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Depois do cancro, a esperança num filho

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Ana Baião

Clínica oferece tratamento para preservar fertilidade de doentes oncológicos. Procura no Serviço Nacional de Saúde vai aumentar

A mama de Raquel deformou-se devido a um nódulo que crescera rápido demais e o exame confirmou as piores expectativas: cancro. Sexta-feira estava nos Açores, o fim de semana já foi em Lisboa e a segunda amanheceu numa consulta de oncologia. Tema da conversa: a gravidade da doença. Três dias depois, nova consulta, desta vez a pensar no futuro: numa clínica privada para preservar a possibilidade de vir a ser mãe. Os tratamentos oncológicos podem causar infertilidade e Raquel, 33 anos, decidiu apostar na esperança.

Em 2015, no Serviço Nacional de Saúde (SNS), 339 pessoas com doença oncológica recorreram à preservação do potencial reprodutivo — ovócitos e espermatozoides — a maioria homens (245), segundo dados inéditos do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida. Teresa Almeida Santos, diretora do Serviço de Reprodução Humana do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, explica que a discrepância acontece porque “nas mulheres não é apenas o tratamento do cancro que está em causa mas também o passar do tempo” porque, “com o tempo, a fertilidade diminui”.

Responsabilidade social

Na clínica privada IVI, entre janeiro e o fim de maio deste ano, foram atendidas 12 pessoas com cancro à procura da preservação da fertilidade, a maior parte mulheres. Os tratamentos foram gratuitos e fazem parte de uma iniciativa de responsabilidade social que marca os dez anos da IVI em Portugal. A ideia surgiu na sequência de outras iniciativas internacionais e o orçamento disponibilizado está calculado em 60 a 75 mil euros por ano, mas a porta-voz da IVI garante que se houver mais casais “serão atendidos”.

A clínica diz que os únicos custos para os doentes são relativos à medicação. E as exigências da IVI resumem-se à existência de um relatório com diagnóstico oncológico. “Não interessa o estado civil das pessoas, nem há listas de espera ou critérios etários envolvidos”, explica Tatiana Semenova, médica responsável pelo projeto.

A especialista explica que o próprio ato de preservação do potencial reprodutivo dos doentes oncológicos tem especificidades que têm de ser acauteladas. O tratamento demora cerca de duas semanas e tem de aproveitar a janela de oportunidade antes do início de eventuais sessões de quimio ou radioterapia.

No caso dos homens, basta recolher os espermatozoides. No caso da maior parte das mulheres é necessário realizar primeiro uma estimulação dos ovários, que segue, como explica Tatiana Semenova, protocolos específicos para doentes com cancro, “de forma a não permitir que os níveis hormonais subam além do ciclo natural da pessoas”. E, depois de 12 dias de controlos ecográficos a cada três dias, os ovócitos são aspirados e criopreservados por um período inicial de cinco anos.

“Foi tudo muito rápido e no início, a prioridade é a doença porque a grande preocupação é a própria saúde. Na verdade, quando recebi o diagnóstico, até senti um enorme alívio por não ter filhos”, explica Raquel Leite, 33 anos, cancro na mama, e uma das 12 pessoas preservou os ovócitos na IVI.

Não há dúvidas de que nestes casos, o tempo é o fator determinante. Conclusão sublinhada por Nuno Miranda, responsável pelo Plano Nacional de Prevenção das Doenças Oncológicas: “Os prazos são muito curtos e a decisão de avançar com a preservação de fertilidade tem de ser tomada rapidamente”. Diretor clínico do Instituto Português de Oncologia explica ainda que “o SNS tem sido capaz de atender os pedidos feitos, mas a dimensão do problema vai aumentar”.

Planos na gaveta

Fábio e Bárbara foram tratados no SNS e há 13 meses que se maravilham com Lourenço. Não foi fácil. Tudo começou na adolescência de Fábio, a quem foi identificado um tumor ósseo. O aviso de um tio médico permitiu a preservação dos espermatozoides do rapaz que, anos mais tarde, encontrou em Bárbara o motivo para ir buscá-los em nome do sonho da paternidade. Foram precisas três ensaios até Lourenço nascer. Ainda há quatro tubos com gâmetas de Fábio guardados no Hospital de Santa Maria, à espera de nova tentativa. Mas Bárbara, 34 anos, sabe que terá de recorrer ao privado, já que “o sistema público dá prioridade aos casais que ainda não tenham filhos”.

Raquel está longe de uma decisão. Depois do diagnóstico, pensa num horizonte de cinco anos de vida, “o resto é uma incógnita”. Os filhos, já sabe, estão adiados até que a doença esteja controlada, o que vai demorar pelo menos dois anos. “Agora que tirei os óvulos, arrumei o assunto da maternidade na gaveta”, encerra.