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Sevilha: surpresas dos dois lados do rio

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Da margem menos badalada do Guadalquivir às delícias ocultas da capital da Andaluzia

Ficar em Triana 2 é um bom princípio. O bairro fica na margem oposta àquela onde tudo se passa, do lado de cá do Guadalquivir ou, em bom rigor, numa quasi-ilha a meio do rio, a mesma que alberga os bairros de Los Remedios, também castiço, e La Cartuja, com o seu mosteiro e os tristes resquícios do que foi a Expo-92, mitigados pelo parque temático Isla Mágica.
Terra de marinheiros e oleiros, orgulhosa dos seus azulejos e ciosa do flamenco, Triana oferece delícias como o velho elétrico 314 parado numa rotunda, a movimentada Calle Bétis — em cuja ponta norte se pode subir ao Faro de Triana e tomar cañas ou degustar tapas a ver Sevilha — ou o Callejón de la Inquisición, onde ficava a sede do Santo Ofício, palco de inomináveis torturas. Consolem-se os impressionáveis, depois de o percorrer na direção do Guadalquivir, com o simpático mercado de artes e ofícios que por ali se monta ao fim de semana. Na direção oposta, a pedonal Calle San Jacinto tem esplanadas onde se serve sumo das célebres laranjas andaluzas, outras beberagens e iguarias como a pringá.

Atravessando a ponte Isabel II, ou ponte de Triana, entra-se na Sevilha de toda la vida. A próxima paragem obrigatória é muito antes do alcázar, da catedral, das ruas das compras, do parque María Luísa, enfim, de tudo quanto não faz falta detalhar aqui. O lugar em causa fica no quarto quarteirão da Calle de los Reyes Católicos, após cruzar o rio, chama-se Rayas e é uma geladaria que já mereceu ao autor destas linhas um desvio quando a caminho de outras paragens andaluzas. Há outra na Plaza San Pedro, perto do tão discreto quanto bonito jardim de Cristo del Burgo e da estrutura mirabolante que dá pelo nome de Metropol Parasol (ver caixa).

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Comido o gelado, não faltam propostas. Se vínhamos de oeste, sigamos para norte, pela orla do rio, até ao bairro da Macarena, onde o pescaíto frito tem justa fama (não percam o cazón adobado). Para ajudar a digestão, nada como passear até à Alameda de Hércules. Para sul, passadas a praça de touros da Maestranza e o teatro homónimo, surge a elegante Torre do Ouro, de base dodecagonal, baluarte de vigia e prisão, erguida no século XIII. Visita-se por dentro e aprecia-se por fora, da margem de Triana, jantando (quiçá a dois) no elegante restaurante Abades, de frente envidraçada.

Ainda na rota meridional, a Universidade de Sevilha 3 merece uma vista de olhos. O edifício foi construído no século XVIII como fábrica de tabacos e é nele que se desenrola o romance “Carmen”, de Prosper de Mérimée, inspiração da ópera de Bizet. Tenho predileção por um baixo-relevo, na fachada, em que um índio fuma cachimbo. A tabaqueira mudou depois para Los Remedios, onde encerrou em 2007, embora ainda lá more a confraria da hermandad de las cigarreras, que usa capuzes roxos nas procissões da Semana Santa.

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Do Rayas para leste temos a Câmara Municipal, do século XVI (atente na decoração da fachada da Plaza de San Francisco, interrompida por falta de fundos), a encantadora Plaza de San Salvador com o eterno vendedor de batatas fritas, o bairro de Santa Cruz e, por fim, a última descoberta sevilhana deste escriba: La Carbonería, no nº 18 da Calle de los Levíes (judiaria, é claro). De armazém de compra e venda de carvão passou a bar e tertúlia onde há espaço para dizer poesia, cantar e bailar flamenco, expor arte e jogar gamão. Aqui, o que a garganta pede é um cálice de vinho doce Pedro Ximénez, e o espírito, nenhuma pressa.

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Cogumelos alucinantes

Chama-se Metropol Parasol 1 e soa a lengalenga infantil, mas ninguém lhe chama assim. Conhecida como Las Setas (cogumelos), devido ao formato, é uma estrutura de madeira na Plaza de la Encarnación, uma das maiores inovações urbanísticas de Sevilha nos últimos anos. Inaugurada em 2011, a obra do arquiteto alemão Jürgen Mayer, tem 26 metros de altura e 150 por 70 de superfície. Sobe-se de elevador por 3 euros e, lá em cima, um passadiço ondulante oferece belíssimas vistas de toda a cidade. Nos níveis inferiores, há esplanadas, um mercado e um restaurante. No rés-do-chão, a exposição dos achados arqueológicos mouros e romanos que as obras revelaram. O pior foi que o custo previsto de 50 milhões de euros derrapou para mais do dobro.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 junho 2016