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Do bidonville ao poder

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Enorme. Champigny-sur-Marne era o maior bairro de lata em França. Mais de 15 mil pessoas viviam em 45 hectares, sem luz, sem água, sem esgotos

antonio pedro ferreira

Chegaram com nada, trabalharam para fugir à miséria do maior bairro de lata francês e hoje são empresários de sucesso em França. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa vão estar com eles em Paris esta sexta-feira para assinalar o 10 de Junho. Rostos de um Portugal que deu certo

Construíram a pulso grandes fortunas e empresas e, nas regiões onde estão instalados, dominam mesmo os colegas franceses no seu ramo de negócios. Almoçam e jantam regularmente com as mais altas autoridades francesas – prefeitos, presidentes de regiões ou de câmaras, deputados e ministros. Têm em comum serem ricos, viverem em palacetes, possuírem barcos de lazer e conjuntos únicos, inacreditáveis, de dezenas de carros de coleção. E também o facto de terem sido emigrantes pobres e de terem começado a trabalhar quando ainda eram crianças. Muitos viveram nos anos 1960/70 no gigantesco bairro de lata português de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, que ficou para a história como o maior bidonville de sempre em França (15 mil pessoas, num terreno baldio de 45 hectares).

Alguns foram emigrantes clandestinos, viveram anos a fio a chapinhar na lama, em barracas ou casitas em tijolo, sem eletricidade, sem água canalizada, sem retrete, sem esgotos e sem serviço de recolha do lixo. Comparando a situação dos portugueses da época do bairro de lata de Champigny com as condições sanitárias, minimamente corretas, em que vivem os emigrantes e refugiados na atual “Selva”, em Calais – onde se amontoam de três a cinco mil pessoas de diversas origens –, este bairro de lata do Norte da França é um luxo que, por vezes, alguns portugueses, emigrantes de há 50 anos, invejam.

Conto de fadas

Certas histórias individuais destes portugueses parecem vir diretamente de um conto de fadas. De um modo geral fadas boas, embora por vezes também as haja más. Eles explicam o seu sucesso com o trabalho, a sorte, a vontade indomável de sair da miséria, de vencer e de contrariar o destino miserável que lhes parecia traçado à nascença e são eles que vão receber a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, desta quinta-feira até sábado, 12 de junho. Marcelo diz querer homenagear todos os emigrantes portugueses através desta aproximação à comunidade portuguesa de França (mais de um milhão de pessoas, incluindo os lusodescendentes). Em certo sentido, tem razão de ser, a reverência, porque a história da emigração portuguesa em França, e certamente não só, é assunto assombroso. “Os portugueses que vivem no estrangeiro são iguais aos que vivem em Portugal”, diz o Presidente. Talvez sim, ou mesmo um pouco mais do que isso, sabe-se lá...

Valdemar Francisco tem seis empresas de construção civil, preside à associação Les Amis du Plateau. Viveu nove anos no bidonville. “Há pessoas que têm vergonha de dizer, hoje, que viveram aqui. Eu não”, garante

Valdemar Francisco tem seis empresas de construção civil, preside à associação Les Amis du Plateau. Viveu nove anos no bidonville. “Há pessoas que têm vergonha de dizer, hoje, que viveram aqui. Eu não”, garante

HAMILTON/REA/4SEE

Um dos momentos mais simbólicos da visita presidencial (Marcelo será acompanhado pelo primeiro-ministro António Costa) vai decorrer esta sábado, precisamente em Champigny-sur-Marne, no local exato onde foi montado pelos portugueses o célebre bidonville. O Presidente vai aí inaugurar um colossal monumento de homenagem ao antigo presidente da câmara local, o comunista Louis Talamoni, pela ajuda que deu aos emigrantes portugueses nos anos 60. No local, as obras ainda estão em curso, dirigidas por Valdemar Francisco, empresário (seis empresas da área da construção civil), presidente da associação Les Amis du Plateau, que fundou para concretizar a sua ideia.

A obra custou 360 mil euros e foi financiada totalmente pela comunidade franco-portuguesa. Valdemar, humanista de 62 anos, viveu no bairro de lata durante nove anos, onde se juntou aos pais quando chegou a França em maio de 1960. Tinha seis anos, quando entrou no bidonville. “Há pessoas que têm vergonha de dizer, hoje, que viveram aqui. Eu não. No entanto, na altura, confesso que tinha vergonha. Vivíamos na miséria e com a lama à porta de casa, mas íamos à escola. Eu ia a casa de colegas franceses, mas nunca os convidava para virem a minha casa, porque tinha vergonha, não os podia convidar”, diz.

É uma azáfama. Para o monumento estar pronto no dia da inauguração, vários voluntários de origem portuguesa participam na sua construção. “Vai estar pronto a tempo e a horas, claro, é uma justa homenagem porque o maire podia ter decidido arrasar o acampamento, como lhe pediam. Mas ele não fez isso, ao contrário, foi um grande humanista e mandou colocar pontos de água, instalou luz e esgotos, mandou distribuir roupas e cobertores. Até pediu aos professores para levarem os alunos portugueses aos balneários públicos, para tomarem duche”, acrescenta Valdemar.

