promessa de solução de todos os problemas não faz parte das campanhas eleitorais?
Todo o sistema mediático e a obsessão numa eleição exagera a importância do candidato. Só que a sociedade muda por movimentos profundos e lentos. Os media gostam de afirmar que as grandes mudanças se devem a grandes homens e grandes mulheres. Acho que Donald Trump é um fenómeno de impaciência, ele refere tudo e todos à volta como lentos e afirma-se rápido. Diz que a política é lenta, os negócios são pelo contrário rápidos. É isso que ele vende, que, se elegermos alguém dos negócios, a política adquire a velocidade dos negócios: o sonho americano. Ele esquece que a política é lenta porque foi assim desenhada para poder travar os loucos. Os fundadores da América eram obcecados pela tirania, obcecados pela possibilidade de subida ao poder de um tirano, porque era isso que eles conheciam séculos seguidos na Europa. Ao escreverem a Constituição, pretendiam dar espaço ao positivo, preparando-se para evitar um mau Presidente. A Constituição é a instância do sistema americano capaz de dar o poder a um bom Presidente. Com esperança, o sistema sobreviverá até a Donald Trump. Desta vez é mesmo extremo, será o grande teste à democracia da América! Mas as pessoas são individualmente mais determinadas pelas relações que têm entre si e com os seus filhos do que pelo Presidente dos EUA.

Vivemos tempos perigosos?
Não mais do que em qualquer outra época. A experiência humana, a nossa vida é perigosa. Podemos cair mortos num segundo. Nunca pensamos nisso, mas isto é perigoso do princípio ao fim.

O Expresso viajou a convite da editora Dom Quixote