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Lobos solitários do Daesh matam 80 pessoas em dois anos

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Paris e Orlando estão em estado de choque depois dos ataques de dois fanáticos desta semana. Desde 2014, outros atacantes solitários inspirados no Daesh mataram, feriram e sequestraram inocentes em vários pontos do globo

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Larossi Abballa nasceu em França e nunca pôs os pés na Síria. Omar Mateen é filho de imigrantes afegãos mas vivia na Florida e que se saiba nunca esteve em campos de treino de grupos jiadistas no Médio Oriente. Isso não impediu os dois homens, de 25 e 29 anos, de cometer dois ataques, que mataram no total mais de 50 pessoas em dois dias, em Orlando e em Paris. Em ambos os casos agiram sozinhos e, aparentemente, por inspiração no Daesh mas sem o envolvimento logístico direto de qualquer tipo de grupo terrorista.

Chamam-lhes lobos solitários e nos últimos anos têm cometido dezenas de atentados em nome da Al-Qaeda e do Daesh, matando e ferindo centenas de pessoas. Os ataques mais mediáticos tiveram lugar no Museu Judaico em Bruxelas (Bélgica), no Lindt Chocolat Cafe de Sidney (Austrália), no coração de Otava (Canadá) ou na Califórnia e no Tennessee (EUA). No total mataram 80 pessoas em dois anos.

Polícias e militares são os alvos mais apetecidos, mas já foram assassinados civis, com o pretexto de serem pessoas de religião judaica ou homossexuais. O objetivo não é o de provocar mortes em massa. Os homicídios podem causar até poucas vítimas mas causam um impacto psicológico profundo, fazendo aumentar tensões, receios e até algum terror. São indivíduos, geralmente com algum tipo de perturbações mentais e carregados de ódio, que cometeram um crime em nome do extremismo islâmico.

“O objetivo é uma espécie de ‘liberalização’ da Jihad. Ou seja, tornar a ideia como fonte de inspiração de uma ação não dependente de uma estrutura de comando ou de um planeamento centralizador. Qualquer um pode ser jiadista, se assim o quiser”, explica Felipe Pathé Duarte, investigador na área de segurança e terrorismo e porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT). Este especialista frisa que há poucas semanas, Abu Muhammad al-Adnani (porta-voz do Daesh) fez um veemente apelo para que sejam feitos ataques ao Ocidente durante o mês do Ramadão, “seja de que forma for, e seja qual for o tipo de arma utilizada”.

É possível sair ileso a um ataque?

Em Sidney, já nos últimos dias de 2014, teve lugar um dos mais dramáticos ataques perpetrados por um destes simpatizantes jiadistas. O clérigo iraniano Man Haron Monis sequestrou 17 pessoas durante 16 horas no Lindt Chocolat Café, situado no centro da cidade. O cerco policial foi seguido pela televisão minuto a minuto e difundido em direto para todo o mundo. O extremista exigia que lhe fosse entregue uma bandeira do EI e advertiu que quatro bombas estariam espalhadas por Sidney. O impasse acabou com a invasão da polícia ao café e com a morte de dois reféns, bem como a do autor do sequestro.

Monis, que em 1996 pediu asilo à Austrália, tinha um cadastro de violência sexual sobre várias mulheres e era suspeito de ter planeado o homicídio da sua ex-mulher, esfaqueada no apartamento em novembro de 2013. Estava em liberdade condicional, depois de ter sido preso por ter sido o autor de várias cartas de ódio contra a presença de tropas australianas no Afeganistão. O xeque Monis, como era conhecido, nunca se alistou no EI e não eram conhecidos planos para viajar para a Síria.

Este tipo de ataques é difícil de evitar, já que os homicidas atuam quase sempre a solo, sem necessidade de fazer um grande planeamento, e agindo muitas vezes impulsivamente, o que gera um efeito surpresa. Mas há procedimentos usados entre as forças policiais para diminuir o número de vítimas mortais. “Existe um protocolo (que é classificado, por motivos de segurança) para a resposta policial a situações de active shooters”, revela uma fonte ligada às forças de segurança.

Este destacado responsável deixa alguns conselhos práticos a vítimas sequestradas por este tipo de terroristas. “Procure abandonar o local, se possível. Caso a polícia se encontre nesse local, garanta que as mãos estão à vista e cumpra as ordens policiais. Isto porque nos primeiros momentos os agentes não sabem quem são os active shooters. Caso não seja possível abandonar o local, tente barricar-se num local que considere seguro e espere pela chegada de socorro.”

Os principais locais atacados pelos ‘lobos’

Nos Estados Unidos, além do massacre em Orlando, que vitimou 49 pessoas na discoteca gay Pulse, um casal inspirado pelo Daesh matou 14 pessoas em San Bernardino, na Califórnia, a 2 de dezembro de 2015. Os autores, a paquistanesa Tashfeen Malik, de 29 anos, e o marido, o americano Syed Farook, de 28, foram abatidos pela polícia. Cinco meses antes, Mohammad Yussef Abdulazeez, cidadão norte-americano nascido no Kuwait, fez dois ataques numa base militar em Chattanooga, no Tennessee, matando cinco militares. Foi também morto pelas autoridades.
Um pouco antes, em maio de 2014, um francês de origem argelina chamado Medhi Nemmouche matou a tiro quatro pessoas num ataque ao Museu Judaico em Bruxelas. Na mesma altura, no Canadá, dois islamitas mataram dois soldados num período de dois dias. O primeiro morreu atropelado por Martin Couture-Rouleau, no Quebeque. O segundo foi assassinad junto ao Memorial de Guerra em Otava por Michael Zehaf-Bibeau, que depois do homicídio se refugiou no Parlamento, causando o pânico ao fazer vários disparos para o ar.

Tanto Couture-Rouleau como Zehaf-Bibeau, que acabaram por ser abatidos pelas autoridades canadianas, eram há muito tempo vigiados, tendo os seus passaportes sido já confiscados pelas autoridades. Suspeitava-se que em breve iriam viajar em direção à Síria para se juntar ao Daesh.