Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Temos de falar sobre o divórcio de Johnny Depp

  • 333

A atriz de 30 anos garante foi alvo de agressões físicas e verbais durante toda a relação, que durava desde 2012

Jason Merritt

Johnny Depp está separado da mulher Amber Heard, que o acusa de agressões físicas e verbais. A imprensa e as redes sociais dividem-se: uns acreditam na atriz, outros garantem que ela quer o dinheiro do ator e que “alguma coisa fez” para o provocar. Temos mesmo de falar sobre isto – não é sobre a relação de duas estrelas de Hollywood, mas sobre o impacto que ela pode ter em tantas vítimas sem nome nem voz

Estávamos a 27 de maio e os olhos do mundo pousavam em Lisboa, mais precisamente no Parque da Bela Vista, onde decorria a edição deste ano do Rock in Rio. O que importava não era (só) a música que os cabeças de cartaz Hollywood Vampires iriam oferecer a quem esperava por eles no recinto, mas a atitude com que o guitarrista Johnny Depp apareceria em público horas depois de ter sido acusado de violência doméstica pela sua ainda mulher Amber Heard.

Foi um choque para o mundo. Dias depois de ter vindo a público o pedido de divórcio da atriz, que alegava que "diferenças irreconciliáveis" estariam na origem da separação e pedia uma polémica pensão mensal de 50 mil dólares, Amber aparecia em tribunal com ferimentos visíveis na cara e um pedido de restrição contra o ator, alegando ser vítima de abusos físicos e verbais desde o início do casamento de 15 meses.

A ordem de restrição, que proíbe Johnny Depp de estar a uma distância menor do que 90 metros de Amber Heard, foi aprovada; a pensão mensal para "manter o estilo de vida" a que se habituou durante o casamento, assim como a ordem de restrição também para o cão da atriz, Pistol, e as sessões para controlo do temperamento de Depp foram adiadas para a próxima audiência, agendada para 17 de junho.

Às acusações da atriz sobre "o longo e amplo histórico de abuso de álcool e drogas" do marido e às fotografias de cara inchada e com feridas, seguiu-se um rol de acusações difícil de acompanhar em tempo real, não fosse o empenho dos media, especialmente os norte-americanos, em relatar a história. Depp apressou-se a responder, através dos seus advogados, num comunicado em que fazia questão de sublinhar por duas vezes a "brevidade" do casamento: "Devido à curta duração deste casamento e a recente e trágica morte da sua mãe [que acontecera três dias antes], Johnny não responderá à desinformação, aos rumores e às mentiras sobre a sua vida pessoal. Ele espera que a dissolução deste breve casamento aconteça rapidamente".

O desejo era de rapidez, mas tal não parece estar perto de acontecer. Desde então, Heard já revelou novas fotografias, assim como mensagens supostamente trocadas com o assistente de Depp, Stephen Deuters, em que refere que "ele [Depp] já fez isto muitas vezes. Não sei se posso ficar com ele" e o interlocutor responde que "ele está muito arrependido. Quando lhe contei que te pontapeou, ele chorou".

"Ele é uma pessoa sensível, carinhosa e amada"

Se as acusações são fortes, ainda mais explosivas são as respostas, que não páram de chegar – e que parecem enfraquecer os argumentos da atriz. Vanessa Paradis, que durante 14 anos namorou com Depp e é mãe dos seus dois filhos, publicou nas redes sociais uma nota em que garante que ele é uma pessoa "sensível, carinhosa e amada" e se refere às acusações de Heard como "calúnias". Também a namorada de Depp entre 1983 e 1885, a atriz Lori Anne Wilson, se apressou a dizer que o ator é uma pessoa "calma" que não bateria em ninguém.

Entretanto, Stephen Deuters falou à TMZ para desmentir as mensagens, reforçando que as mesmas apareceram sem data e que terão sido produzidas por Heard. A filha mais velha do eterno Eduardo mãos de tesoura, Lily-Rose, publicou imediatamente uma fotografia sua em bebé com o pai, que diz ser "a pessoa mais doce e carinhosa" que conhece. Para culminar, o comediante Doug Stanhope, amigo de Depp, publicou um artigo online no "The Wrap" em que acusa Heard de estar a chantagear o ator e de ter sido manipuladora durante toda a relação.

Esforços para "descredibilizar" a atriz

A atriz já anunciou que vai processar Stanhope, tal como outras 20 pessoas que acusa de estarem a levar a cabo "esforços organizados" para a descredibilizar. Alguma imprensa já foi acusada do mesmo – um dos casos mais falados é o do "Daily Mail", que publicou no dia a seguir à audiência fotografias de uma Amber Heard sorridente após uma reunião com os seus advogados, questionando o motivo para o bom humor numa alegada vítima de violência doméstica.

Embora hashtags de apoio a Amber Heard tenham surgido durante o fim de semana (#wearewithyouamberheard foi das mais utilizadas), grande parte das redes sociais decidiu mostrar o seu apoio ao ator de 52 anos, acusando a ainda mulherde Depp de inventar as acusações de violência doméstica para conseguir uma pensão mais elevada. Um utilizador comentava: "Gostava de saber o que ela fez para o provocar. De certeza que não foi 100% culpa dela". Outro internauta pedia: "A mãe do homem que acabou de morrer, deem-lhe um desconto".

Podem salvar uma vítima ou destruí-la

Nestes casos, o alcance do problema pode tocar bem mais do que o casal de atores ou o seu círculo mais próximo – e a forma como os meios de comunicação o relatam conta muito. Para Rachel Kayrooz, fundadora da ONG Shout!Speak Out, dedicada à defesa das vítimas de violência doméstica, "a abordagem dos media à violência doméstica pode salvar uma vida ou destruí-la. Se uma vítima pede ajuda, devemos acreditar nela, ajudá-la e levá-la à polícia". "Os agressores são manipuladores e criam empatia com os seus pares chamando psicopata e outros termos degradantes à vítima", explica em declarações ao website australiano "News".

Também Rachel Skylar, cronista da "Elle", fala de um "padrão regular" neste tipo de casos: "A mulher com menos poder acusa o homem poderoso, o aparelho dele entra em ação para a descredibilizar, os media deixam o caso cair". Felizmente, diz a cronista, hoje em dia os media estão a mudar – e é "mais difícil ignorar" as alegações, mesmo que envolvam o nosso ator preferido.

Mais pessimista, o "Telegraph" concorda que a série de episódios, ainda longe de acabar, mostra "os nossos preconceitos sobre violência doméstica e a tendência a não acreditar e culpar quem denuncia o abuso". Se houve ou não abuso naquele apartamento de Los Angeles, ninguém sabe; o que importa é que as alegações sejam ouvidas sem preconceitos ou julgamentos precoces, porque estes casos podem ser exemplo para muitos outros, que acontecem de forma anónima bem perto de todos nós. E na verdade, como o jornal conclui, sobre Johnny Depp e Amber Heard "ninguém sabe o que aconteceu dentro daquelas quatro paredes. Se calhar, nunca saberemos".