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“O normal é que quando a mãe morre a criança também morra”

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antónio pedro ferreira

Foi o caso da semana: o bebé que nasceu da mãe em morte cerebral. Ela tinha 37 anos quando uma hemorragia ditou-lhe o fim, mas o feto cresceu na Unidade de Cuidados Neurocríticos do Hospital de São José durante mais 17 semanas, até ser feita a cesariana. Um caso raro na Medicina mundial, já motivo de congratulação pelo Presidente da República. Susana Afonso, uma das médicas que participaram na “missão de salvamento”, explica em entrevista ao Expresso como foi lidar com uma situação inédita, como profissional e como mãe. Aqui fica a versão integral da conversa

Acompanhou ao longo de quadro meses o crescimento da barriga de uma grávida que estava morta. Fez parte da equipa de cerca de dez pessoas que, no Hospital de S. José, tornou possível que daquela surpreendente barriga surgisse um bebé, já chamado de milagre. Uma criança que começou por ser um feto de 17 semanas e acabou como um recém-nascido às 32 semanas, tornando-se um caso de estudo da medicina internacional.

Susana Afonso conta como foi partir da dúvida para alcançar a esperança, inesperada de um filho que não parou de crescer, apesar da morte cerebral da mãe.

Qual foi o primeiro contacto com este caso?
Esta senhora veio para o serviço de urgência, transferida de outro hospital, com uma situação neurológica grave, fruto de uma hemorragia cerebral. Precisava de ser avaliada pela neurocirurgia. Foi pedida a vaga para a unidade e entrou em coma, foram feitas as provas e declarada a morte cerebral. Eu estava cá quando ela chegou.

É inusual aparecer uma grávida nesta situação?
Ainda bem que não é comum, mas não foi a primeira vez que tivemos uma grávida na unidade, embora tenha sido a primeira em morte cerebral.

O que foi então definido pela equipa?
Em paralelo com o diagnóstico da morte cerebral houve um diálogo com a família. Ela estava bem e deixou de estar e por isso foi preciso preparar a família e fiz parte desta equipa que explicou a gravidade da situação.

Como se explica à família que uma mulher de 37 anos, grávida, estava em morte cerebral?
Nos Cuidados Intensivos, trabalhamos em situações-limite e dar más notícias faz parte da nossa profissão, infelizmente. Tentamos ser o mais sinceros possível.

Logo na primeira abordagem falavam da possibilidade de salvar o feto?
Não, primeiro damos a má notícia. Tem de ser uma informação curta porque a família não consegue gerir muita informação ao mesmo tempo.

E depois?
Há a evidência de que a criança estava bem. O normal é que quando a mãe morre, a criança também morra. Surgiu um problema, uma situação que era preciso resolver e informamos a administração. Precisávamos saber como resolver a situação. Foi convocada uma Comissão de Ética no hospital, no espaço de um ou dois dias. E decidiu: mantenha-se essa gravidez.

A Comissão de Ética decidiu em reação de um pedido da família para salvar a criança?
Não. A criança foi considerada pela comissão uma entidade jurídica independente. A família foi chamada e envolvida e a manifestação de vontade deles foi obtida ao longo do percurso. Era fundamental que a decisão fosse consensual. O que não aconteceu foi colocar todo o peso sobre os ombros da família, que sempre se mostrou compreensiva, apesar da grande ansiedade.

A decisão da comissão foi uma resposta a um pedido da equipa médica?
Não. Nós relatamos uma situação e foi-nos dito, façam assim. Não temos nada a ver com a decisão, independentemente de abraçarmos este desafio da forma mais profissional possível, que foi o que toda a equipa fez.

Porque a comissão decidiu assim?
Tem de perguntar à comissão. Mas por que não? É obviamente controverso. É muito pouco tempo 17 semanas e parecia pouco possível que o feto fosse viável. Parecia ousado da nossa parte pensar que era possível. Eu própria tive dúvidas no início.

Todos na equipa concordaram com a decisão tomada pela comissão?
As pessoas têm direito a ter as suas opiniões, mas entre todos, desde os auxiliares aos médicos não houve discordâncias. Pelo menos manifestas.

O que torna este caso ímpar?
A morte materna foi muito cedo, a gravidez tinha apenas 15 semanas.

Como a equipa viveu este caso?
Cada um à sua maneira. Os enfermeiros foram incansáveis. Fizeram massagens na barriga da mãe. Cantavam para o bebé, faziam o que uma mãe faz com o bebé que deseja. É impossível não criar uma ligação emotiva. Não foi uma diretiva médica, mas observávamos quando acontecia. Logo de manhã, quando chegávamos diziam: o bebé está ótimo!

Quando substituiu o ceticismo pela esperança?
Quando a obstetrícia vem fazer a ecografia das 24 semanas e nos diz que está tudo bem. Ficamos radiantes.

Contaram os dedos do bebé?
Sim! E às 28 semanas foi feita uma ressonância magnética que não indicou alterações. Foram alegrias, aliás, era para isso que trabalhávamos.

Quando saía do hospital, ligava para saber o desenvolvimento?
Não. Quando saio daqui as minhas prioridades têm obrigatoriamente de mudar, caso contrário, algo estaria errado.

O que essa caso lhe ensinou? Como médica e como mãe?
Como médica abriu-me os horizontes, mostrou que era possível. Como mãe, mostrou que todas as crianças têm direito a uma mãe e que não a tendo, não é a situação ideal, mas é possível. Ajudou-me a colocar as coisas em perspetiva. Pensei muito sobre o assunto.

Não se arrependeu, portanto?
Não! Ainda é cedo, porque a criança tem pouco tempo de vida e está a passar por exames habituais num prematuro.

Assistiu à cesariana?
Não. Saí de manhã, depois do banco. Mas liguei logo a perguntar se o bebé tinha chorado. E tinha!

O que sentiu?
Fiquei muito contente.

Foi ver o bebé à maternidade?
Não, só o vi por fotografias.

Encerrou este caso?
Não, nada. Desejo tudo de bom à criança e à família, mas há uma vertente profissional que não posso esquecer e que acabou quando esta criança nasceu. Espero que deem a essa criança tudo o que ela precisa. Vou acompanhar o caso com o distanciamento que acho que devo ter.

Nunca se sentiu um pouco mãe dessa criança?
Nunca. Não, sou mãe dos meus filhos. E pronto.

MÉDICA E MÃE

O primeiro impacto é a juventude dos 40 anos. E o ar cansado, natural em quem está de banco numa unidade com 22 camas ocupadas por doentes em situação limite. Começou pela Medicina Interna e foi no estágio obrigatório em Cuidados Intensivos que descobriu a força dos doentes críticos. Ficou agarrada. A unidade de Neurocríticos não foi uma escolha, mas fruto da reestruturação dos serviços, há quatro anos. Do seu dia a dia fazem parte doentes com problemas neurológicos e que necessitem de suporte de vida. Quando sai do hospital tenta apenas ser mãe. Tenta.

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