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A mensagem de Fátima na Rússia (e um ícone russo em Fátima)

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José Milhazes, um veterano correspondente que conheceu a União Soviética, assistiu ao seu fim e só voltou a Portugal há alguns anos, apresenta esta quarta-feira o seu livro “A mensagem de Fátima na Rússia”, no qual explora a relação entre o Estado e as duas grandes versões da religião cristã

Luís M. Faria

Jornalista

SÍMBOLO. Um ícone de Nossa Senhora de Fátima, pintado segundo os princípios canónicos ortodoxos e que se encontra num Templo Católico em São Petersburgo

SÍMBOLO. Um ícone de Nossa Senhora de Fátima, pintado segundo os princípios canónicos ortodoxos e que se encontra num Templo Católico em São Petersburgo

d.r.

“Eu tiro o som à televisão e fico a ver a Santa Rússia enquanto falo consigo”, diz José Milhazes ao telefone. O veterano jornalista encontrava-se a assistir à parte final do jogo entre a Rússia e a Eslováquia, no qual a primeira perdia por dois golos (o resultado final seria 1-2). “Estou com medo que saiam do estádio…”, disse, numa alusão às recentes batalhas campais com hooligans russos em França.

O Expresso contactou-o a propósito do seu livro “A Mensagem de Fátima na Rússia” (ed. Alêtheia), que está a ser lançado em Lisboa exatamente à hora de publicação do Expresso Diário. Conforme o título indica, é uma obra sobre a divulgação das aparições de Fátima e dos alegados segredos transmitidos por Nossa Senhora aos pastorinhos em 1917.

O interesse de Milhazes pelo tema vem de há muito. “Apareceu de uma forma um pouco estranha, mas real”, explica. “Em 1984, eu e a minha esposa fomos visitar Fátima, e vimos que por trás do Santuário existia uma igreja ortodoxa. O que está aqui a fazer?, perguntámos.” Não só aquela igreja estava ali, como no seu interior havia uma cópia de um famoso ícone russo, o de Nossa Senhora de Kazan. “O original, do séc. XVI, desapareceu, e aquela cópia, do século XVIII, é a mais importante. Na rizza [a cobertura metálica que protege os ícones] tinham sido incrustadas centenas de pedras preciosas.”

Continuou a acompanhar a história do ícone, e a ideia voltou-lhe após o fim da URSS. Eles e dois jornalistas russos escreveram um artigo a lembrar que em Portugal havia um ícone muito importante que devia regressar à Rússia após o fim do comunismo. Por motivos vários, esse regresso acabaria por acontecer já no século XXI, passada mais de uma década sobre a dissolução da União Soviética.

Vida real, evolução ideológica

Milhazes viveu 33 anos na Rússia. Em 1977, a então União dos Estudantes Comunistas enviou-o para lá como estudante. Terminado o curso, ficou alguns anos a trabalhar como tradutor de russo-português para uma editora soviética. Quando as reformas de Gorbachev se iniciaram, Emídio Rangel convidou-o a ser correspondente da TSF, e nunca mais deixou o jornalismo.

Entretanto, conhecera a sua futura mulher, que era estónia e vivia na mesma residência que ele, além de estudar na mesma universidade. As circunstâncias pessoais, admite, foram decisivas na sua evolução intelectual. “O processo acelera quando se casa com uma soviética e se tem filhos. Uma soviética casada com um estrangeiro era muito ostracizada e tinha muitos problemas. Para vir a Portugal conhecer a minha família, ela teve de passar pelos nove círculos do Inferno. Tinha de provar que era politicamente alfabeta. Tinha de estudar a história do Partido Comunista Português, para poder responder num exame quando chegasse a Portugal. Havia muito controlo a nível de faculdade, de ministério do Interior, para receber o passaporte”.

Também contribuíram as carências de outro género. “Faltavam coisas essenciais para as crianças, ou eram precisos grandes esforços para as arranjar. Fraldas de papel, por exemplo, não existiam. Enquanto somos estudantes, somos jovens e estamos afastados do mundo real. Depois, à medida que vamos vendo os problemas reais do dia a dia, as coisas mudam. E o castelo desmoronou-se”. Ainda acreditou que as reformas de Gorbachev pudessem melhorar o sistema, mas depois desenganou-se.

