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Faça do sol um amigo

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Com a chegada do sol vêm as idas à praia e os encontros nas esplanadas. Mas não deixe que essa diversão se transforme em algo negativo. O sol pode ser fonte de saúde e prazer – mas há regras importantes a respeitar

Nunca é de mais recordar, no início de mais uma época balnear. A chegada do bom tempo alegra quase todos, que começam a sonhar com os dias infindáveis na praia. Mas a exposição ao sol não deve fazer-se de ânimo leve – sob pena de a sua diversão poder acabar mal.

O que mais preocupa António Picoto, médico dermatologista desde 1976 e presidente da Associação Portuguesa Contra o Cancro Cutaneo (APCC), é a "alteração dos costumes". "As pessoas passam o dia todo na praia e na piscina, escudando-se no protector solar, que acaba por ter um papel nefasto ao permitir estas exposições prolongadas. Resultado: as pessoas sentem-se bem, enquanto tomam doses gigantes de radiação UV", alerta. O médico recorda que o protetor solar não protege de tudo. Mesmo colocando "protetor solar SP +, antes de sair de casa", e reaplicando "de duas em duas horas", continua a haver sinais proibidos: "Entre as 12 e as 16 horas não deve expor-se ao sol", defende Picoto. "Aproveite e vá almoçar e fazer a sesta... Se não quer dormir, vá até ao pinhal ou ponha a correspondência em dia", sugere. O médico garante: "A sombra é o melhor protetor solar".

António Picoto lembra ainda que houve "um grande aumento de desportos ao ar livre, nomeadamente no mar, com horas esquecidas de exposição imoderada ao sol. Quem corre na rua – uma moda crescente, nos últimos anos, deve preferir os horários antes das 10h ou depois das 20h, e usar protector solar, camisolas de manga comprida, chapéu e óculos escuros". Estes desportistas apresentam frequentemente lesões no couro cabeludo, pescoço e orelhas.

Somos como uma bateria solar

Ao presidente da APCC, preocupa-o a "ideia fixa do bronze", que leva a práticas nefastas. E "há também exposição de chofre sem ser feita paulatinamente, para a pele se ir adaptando. As pessoas saem do escritório diretas para a torreira do sol, procuram férias fora do verão nos trópicos ou nas montanhas na neve, e algumas ainda frequentam os solários para acrescentar mais raios UV à “sua conta”.

Acresce que os raios UV (ultra-violeta) têm um efeito cumulativo no nosso organismo - ou seja, os escaldões que apanhámos de forma inconsciente na nossa adolescência não desapareceram do noss corpo. A Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo alerta que cerca de 80% da dose de radiação tolerada pela pele é atingida aos 18 anos... No fundo, somos como uma bateria solar – vamos acumulando energia, mas a capacidade de regeneração da pele não é ilimitada. Existem dois tipos de raios ultra-violeta: os UVA e os UVB. Os raios UVA são mais intensos antes das 10h e depois das 16h, e penetram profundamente na epiderme. Esta radiação provoca o envelhecimento da pele, rugas, perda de elasticidade e manchas - e melanoma, o tipo de cancro que atinge a camada mais profunda da pele. A radiação UVB é predominante das 10h às 16h, e é mais intensa no verão. Atinge a pele mais à superfície, causando queimadura e vermelhidão. É responsável pelas lesões pré-cancro e por cancro de pele que não sejam melanomas (carcinomas, nomeadamente).

Em Portugal, a taxa de cancro de pele era de 246 por cada 100.000 habitantes em 2014. Por isso mesmo, o médico dermatologista António Picoto aconselha a que, "uma vez por mês, as pessoas façam um auto-exame. Pesquisem se apareceram sinais novos ou se houve alterações nos antigos. Os riscos são maiores para pessoas de fototipo baixo, ou seja, pessoas de pele muito branca que nunca bronzeiam, ou bronzeiam pouco, com cabelos loiros ou ruivos, com história de cancro de pele nelas ou na família, ou que tenham feito transplantes de órgãos". Vá de férias, mas com consciência. O sol pode ser seu amigo.

Com a chegada do sol, as praias enchem-se - mas não se esqueça: o chapéu de sol não basta para se proteger. Evite o horário das 12h às 16h, e não saia de casa sem protector solar (renovado várias vezes ao dia).

Com a chegada do sol, as praias enchem-se - mas não se esqueça: o chapéu de sol não basta para se proteger. Evite o horário das 12h às 16h, e não saia de casa sem protector solar (renovado várias vezes ao dia).

Dez conselhos úteis para aproveitar o sol

  • Apanhe sol de forma progressiva, iniciando com poucas horas de exposição solar

  • Evite o "horário vermelho": das 12h às 16h, não se exponha ao sol

  • Antes de sair de casa, todos os dias do ano, aplique protector solar – e repita de duas em duas horas.

  • Não apanhe escaldões. A pele tem "memória", e vai acumulando os estragos que vamos fazendo. A nossa capacidade de reparação do ADN não é ilimitada.

  • Não faça solário - a Austrália e o Brasil já proibirem os solários, que consideraram potencialmente cancerígenos para o olho e a pele.

  • Beba água - é importante manter-se hidratado.

  • Uma vez por mês, faça um auto-exame. Vigie sinais novos, ou eventuais alterações nos antigos. Todos os anos, há rastreios gratuitos.

  • Se faz jogging habitualmente, caminhadas ou jardinagem, use um chapéu e camisola de mangas compridas. Prefira os horários antes das 10h, ou depois das 20h.

  • Nunca adormeça ao sol

  • Uma T-shirt molhada pode não proteger do sol. Proteja as crianças com uma camisola escura e um chapéu.

  • Se o seu fototipo é baixo (pele muito branca, cabelo loiro ou ruivo, olhos claros), deve ter cuidados redobrados.