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Serviço Nacional de Saúde tem dez anos de vida se não inovar

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Henrique Luz Rodrigues, Constantino Sakellarides e Henrique Botelho não se furtaram aos temas polémicos

josé caria

Vive-se uma revolução digital e genómica, com a democratização da genética, que está a mudar os cuidados assistenciais. O caminho não tem retorno. Quem estuda a área afirma que o desafio é grande: como vamos utilizar este progresso para ter ganhos em Saúde? Se a resposta demorar, será o princípio do fim do serviço público de saúde

Vera Lúcia Arreigoso

Vera Lúcia Arreigoso

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Jornalista

José Caria

José Caria

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Fotojornalista

O prognóstico é reservado. Os cuidados públicos de saúde aos portugueses morrerão dentro de um década se não integrarem a revolução tecnológica atual. O aviso é feito por um dos mais conceituados ‘pensadores’ da Saúde em Portugal. Constantino Sakellarides está convencido que o “Serviço Nacional de Saúde (SNS) não sobreviverá se não transformar a gestão das intervenções assistenciais na gestão do percurso das pessoas, integrando toda a inovação que está a surgir”.

Na conferência “O meu futuro”, organizada pelo Expresso e pela Bayer a 31 de maio em Lisboa, o professor catedrático da Escola Nacional de Saúde Pública foi perentório: “Não vamos ter SNS dentro de dez anos se não fizermos alterações, centrando-o nas pessoas.” O tempo até ao objetivo não é muito, mas o caminho já começou a ser feito. “Estamos a trabalhar nesse sentido, por exemplo com os programas prioritários criados”, como para a promoção da saúde e literacia.

A necessidade de portugueses mais informados sobre a saúde é premente quando se sucedem novas tecnologias que, obviamente, trarão ganhos a quem melhor as conhecer ou utilizar, sejam medicamentos inovadores, dispositivos médicos, aplicações móveis ou outros. É o início de uma Era de Saúde Digital que, mal aproveitada, aumentará o fosso entre quem tem capacidade de tomar decisões e quem não está a apto a fazê-lo.

Professor de Legislação e Ética de Saúde na Universidade Nova de Lisboa, João Cordeiro explicou aos presentes que hoje fala-se “em GIS — Global Information System, uma espécie de Google Maps para o ser humano”. E todos os que não o souberem utilizar vão perder-se no caminho para mais e melhor saúde. “Há médicos que já prescrevem aplicações, por exemplo a doentes que tiveram cancro.”

Mas não só. “No campo dos dispositivos médicos já há estetoscópios ligados ao computador e que ensinam a auscultar, um comprimido que permite medir a adesão à terapêutica ou um chip de controlo de natalidade implantável por controlo remoto que pode durar até 16 anos” em desenvolvimento pela Fundação Bill Gates.

“A conjugação da revolução digital com a revolução genómica [com a democratização do mapeamento dos genes] a que estamos a assistir tem benefícios mas também consequências que ainda temos dificuldade em precisar. As desigualdades podem ser reduzidas pelas novas tecnologias, mas também podem aumentar”, salientou João Cordeiro. Ou seja, “o problema é saber como vamos utilizar as novas tecnologias para obter ganhos em Saúde”, resumiu Helena Canhão, reumatologia e professora na Nova Medical School.

A inovação que está a chegar pode ajudar quem precisa, mas também dificultar o acesso a quem está menos preparado. A médica deu o exemplo de um caso de sucesso: “Neste momento há uma rede social para ajudar pessoas com dificuldades de visão ou analfabetas a ler rótulos de latas, por exemplo de alimentos. Basta-lhes apontar o telemóvel e do outro lado alguém identifica o que é.” Ainda assim, Helena Canhão reconheceu que “o ponto de vista dos doentes nem sempre é o mesmo do dos profissionais de saúde”, embora a sintonia seja essencial para ajudar a superar o que vai além da doença propriamente dita.

“A carga deixada pela doença precisa de um apoio que vai além do que é dado pela medicina convencional, mas nas consultas nunca é destes assuntos que falamos, não falamos das necessidades da vida diária”, criticou a reumatologista. E é precisamente aqui que as novas tecnologias também podem ajudar muito. Basta pensar no que as ferramentas 3D já conseguem fazer, como órgãos ou próteses. “Vai revolucionar a medicina.”

E Portugal já está nesta corrida. Pedro Oliveira, professor na Católica-Lisbon School of Business and Economics, lidera um projeto inovador para ajudar a concretizar projetos idealizados por doentes para minorarem as suas limitações. Recentemente, com recurso a uma impressora 3D conseguiram produzir uma prótese para um menino que nasceu sem mão e antebraço. “Custou 18 euros em material e não os 10 mil euros de uma prótese” clássica. “A inovação na Saúde não vem de onde se espera, vem dos doentes e de outros intervenientes”, afirmou. Neste caso, contou com a ajuda de um norte-americano conhecido pela criação de fantoches.

João Cordeiro fez questão de explicar que o exemplo da prótese impressa em 3D é a prova do que já se sabe: “Nem sempre investir mais dinheiro aumenta os ganhos em Saúde.” Sobretudo quando faltam boas ideias. E o sector dos medicamentos inovadores é um dos que habitualmente está sob crítica. “Coloca-se uma grande questão, se o custo do medicamento está adequado à efetividade do tratamento”, afirmou o presidente do Infarmed, Henrique Luz Rodrigues.

O responsável pela autoridade nacional no sector explicou ainda que hoje estão em cima da mesa questões como a parte do custo da investigação que deve servir para definir o preço. Além disso, cada vez mais “é preciso medir os ganhos que os novos medicamentos trazem”.

E o Coordenador Nacional para a Reforma dos Cuidados Primários, Henrique Botelho, concordou. “O sobrediagnóstico e o sobretratamento são desafios para os sistemas de saúde.”

Por isso, é preciso apostar no acompanhamento estruturado do doente e não apenas no tratamento agudo. “Os cuidados primários são a base dos cuidados de saúde e devem ser cómodos.” Por exemplo, “além do médico, é preciso uma equipa de saúde para nos dar alguma segurança”.

O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, encerrou a conferência com a garantia de que o Serviço Nacional de Saúde está no caminho certo. “Estamos envolvidos em diálogos na UE para que possamos conseguir um bem maior: que nenhum cidadão europeu fique afastado da boa inovação, da inovação que é disruptiva, por razões de natureza económica.”

[Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 junho 2016]