Fátima e o combate ao comunismo

A descoberta do ícone em Fátima levou Milhazes a interessar-se pelas repercussões do segundo segredo de Fátima por trás da Cortina de Ferro. O tema tinha adquirido importância renovada com a eleição de João Paulo II como Papa, e ele foi-o aprofundando. Tudo isso desemboca no livro agora publicado. “Como para o ano que vem são os cem anos das aparições de Fátima e da Revolução de Outubro, decidi publicar já este ano. Deve ser o primeiro livro sobre o assunto.” O seu foco é histórico, não espiritual. “Não é um livro de teologia, nem eu me ponho a discutir se as aparições existiram ou não. Isso é com os teólogos.” Porém, admite afinidades pessoais: “Estou consciente de que pertenço a uma civilização cristã. E se me pergunta se neste momento tenho fé, respondo-lhe que sim.”

Fé em Deus e em Cristo não é o mesmo que acreditar nas aparições de Fátima. Em relação a estas últimas, Milhazes não se define. Mas lembra que “o segundo segredo já falava da Rússia, diz que ela iria passar por maus momentos devido a um estado ateu”, e que se o mundo rezasse pela conversão do país “ela iria acontecer”.

“A mensagem de Fátima teve consequências primeiro no combate ao comunismo”, diz. “Foi uma das grandes bandeiras utilizadas pela Igreja Católica e por alguns estados ocidentais. Depois, basta olhar para a relação entre Fátima, o Papa João Paulo II e a libertação dos países de Leste. Claro que me podem dizer que tudo isto é ficção. Mas eu acho que, se em relação a obras de Nostradamus ou do sapateiro de Trancoso somos nós que interpretamos agora a mensagem, o segredo de Fátima foi anunciado antes. Poderão dizer: é coincidência. Cada pessoa acredita no que quer.”

Oficialmente, a Igreja Ortodoxa não reconhece Fátima

A mensagem de Fátima terá começado a chegar à Rússia depois da II Guerra Mundial. A iniciativa pertenceu naturalmente à Igreja Católica – “por exemplo, lituanos, povo maioritariamente católico” – e também aos polacos, que mantiveram a sua forte religiosidade. As autoridades soviéticas estavam atentas, e houve pessoas condenadas por transmitirem informação sobre o assunto. “A mensagem penetrava com bastante dificuldade, mas conseguia”, diz Milhazes.

Uma imagem de Fátima foi levada clandestinamente para a Praça Vermelha, nos anos 70. Em 1984, a Rússia foi consagrada a Nossa Senhora, de forma clandestina. Mesmo entre movimentos dissidentes ortodoxos, a mensagem de Fátima foi tida como um sinal de que era possível resistir ao comunismo. “Uma parte deles usa-a, embora a Igreja Ortodoxa oficialmente não reconheça a mensagem de Fátima. Como não têm imagens tridimensionais, não acreditam que Nossa Senhora tenha aparecido em corpo.”

Embora essa seja a posição da hierarquia ortodoxa aos mais alto nível, Milhazes nota que o mestre espiritual do atual patriarca russo esteve clandestinamente em Fátima em 1975, e era um grande defensor da aproximação entre as igrejas Ortodoxa e Católica. Acredita ele próprio numa eventual reunificação? “Penso que é uma coisa quase impossível”, responde. “Mas eu já vi tantas coisas impossíveis. Poucos acreditavam que a URSS acabaria.” A propósito, Milhazes diz: “Se Kruschov acreditasse no segundo segredo de Fátima, não teria entregue a Crimeia à Ucrânia. Só o fez porque acreditava que a URSS era eterna. Jamais pensou que eles se transformassem em países independentes. Mesmo para os inimigos da URSS, era impossível fazer previsões.”

O diálogo entre católicos e ortodoxos, na sua opinião, será muito longo. “Serão precisas dezenas e dezenas de anos para que possamos ver uma aproximação entre os dois.” Talvez um fator pouco útil seja a atual aliança entre a Igreja Ortodoxa e o Governo de Vladimir Putin. “Isso é uma das formas de se matar uma igreja, colá-la ao poder civil. Ao perder a sua autonomia, perde o seu poder de intervenção”, diz Milhazes.

Os gestos de conciliação, apesar disso, vão acontecendo. Quanto ao ícone que se encontrava na igreja ortodoxa em Fátima (uma igreja usada pelos Uniatas ucranianos – cristãos que têm um rito ortodoxo mas reconhecem a primazia do Papa de Roma), já foi devolvido à Rússia, por ordem de João Paulo II. Uma cópia foi oferecida pelo patriarca Kirill ao atual Papa, quando os dois se encontraram em Cuba no passado mês de fevereiro.