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Em Almaraz é maior o medo do desemprego que o de um desastre nuclear

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A mais velha central nuclear espanhola em funcionamento tem dois reatores que são refrigerados pelas águas do Tejo, depois arrefecidas na represa de Arrocampo e devolvidas ao rio. Angel, dono de um bar na aldeia (foto abaixo) nasceu em Almaraz há 51 anos e diz “dormir tranquilo” com a central ao fim da rua. Patrícia, dona de casa, e o marido Javier, trabalhador nas recargas nucleares, sublinham os benefícios fiscais de ali viver, entre os quais não pagar IMI, taxa de recolha de lixo ou imposto automóvel. Confiam que se houver um acidente serão avisados em devido tempo

tiago miranda

O Expresso esteve em Almaraz e faz um retrato da gente que diz ali dormir tranquila com o perigo de viver ao pé de uma central que já devia ter fechado. O maior medo é o de ficar sem trabalho.

Carla Tomás

Carla Tomás

Texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotos e vídeo

Fotojornalista

João Roberto

João Roberto

grafismo animado

Motion designer

A cinco horas de carro de Lisboa e a menos de duas da fronteira portuguesa, entrando por Castelo Branco, existe uma aldeia chamada Almaraz. Está localizada na província de Cáceres, na Estremadura espanhola, e o seu principal motor económico é uma central nuclear com 35 anos de vida e classificada como “uma bomba-relógio” por ambientalistas e ativistas portugueses e espanhóis.

O Expresso visitou este pueblo de 1600 habitantes em vésperas da manifestação antinuclear luso-espanhola, marcada para este sábado, em Cáceres. O objetivo da concentração é pressionar o Governo de Madrid a fechar a mais velha central nuclear ainda em funcionamento em Espanha, dada a sua “cultura de insegurança”.

“Não se critica quem nos dá de comer”

A maioria das pessoas que vivem em Almaraz teme mais o desemprego do que o risco de um acidente nuclear (ver vídeo) e até agradece que ali coloquem mais reatores. Dormem bem com o perigo e sublinham os benefícios que a central traz para o “ayuntamiento” em subsídios e impostos diretos e indiretos que chegam a €2 milhões anuais.

Quase toda a gente tem um familiar, um amigo ou um vizinho que trabalha na central a tempo inteiro ou de 18 em 18 meses, quando há recargas de combustível nuclear. Mas a taxa de desemprego neste pueblo e nos vizinhos anda nos 22%, equivalente à da região estremenha e sete pontos abaixo da espanhola.

A direção da Central Nuclear de Almaraz − detida pela Endesa, Iberdrola e GasNatural Fenosa − argumenta no memorando enviado ao Expresso que contribui com “mais de 45 milhões de euros para a economia dos municípios em redor”, somando salários, impostos diretos e indiretos e acordos de colaboração com entidades públicas e privadas. E sublinha que “um eventual encerramento da unidade teria um impacto negativo superior a 91 milhões de euros, criando um problema socioeconómico não só para a região, como para a economia ibérica”.

Contudo, não esclarece qual será o impacto de um eventual acidente nuclear para a região e para Portugal, nem que projetos alternativos estão a ser equacionados para a zona quando a central for encerrada − seja em 2021-23, quando os dois reatores completarem 40 anos de funcionamento, ou em 2041-43, se virem atendida a pretensão anunciada de estender a atividade até aos 60 anos de vida.

“€1 milhão de lucro diário”

Alerta. O físico nuclear e ativista antinuclear Francisco Castejón crítica a “cultura de insegurança” desta central

Alerta. O físico nuclear e ativista antinuclear Francisco Castejón crítica a “cultura de insegurança” desta central

tiago miranda

Porém, “os benefícios desta central nuclear para os municípios da região são uma ínfima parte dos benefícios que recebe a própria central e que equivalem a um milhão de euros diários”, aponta ao Expresso o físico nuclear Francisco Castejón (ver edição em papel esta sexta-feira).

O investigador do Centro de Investigação Energética, do Ambiente e Tecnologia (CIEMAT) de Madrid, e também membro do Movimento Ibérico Antinuclear, esclarece que “o território em redor da central, recebe uma fatia do que a entidade nacional para as zonas radioativas dá às zonas onde se localizam centrais nucleares ou depósitos de resíduos radioativos”. Mas critica a gestão feita dessas verbas: “Esse dinheiro é nitidamente mal gasto a asfaltar ruas e a pagar festas e salários altíssimos e serve simplesmente para comprar a população.”

A pensar no encerramento da Central de Almaraz, a Junta da Estremadura “está a começar a fazer um levantamento dos impactos económicos do fecho da central nuclear e, para já, sabemos que após o encerramento haverá 15 anos de desmantelamento que darão emprego a muita gente”, adianta José Manson, do grupo ecologista ADENEX.

A data de fecho da central nuclear dependerá sobretudo de quem ganhar as eleições legislativas espanholas de 26 de junho, já que como os próprios ativistas constatam, “a energia nuclear está invadida pela política”.

Falta de segurança

No início deste ano, inspetores do Conselho de Segurança Nuclear espanhol alertaram para problemas se segurança no sistema de refrigeração dos dois reatores. Contudo, a direção desta entidade reguladora atestou “a segurança e a qualidade de funcionamento da central”. E é com base nessa declaração que a empresa mantém a decisão de submeter a extensão da licença até aos 60 anos. Também alega “o investimento contínuo que tem sido feito em termos de qualidade e segurança” e a construção de um novo “Armazém Temporário Individualizado” (ATI) para armazenamento de resíduos nucleares numa plataforma com características antissísmicas, projetado para 2017.

É que os dois ATI atuais não têm estrutura antissísmica, como já alertara a associação ambientalista Greenpeace e o Movimento Ibérico Antinuclear, sublinhando que esta central nuclear “não possui medidas de gestão de acidentes eficazes de modo a garantir a contenção total da radioatividade em caso de acidente grave, não tem sistemas de ventilação com filtro e possui um design débil, que torna a central vulnerável a fatores de risco externos, sejam eles acidentais ou premeditados”.

Ver mais no semanário Expresso desta sexta-feira