Ao lado dele, Lionel Marques, de 66 anos, vice-presidente da associação Les Amis du Plateau, que viveu 12 anos no bairro de lata, corrobora. “É uma homenagem à França e a Louis Talamoni, porque o presidente da Câmara desobedeceu, de facto, como o cônsul Sousa Mendes, em Bordéus, às ordens que tinha recebido do Estado, que eram para acabar com o bidonville. É também um dever de memória para com os nossos pais, uma homenagem a eles, que sofreram muito, na época”, explica. Lionel e Valdemar começaram a trabalhar aos 11 anos de idade, o primeiro numa mercearia árabe, o segundo a descarregar fruta de camiões, no mercado de Villiers-sur-Marne, ao lado de Champigny.

Uma rotunda para Armando

São narrativas de tempos muito sombrios, os relatos são terríveis, mas todos resultam em histórias humanas espantosas que, por vezes, terminam em finais com grande sucesso. Armando Lopes, hoje patrão de um grupo de 16 empresas (cimentos, areias, construção civil em França e Portugal e também proprietário da rádio Alfa), não chegou a viver no bairro de lata mas começou a trabalhar aos 11 anos, ainda em Portugal, em Caxarias, Ourem, de onde é natural. Aos 17 anos emigrou, instalou-se em Saint-Maur, vila vizinha de Champigny, e começou imediatamente a trabalhar em Paris, como pedreiro. Participou na construção das autoestradas (o conhecido “periférico”), que ainda hoje envolvem a capital francesa. Foi pedreiro, hoje é patrão de pedreiros e não só.

Armando Lopes, hoje patrão de um grupo de 16 empresas, chegou a França aos 17 anos. “Tive de aguentar porque tinha força de vontade e sentia que as coisas iriam melhorar”, conta

Armando Lopes, hoje patrão de um grupo de 16 empresas, chegou a França aos 17 anos. “Tive de aguentar porque tinha força de vontade e sentia que as coisas iriam melhorar”, conta

HAMILTON/REA/4SEE

“Foi muito duro, no inverno estava por vezes tanto frio, nevava, que até me chegou a cair a pele das orelhas. Mas tinha de ser, tive de aguentar porque tinha força de vontade e sentia que as coisas iriam melhorar”, conta. Durante a visita de Marcelo Rebelo de Sousa, Armando Lopes, que já foi condecorado no passado pelas presidências francesa e portuguesa, estará de novo em foco – o chefe de Estado português, o primeiro-ministro António Costa e diversas autoridades francesas vão inaugurar uma rotunda com o seu nome, em Créteil, cidade dos arredores de Paris. A praça, com uma fonte luminosa no centro, está já construída e, tal como o monumento de Champigny, é delimitada por uma dezena de oliveiras portuguesas. “As oliveiras são centenárias, vieram de Alqueva”, sublinha o empresário.

Armando Lopes criou a primeira empresa aos 20 anos, Valdemar Francisco fê-lo aos 15. Em Champigny, o monumento eleva-se junto a uma rotunda, à entrada de um frondoso bosque que os próprios portugueses recentemente embelezaram. O local passará a chamar-se “Espace de l’Espoir” (Espaço da Esperança) e a construção é marcada por oito colunas revestidas com 20 mil tijolos, muitos deles com nomes de emigrantes portugueses antigos residentes do bairro de lata, gravados – e até com autógrafos de personalidades como Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Linda de Suza, Pedro Abrunhosa ou Pinto da Costa. Ao centro, assente num espaçoso pedestal de mármore, será instalada uma escultura representando um livro aberto – “um livro que pretende ser a evocação da nossa história de emigrantes”, explica Valdemar – colocado sobre um par de mãos abertas. Na inscrição que será gravada no monumento vai ler-se: “Os portugueses de França prestam homenagem a Louis Talamoni, homem de humanismo e de coragem.”

“Fomos a um tempo infelizes e felizes aqui no bidonville, tivemos de sair de Portugal à procura de uma vida melhor, mas, sobretudo, resistimos porque tínhamos muita esperança. Tenho boas e más recordações mas nunca passámos fome”, acrescenta Valdemar Francisco. “Houve momentos difíceis. A certa altura, fizeram pesquisas de petróleo no terreno e foi um desastre: andávamos, crianças e adultos, num lamaçal horrível logo à porta das nossas casitas e barracas”, exclama.

Mercado das ambulâncias é nosso

É uma saga extraordinária, a história da emigração portuguesa em França. Mesmo a vivida pelos chamados emigrantes de sucesso ultrapassa tudo o que se pode imaginar. “A França dá muito mais hipóteses do que Portugal às pessoas que vêm do nada. É uma evidência que o chamado elevador social funciona muito melhor em França, porque, em Portugal, quem nasce pobre dificilmente consegue sair da pobreza ou subir ao nível a que estes portugueses emigrados subiram”, diz Victor Pereira, historiador, autor do livro “A Ditadura de Salazar e a Emigração – o Estado Português e os Seus Emigrantes em França (1957-1974)”.

