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Futuros vigiados

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STANFORD. A universidade norte-americana recebeu alunos de todo o mundo, entre eles portugueses, com propostas para o futuro

LINDA A.CICERO/ STANFORD NEWS SERVICE

O futuro pode ser um susto. Ou pode ser um caminho para um tempo novo de onde emerge uma vida diferente. O futuro é uma equação nunca resolvida. Mesmo quando no presente se tentam construir os percursos destinados a moldar esse tempo por chegar. É sempre uma aventura sem fim à vista. Procura-se o horizonte e o horizonte é o inalcançável. Como há dias dizia no Porto o escritor chileno Luís Sepúlveda, um dos seus fascínios pela linha do horizonte resulta da impossibilidade nela projetada ao suscitar a sensação de infinito. Quando se chega, já outro horizonte desponta.

Ainda assim, há no homem um irreprimível desejo de antecipar o amanhã. À generosidade da utopia correspondem, com frequência, preocupantes manifestações distópicas, com tudo quanto representam de totalitarismo ou opressivo controlo da sociedade. Mesmo quando concebidas na ilusão de estarem a dar um contributo para inovar e melhorar o modo como vivemos o quotidiano

Na passada semana reuniram-se na muito prestigiada Universidade de Stanford, em Palo Alto, Califórnia, jovens oriundos de todo o mundo, integrados num curso centrado no conceito de “design thinking”, uma forma de utilizar a metodologia base e as principais ferramentas da disciplina do design para as aplicar a problemas por vezes complexos com recurso a várias disciplinas que se interligam e entreajudam. Na Revista E publicamos amanhã uma desenvolvida reportagem sobre muito de quanto foi vivido e experienciado naquele campus universitário, em particular pelos alunos de pós graduação do Instituto Politécnico do Porto.

Com alunos de Stanford, um grupo do Politénico do Porto desenvolveu um novo veículo de transporte

Com alunos de Stanford, um grupo do Politénico do Porto desenvolveu um novo veículo de transporte

FOTO CENTER FOR DESIGN RESEARCH/ STANFORD UNIVERSITY

Importa agora, aqui, referir outras propostas por lá apresentadas, sobretudo pelo modo como se percebe a naturalidade com que jovens de hoje aceitam e promovem o uso da tecnologia como ferramenta de controlo, seja pelo Estado, seja pelas empresas.

Não obstante a forte componente de engenharia e design associada ao curso ME310 de Stanford, viram-se por ali demasiadas soluções centradas em aplicações informáticas. Houve propostas pouco conseguidas, como um sistema de comunicação bastante limitado, capaz de proporcionar, a quem visita um país, a obtenção de algumas informações junto de locais quando há a barreira da língua. Mas impuseram-se, a dada altura, algumas propostas perturbadoras, como um robot para fazer companhia a quem está só, mesmo se não vive sozinho, ou uma aplicação e um dispositivo que aproveitam os veículos autónomos para porem o condutor a trabalhar enquanto viaja. Será uma delícia para as empresas imaginarem a possibilidade de passarem a ter um seu trabalhador a tratar dos mais diversos assuntos enquanto se desloca para um destino a três ou quatro horas de distância, porque já não tem de conduzir. Mas então não nos tinham dito que as novas tecnologias iriam libertar-nos e proporcionar-nos mais tempo livre?

Numa sociedade cada vez mais vigiada, um grupo preocupou-se com o controlo de ruídos nos escritórios, provocados, por exemplo, por conversas entre trabalhadores, ao telefone ou uns com os outros. O sistema lança avisos ou acender pequenas luzes no teto na área afetada e aponta mesmo espaços alternativos.

Larry Leiffer, um ex-engenheiro da NASA, criador do conceito de “design thinking” e o grande responsável pelo curso, dizia-nos já após todas as apresentações haver “muito trabalho que depois se revela bastante estúpido”. Cita o exemplo de uma aplicação destinada a dar aos condutores informações complementares sobre o estado da estrada ou condições climatéricas. “Esses condutores de camião querem mesmo ter um 'gadget' a dizer-lhes que está a chover? Por favor... Eles sabem que está a chover”.

A nova bicicleta apresentada pela equipa do IPP e alunos australianos

A nova bicicleta apresentada pela equipa do IPP e alunos australianos

FOTO PROTO DESIGN/FACTORY

Não há exagero ou ponta de chauvinismo em colocar as propostas nas quais estavam envolvidos portugueses entre as mais apreciadas e conseguidas, até por serem todas muito concretas e dirigidas a problemas muito reais. Pode ser o resultado de uma das opções tomadas no Porto de levar à letra o espírito do ME310, muito assente em fomentar a divergência até o limite, ao ponto de serem fomentadas todas as ideias possíveis, num permanente processo de questionamento.

Depois de um ano intenso, os alunos portugueses passaram uma última semana tormentosa em Palo Alto. Fizeram do hotel ou dos laboratórios de Stanford campo de experimentação e de apuro final de quanto industriosamente construíram ao longo de meses. Não queriam perder a oportunidade única de, em pleno coração de Silicon Valley, mostrar um valor por vezes insuspeitado, sobretudo em quem chega de um país tão pequeno e tão distante.

O curso é complexo. Os alunos atravessam um caminho doloroso e perigoso. Às vezes estilhaçam-se relações humanas. Depois recompõe-nas. Às vezes são tentados pelo desespero. A determinação provoca a continuidade. A vontade de manter o rumo. Ninguém sabe o destino. E, no entanto, todos querem sentir o momento da explosão. O instante do deflagrar de todos os sonhos. A perceção de ser aquele o local onde querem chegar. O espaço que, mesmo se parece um fim de estrada, é apenas um recomeço. Como o horizonte nunca alcançado, mas sempre procurado.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO