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A arte que a corrupção lavou (e que agora pode ser vista por todos)

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No país dos escândalos financeiros – o Brasil –, uma exposição mostra a quem quiser ver as centenas de obras de arte resgatadas aos processos de lavagem de dinheiro. O caso Lava-Jato é um dos principais contribuintes

Até 24 de ulho, em Curitiba, no Brasil, o Museu Oscar Niemeyer (MON) acolhe a exposição "Obras sob a guarda do MON", uma seleção das 270 obras de arte que a Justiça Federal pôs à sua guarda para abrigar os valores artísticos apreendidos na Operação Lava-Jato.

Este processo judicial anticorrupção, iniciado em março de 2014, conta com um espólio invejável de obras de arte. Não é todos os dias que se podem ver quadros de Miró ou de Picasso, de Dalí ou de Vik Muniz num mesmo lugar – e foi a pensar no bem público que a justiça brasileira concedeu a guarda temporária a este museu, que exibiu 48 telas de abril a novembro do ano passado, e que agora reabre com uma nova mostra de 26 obras.

Este quadro de Di Cavalcanti é uma das obras de arte resgatadas pela polícia federal no processo Lava-Jato. Agora, pode ser visto por todos no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.

Este quadro de Di Cavalcanti é uma das obras de arte resgatadas pela polícia federal no processo Lava-Jato. Agora, pode ser visto por todos no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.

Marcello Kawase

A operação Lava-Jato trouxe à luz do dia uma realidade já conhecida: a da lavagem de dinheiro através do comércio de obras de arte. Para lá das contas bancárias, dos automóveis de luxo ou dos sinais exteriores de riqueza, como barcos ou joias, os investigadores estão agora mais atentos àquilo que os suspeitos têm colocado nas paredes das suas casas.

Renato Duque, o ex-diretor da petrolífera do Estado, a Petrobrás, foi um dos principais contribuintes para esta mostra. Escondia, por trás de um armário que se abria por controlo remoto, uma vasta coleção privada de arte, comprada para lavar dinheiro.

Não é todos os dias que se podem apreciar, numa mesma exposição, obras de arte de autores como Picasso, Miró, Dalí ou Vik Muniz.

Não é todos os dias que se podem apreciar, numa mesma exposição, obras de arte de autores como Picasso, Miró, Dalí ou Vik Muniz.

Polícia Federal -Curitiba

O maior processo de corrupção do Brasil trouxe para os holofotes a questão da arte como processo crescente de lavagem de dinheiro entre as organizações criminosas. O juiz desembargador Fausto Martin de Sanctis publicou em 2013 o livro "Lavagem de Dinheiro por meio de Obras de Arte", em que fala desse mercado específico, dos modos de pagamento e da cooperação internacional necessária para combater e prevenir estes sistemas. Entre os motivos mais tentadores para o negócio, figuram a facilidade de transporte, o desconhecimento do valor das obras de arte, e a ainda escassa vigilância sobre essas transações.

Sanctis foi o juiz desembargador num dos primeiros casos de lavagem de dinheiro com obras de arte. Em 2006, o diretor do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira – entretanto condenado a 21 anos de cadeia –, tinha na sua mansão uma das maiores coleções privadas de arte no Brasil – mais de 2000 peças, de artistas contemporâneos como Damien Hirst até arte medieval, no valor aproximado de 26 milhões de euros. Até os azulejos da piscina eram de um artista, o pintor modernista Volpi!

As galerias de arte passaram, também, a estar mais alerta para compras pagas em dinheiro vivo, e a colaborar mais com as autoridades, mesmo quando estão em causa doações chorudas de coleções aos museus e instituições. O segredo já não pode ser a alma do negócio. Na mesma altura em que a sala 7 do Museu Oscar Niemeyer mostra ao público o produto da corrupção privada, em São Paulo a galeria Portes Vilaseca inaugura uma exposição intitulada "O Salão dos Corruptos" (o nome diz tudo). Aqui, o artista Gabriel Giucci retrata 16 dos envolvidos no processo Lava-Jato, de José Dirceu a Paulo Roberto Costa ou Dalton Avincini. Três dos quadros já foram vendidos. Uma forma de lembrar, pela arte, que a corrupção também se faz por esse meio.

José Dirceu, condenado este ano a 23 anos de cadeia por corrupção, na Operação Lava-Jato, é um dos retratados na exposição "O Salão dos Corruptos", na galeria Portes Vilaseca, em S. Paulo.

José Dirceu, condenado este ano a 23 anos de cadeia por corrupção, na Operação Lava-Jato, é um dos retratados na exposição "O Salão dos Corruptos", na galeria Portes Vilaseca, em S. Paulo.

Fabio Rodrigues Pozzebom Agência Brasil