Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A Nokia está de volta! E...?

  • 333

REGRESSO. Em 2014 estes foram os primeiros Nokia com Android. A experiência não correu bem. Será desta?

d.r.

A marca regressa com o consentimento da empresa responsável pelo seu desaparecimento. A vida dá, realmente, muitas voltas. Mas a ressuscitação da Nokia tem muito pouco de excitante e não vai trazer nada de particularmente novo ao mercado

O homem que segurou o leme da maior empresa de software do mundo durante 25 anos tinha um grande problema para resolver: por mais que tentasse, os utilizadores não queriam saber do Windows Phone. Aliás, não eram só os consumidores. O sistema operativo que a Microsoft tinha evoluído para o mundo dos smartphones tinha causado dissabores aos maiores fabricantes globais de dispositivos. Samsung, LG e HTC, por exemplo, ficaram com alguns milhares de terminais nas mãos. Os utilizadores preferiam (preferem) o iPhone e os muitos Android que começavam a inundar as lojas.

A Microsoft dominava o universo dos computadores, mas nos telefones Steve Ballmer falhava. Redondamente. O que fazer? Começar do zero? Não. Ballmer viu na Nokia um atalho. Afinal, a maior empresa finlandesa já estava “infiltrada”. Stephen Elop tinha saído da Microsoft para a Nokia para ser o primeiro não finlandês a assumir a cadeira de CEO. Ele e Ballmer seriam amigos e, alegadamente, com a sua chegada à Nokia foram abandonados os planos que existiam na empresa para aderir ao Android – na verdade, a Nokia chegou a fazer três telefones com Android, mas a personalização foi tão proprietária que o sistema da Google estava irreconhecível e era de péssima utilização. O que teria sido do Mobile se a Nokia tivesse, naquela altura, feito uma parceria com a Google? O mercado da mobilidade seria hoje, de certeza, muito diferente.

Mas não foi isso que aconteceu. Em quatro anos (de 2010 a 2014) Elop foi direcionando a Nokia no sentido da Microsoft. Tudo culminou quando, em 2014, Ballmer deu 7200 milhões de dólares pela unidade de dispositivos móveis da Nokia. Com isso, matou aquele que foi o maior fabricante de telemóveis do mundo. Uma empresa centenária que despediu milhares e fechou fábricas. Elop voltou à Microsoft. Afinal, a missão estava cumprida. A Nokia ia para o Windows e virava as costas ao Android.

Elop apostou forte no segmento e a Microsoft entrou com tudo. Os smartphones Lumia tiveram direito a campanhas massivas de marketing um pouco por todo o mundo. O portefólio cresceu e existiam terminais para todos os segmentos. Dinheiro e mais dinheiro despejado em cima da Divisão de Dispositivo Móveis. Não resultou. Dois anos depois de ter entrado pela porta grande, Elop saiu pela porta pequena. Já sem Ballmer (substituído por Satya Nadella) e com a Microsoft a baixar dos dois dígitos na quota de mercado mundial de telefones.

Na Finlândia, a Nokia não baixava os braços. A empresa direcionou-se apenas para a área das infraestruturas e fez negócio. Mas não se ficou por aí. O mês passado foi anunciado que a marca “Nokia” vai voltar ao mercado pelas mãos de uma empresa finlandesa (HMD Global) em parceria com uma nova subsidiária da chinesa Foxconn (a empresa que fabrica o iPhone e mais uns milhares de diferentes dispositivos) e, claro, com a participação da Nokia Technologies. A ideia é que lancem uma nova gama de dispositivos que engloba smartphones e tablets.

O mais caricato? Foi a Microsoft que vendeu a esta nova empresa a sua unidade de telemóveis – os terminais que não são “smart” e que não usam o sistema Windows 10. Ou seja, a marca Nokia volta, com o consentimento da empresa responsável pelo seu desaparecimento. A vida dá, realmente, muitas voltas.

O mundo da mobilidade mudou muito em dois anos

É verdade que o brand awereness da Nokia ainda é muito forte em alguns países. Em Portugal, por exemplo, os telefones com a marca Microsoft (que herdam o design da Nokia) têm uma quota acima dos 10%. Mas o mercado mundial mudou muito desde a altura em que o fabricante finlandês lançou o Nokia X – o tal telefone Android que não correu nada bem.

Hoje, a fragmentação é ainda maior. A entrada esmagadora de fabricantes chineses, acompanhada por uma multiplicação de empresas locais especializadas em montagem (em muitos países há marcas nacionais de telefones móveis), provocaram uma saturação do mercado. Na Europa e nos EUA a taxa de penetração de smartphones está acima dos 50%. O crescimento, para os fabricantes, está nos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). No entanto, a estratégia para esse crescimento também mudou.

Os maiores fabricantes de smartphones começaram por ter dispositivos de baixo preço para esses mercados, mas desistiram. A concorrência local (nesses países) e a “invasão chinesa” provaram, rapidamente, que seria um grande desafio conseguir ganhar volumes de vendas suficientes que justificassem a presença de um portefólio de baixo preço. Assim, a Samsung, a Sony e, por exemplo, a HTC decidiram abandonar quase por completo os segmentos de baixo preço. E, como já expliquei, a própria Microsoft também deixou o segmento com a venda à HMD Global dessa unidade de negócio.

Assim, quais são os trunfos que esta joint venture tem para apresentar? Três. Um já referido. O brand awereness da Nokia, tal como em Portugal, é muito forte nestes mercados em desenvolvimento. Os outros dois motivos têm a ver com o parceiro chinês. A Foxconn conhece muito bem o mercado dos telemóveis (afinal, fabrica-os para terceiros) e essa será uma vantagem para conseguir ganhar quota rapidamente. E, o último trunfo, é a capacidade de construção desta empresa. A Foxconn tem fábricas e pessoal qualificado para conseguir, rapidamente, produzir em quantidade e com qualidade. Muita qualidade. Por isso, vamos ver a Nokia crescer rapidamente nesses ambientes com telefones baratos onde o design e a qualidade de construção não vão ser prioridade.

Nos smartphones, a conversa será diferente. Afinal, que tipo de personalização vai ser feita do Android? Aliás, que versão será utilizada? (a mais recente?) O que terá esta Nokia de pertinente que a faça ganhar um lugar entre as centenas de players do mercado?

Nos mercados mais maduros, esta “nova” marca não terá grande hipótese de singrar. O espaço está tomado principalmente pela Apple e pela Samsung. Mesmo nos emergentes a missão não é impossível. Mas quase. Combater com a Xiaomi não vai ser fácil. A única vantagem da “nova Nokia” é ambicionar que os milhões de utilizadores que comprem um telemóvel Nokia venham, mais tarde, a evoluir para um smartphone da mesma marca. Mas isso foi o que pensaram, também, a Samsung e outros. E estavam errados.

Por isso, a ressuscitação da Nokia tem muito pouco de excitante e não vai trazer nada de particularmente novo ao mercado. É, apenas, mais um player que tem, como única benesse, o nome herdado.