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Sociedade

O programa para licenciados descontentes

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Orlando Neves conseguiu trocar as análises clínicas pelo mundo da programação

Rui Duarte Silva

Quarta edição do Acertar o Rumo procura talentos informáticos. Os primeiros a concluir ficaram todos empregados

Aos 32 anos de idade e nove de profissão, a estabilidade tardava. A incerteza sobre se iria arranjar emprego repetia-se de ano para ano. E o sonho de dar aulas acabou por se aproximar mais de um pesadelo quando Márcia Seabra, licenciada em Matemática, se viu sem trabalho. “Trabalhei em várias escolas. Em cada ano era colocada numa diferente, por vezes em mais do que uma no mesmo ano. Mas foi quando fiquei desempregada durante um ano inteiro que percebi que não teria futuro nessa profissão. Foi isso que me levou a concluir que tinha de seguir outro rumo”, recorda.

E foi precisamente para dar resposta a licenciados no desemprego ou insatisfeitos com a sua vida profissional que a IT Grow — a academia de formação da Critical Software e do BPI — e a Universidade de Coimbra (UC) criaram o programa Acertar o Rumo. Numa parceria em que todos podem sair vencedores, os candidatos concorrem a um ano de formação intensiva no Departamento de Engenharia Informática da UC, seguido de um estágio remunerado (mínimo de 750 euros por mês) numa das cerca de 20 empresas associadas.

A hipótese de emprego é muito elevada — após o final da 1ª edição, a única que está integralmente concluída, todos os formandos conseguiram um contrato no local onde estagiaram —, e as companhias garantem os trabalhadores qualificados de que necessitam. Além das empresas fundadoras, das associadas fazem parte Novabase, Accenture, Visabeira e Bettertech, entre outras.

As candidaturas à 4ª edição do Acertar o Rumo abriram este mês e prolongam-se até 15 de julho. É preciso ter uma licenciatura, dominar o inglês, pelo menos, ter gosto pelas tecnologias de informação e queda para o raciocínio lógico e a matemática, competências que são testadas nas várias fases de seleção. Mas não é obrigatório ter um curso na área das ciências.

“No meu ano havia uma pessoa com o curso de Comunicação Social e outra de Arquitetura. Se tiverem gosto e uma capacidade inata para estas áreas, conseguem ultrapassar as dificuldades. Lembro-me de que ambos tiveram excelentes resultados e continuam a trabalhar”, conta Orlando Neves, outro dos ‘alunos’ que participou na 1ª edição deste programa de requalificação profissional. “Comecei precisamente no dia em que completei 31 anos.”

Mas a mudança de rumo iniciara-se antes, quando já era bem claro para o licenciado em Análises Clínicas e Saúde Pública que a indústria das tecnologias de informação lhe dava “muito mais prazer e perspetivas de futuro”. “Quando terminei a licenciatura, o mercado de trabalho na área das análises clínicas (e da saúde, em geral) encontrava-se muito saturado. Trabalhei no retalho durante alguns meses, depois em diferentes laboratórios de análises clínicas, em part-time e sempre com condições muito precárias.”

Para ocupar as horas livres e “complementar o parco salário” de analista clínico, Orlando Neves foi desenvolvendo aplicações web e reforçando o interesse pela programação. A candidatura ao programa Acertar o Rumo acabou por ser uma opção fácil. “Foi uma aposta ganha”, diz. Hoje trabalha nos escritórios do Porto da IT Grow/Critical Software e ajuda a desenvolver um projeto na área da banca. “Estamos a desenvolver um software de gestão administrativa e de balcões para um banco angolano. Há 30 pessoas a trabalhar no projeto. Já escrevemos um milhão de linhas de código”, descreve com notório entusiasmo.

Muitos candidatos, poucas vagas

Também Márcia Seabra não pensa regressar ao seu passado profissional. O ensino ficou para trás, e na Critical Software, onde ficou a trabalhar, tem-se dedicado a desenvolver um sistema de informação e suporte a operações marítimas. “Está a ser usado pela Marinha Portuguesa, nomeadamente nas operações de busca e salvamento”, descreve. “Tal como a maioria dos meus colegas, não sabia quase nada de programação antes de iniciar o curso.

Tinha tido apenas contacto com uma linguagem de programação durante a minha licenciatura. Foi tudo novo para mim, mas rapidamente percebi que tinha aptidão para programar.” Márcia acabou por ser a melhor do curso, o que lhe valeu o reembolso das propinas.

Ainda em fase de estágio (entrou na 2ª edição do Acertar o Rumo), Nuno Ferreira, 31 anos, mestre em Física Nuclear e de Partículas, procurava igualmente uma alternativa ao trabalho que tinha então — “excessivamente rotineiro” — e um curso que lhe abrisse a “porta para um mundo no qual a procura de trabalhadores qualificados é abundante”. A formação é exigente, admite. “Aprender todos os conceitos e pô-los em prática em dez meses não é fácil. Mas com a motivação certa é possível.”

Mas não menos exigente é o processo de candidatura em curso (através do site do programa). As três edições passadas contaram com 700 candidatos, mas apenas 65 formandos foram selecionados. A turma da próxima edição terá um máximo de 25 alunos.