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Cuidadinho com os algoritmos

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AVISO. Ao centro, John Landgraf, CEO da FX Networks e FX Productions F

d.r.

John Landgraf, CEO da FX Networks, tocou na ferida quando disse, há menos de um ano, que “há televisão a mais”. Landgraf referia-se a um mal-estar, um incómodo, uma inquietação, um desassossego instalados entre os executivos do “métier”, os críticos televisivos e, claro está, os espectadores. E porquê? Porque simplesmente “há muita coisa a dar na televisão”. Agora deita nova acha na fogueira.

Luís Proença

A declaração do CEO da FX Networks, responsável pela gestão de vários canais de cabo nos Estados Unidos, detida pela Fox, teve o propósito de servir de pedra de toque para pôr em perspectiva a necessidade de encarar “o enorme desafio em encontrar histórias originais e atraentes, bem como o nível de talento necessário para sustentar essas histórias”. Aqui chegados, Landgraf vem agora deitar uma nova acha na fogueira da discussão sobre os caminhos a seguir na produção de séries televisivas, avisando para os perigos da replicação (na indústria da TV) dos modelos de negócio fundados num modo de pensar excessivamente dependente da tecnologia.

“Há toda uma coisa a acontecer nesta altura com a Netflix e outros em Silicon Valley que dizem que os algoritmos vão dominar e tomar decisões. Eu digo-lhes que são uns convencidos! Vocês (produtores) não podem (dizê-lo)”. Landgraf falou e disse-o à mesa de um painel de debate, lado a lado com Noah Hawley, o criador de “Fargo”, numa conferência promovida pela Producers Guild of America onde explicou de seguida que isto das artes e ofícios da televisão “não é a mesma coisa que fazer um programa de computador que siga as regras fixas e formais de um jogo de xadrez”, acrescentado que há muitas variáveis envolvidas no processo de decisão sobre que programas produzir.

Apontando o foco em especial para a diferença entre homens e máquinas, Landgraf – convencido de que a inteligência artificial ainda tem cem anos de caminho pela frente até conseguir chegar ao que os humanos conseguem fazer -, sugere a opção por uma via mais tradicional quando se concebe um programa: falar com os criativos. “Ouvir realmente, com real cuidado, a um nível humano o que têm para nos dizer e sentarmo-nos e dialogarmos, refletindo acerca das histórias e vendo cinema e televisão e, a partir daqui, escolher as melhores histórias e as melhores pessoas possíveis” para as materializar.

A propósito, de resto, desta questão sobre a intersecção dos processos de decisão criativos com os processos de tomada de decisão acerca do negócio do entretenimento, Landgraf desaconselha à televisão que vá à boleia dos exemplos Silicon Valley: “olhando para os modelos de negócio de Silicon Valley, fundamentalmente para os modelos de negócio, trata-se de monopólios”. E exemplifica: “o Google é um monopólio. A AirBnB é um monopólio. A Uber é um monopólio. A Amazon é um monopólio. E os monopólios significam que não há mais do que um lugar para vender. Penso que o que mantém os estúdios honestos… até certo nível, é um mercado de talento competitivo. Não gosto deste modelo de vencedor absoluto permanente, este modelo Google. Penso que é um modelo terrível para o futuro da criatividade”.

Empresas como a Netflix e a Amazon transformaram-se em muito poucos anos nos mais recentes rivais da FX e de outras cadeias norte-americanas de distribuição por cabo como a HBO ou a Showtime, no campeonato das séries. E também o Google, através do serviço de subscrição paga por streaming YouTube Red.

O responsável da FX prevê uma “grande transformação” na estrutura do negócio da produção, do ponto de vista da criação de conteúdo, mas também na distribuição e na venda desses conteúdos nos próximos anos e remata: “Penso que a nossa sociedade é melhor quando os contadores de histórias estão nas posições mais relevantes e o que mais me preocupa quando encaro os modelos de negócio fundamentais de Silicon Valley, parece-me o ‘Monopólio’”.