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A importância dos irmãos

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Poderão as relações fraternas ser as mais determinantes na formação da personalidade de uma criança? Há quem defenda que sim

Ter irmãos é, “por si”, uma riqueza emocional — mas estes poderão ter muito mais importância na formação da nossa personalidade do que imaginamos. Um estudo agora publicado no “Journal of Family Psychology”, levado a cabo pela investigadora da universidade Brigham Young (EUA) Laura Padilla-Walker, concluiu que “a presença de um irmão ou de uma irmã tem mais influência no desenvolvimento da personalidade e da atitude mental do que a presença dos pais”. A investigação acompanhou 395 famílias com mais do que um filho, durante um ano, recolhendo vários elementos sobre a dinâmica do agregado. E revela que “ter um irmão afetuoso, seja rapaz ou rapariga, promove comportamentos positivos de entreajuda”, dentro e fora do universo familiar. Além disso, “a presença de uma irmã, do sexo feminino, ajuda a proteger os adolescentes de sentimentos de solidão, medo, culpa e insegurança”, independentemente da idade desta.

A pedopsiquiatra Ana Vasconcelos dá o devido enquadramento. Começa por assinalar que “o nosso cérebro não foi ‘desenhado’ para a sociedade atual, mas sim para a antiga sociedade tribal”, de família alargada. “Ao contrário do modelo atual, onde vigora o reino do filho único, uma criança é muito mais feliz se tiver irmãos.” Voltando ao cérebro, a pedopsiquiatra ressalva que este “nos dota, desde que nascemos, de capacidades de intersubjetividade, através dos neurónios-espelho. Estes permitem-nos desenvolver uma compreensão empática, intuir o que o outro está a sentir, pensar, ou como vai agir”.

Assim, não a surpreende que as boas relações entre irmãos — cultivadas “no primeiro meio relacional onde se vivenciam as relações de afetividade profunda e de intimidade” — sirvam para “preparar as crianças para a cooperação e interajuda, mas também para o controlo das emoções negativas” face às contrariedades ou frustrações. Na verdade, os conflitos entre irmãos são excelentes formas de adquirir competências — que se revelarão valiosas — para aprender a lidar com os desaires e as contrariedades da vida. “As brigas entre irmãos são dos primeiros e melhores modos de aprender a não entrar em “sobrevivência egocêntrica”, mas a ir sabendo aceitar, sem desesperar, que ‘umas vezes eu, outras vezes tu’”, relembra Ana Vasconcelos. Os pais podem ficar descansados: “A ausência de afeto entre irmãos revelou ser mais problemática do que níveis elevados de conflito”, explica a autora principal do estudo.

Contudo, Ana Vasconcelos é perentória. Não considera que se possa dar mais importância aos irmãos do que aos pais. Defende que cada figura exerce o seu papel no desenvolvimento infantil. “Com o imprescindível cuidado dos principais cuidadores — os pais —, e com a indispensável chancela da autoridade parental, as relações fraternas de boa qualidade permitem saudáveis trocas de afetividade e de negociação de conflitos. Isto é tão fundamental para a partilha de boas relações de afeto, de relações sociais de responsabilidade e cidadania, como para a capacidade de estar sozinho, sem se sentir em solidão.”