Carlos de Matos (grupo Saint-Germain, construção e promoção imobiliária), de 65 anos, também viveu no bairro de lata de Champigny, onde chegou aos 18 anos, em 1969. Também começou a trabalhar aos 11 anos, numa fábrica, em Portugal, e hoje é patrão de grande prestígio, com investimentos em França e Portugal. É conhecido em alguns meios portugueses de Paris como o “empresário português vermelho”, porque investe muito em cidades onde os presidentes das câmaras são comunistas. Mas, apesar disso, tal como os seus colegas emigrantes de sucesso, também tem uma valiosa coleção privada de carros fora de série.

Pelo seu lado, Mapril Baptista (60 anos, pai operário) chegou a França com seis anos. Não viveu no bairro de lata (a mulher sim, viveu), mas cresceu num subúrbio complicado de Paris, em Montfermeil, que é frequentemente notícia devido à violência e aos conflitos raciais radicais. Aos 12 anos já trabalhava e hoje é patrão de um grupo construtor de ambulâncias (Les Dauphins) que detém mais de 50 por cento do mercado do sector em França (90% na região parisiense). As ambulâncias são montadas numa fábrica em Portugal, exportadas para África e para outras zonas do globo.

Mapril diz-se “cem por cento francês e cem por cento português”. Pessoa de trato simples, politicamente gaullista, é amigo do antigo Presidente francês Jacques Chirac, que está hoje muito doente e que ele visita regularmente. Como muitos outros emigrantes de sucesso, também tem uma extraordinária coleção privada de carros e participa regularmente em corridas de automóveis. Adora a velocidade. Ainda jovem foi motorista de ambulâncias, depois decidiu lançar-se na sua construção e em poucos anos passou a dominar esse mercado em França.

“O sucesso dos portugueses que viveram no bidonville é um grande orgulho para nós. São pessoas que merecem todo o nosso respeito, são grandes homens e grandes mulheres”, reconhece Mário Martins, empresário

“O sucesso dos portugueses que viveram no bidonville é um grande orgulho para nós. São pessoas que merecem todo o nosso respeito, são grandes homens e grandes mulheres”, reconhece Mário Martins, empresário

antónio pedro ferreira

Já Mário Martins, 53 anos, tem 300 camiões de transporte de mercadorias. Fundou a empresa MRTI, em 1994. Emigrou aos 10 anos para França, em 1974. O pai era operário e ele tem o curso de torneiro mecânico. Como o seu amigo Mapril, foi motorista, também não esteve no bairro de lata, embora tenha muitos amigos que lá viveram. “O sucesso dos portugueses que viveram no bidonville é um grande orgulho para nós. São pessoas que merecem todo o nosso respeito, são grandes homens e grandes mulheres, e merecem esta homenagem que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa lhes vai fazer”, afirma.

Faz transporte internacional, mas 80 por cento da sua atividade comercial é em França. “Gosto do Presidente Marcelo porque antes de ser eleito prometeu vir cá comemorar um 10 de Junho e vai cumprir. É raro que um político cumpra as promessas e isso é de realçar”, acrescenta.

O mais rico foi preso

Mas nem tudo são rosas e contos de fadas boas. Mesmo no campo dos esforçados emigrantes que chegaram à fortuna e aos louros da glória, há história com final diferente. “Em todos os rebanhos há uma ovelha negra, diz o ditado”, lembra ao Expresso um dos diversos emigrantes entrevistados durante esta reportagem. Já no passado, alguns dos empresários emigrantes condecorados como comendadores por Portugal foram presos em França e, agora, está detido em prisão preventiva mais um dos chamados empresários emigrantes de grande sucesso.

Chama-se António de Sousa e é talvez o mais rico e vistoso de todos eles. Tem cerca de 40 empresas no ramo da construção e do imobiliário (700 empregados) que realizam no conjunto centenas de milhões de euros de volume de negócios. Foi detido há algumas semanas por suspeita de “corrupção, tráfico de influências ativo, abuso de bens sociais e cumplicidade de abuso de bens sociais”, segundo a procuradoria de Paris. Com ele, neste processo, estão igualmente a ser investigadas altas autoridades políticas e administrativas francesas, incluindo um prefeito (governador civil), outros portugueses seus alegados associados, e “eleitos locais” (autarcas). O prefeito implicado, Alain Gardère, presumivelmente amigo de António Sousa, é suspeito de “corrupção, peculato e abuso de autoridade”.

O grupo a que preside António de Sousa (De Sousa et Frères) é o mais importante de todos os que foram criados em França por portugueses ou seus descendentes. No caso, em investigação, encontra-se particularmente uma das suas empresas – a France Pierre (imobiliário) que, sozinha, realiza 80 milhões de euros em volume de negócios. António de Sousa tem cerca de 70 cavalos de corrida (a maioria puro-sangue) que regularmente disputam as provas francesas do PMU (corridas oficiais de cavalos com apostas presenciais, na internet e em cafés franceses especializados). Os seus cavalos já terão conquistado mais de 500 vitórias.

Tal como quase todos os emigrantes citados nesta reportagem, António de Sousa, 72 anos, chegou a França ainda criança, no início dos anos 60, no quadro da lei do reagrupamento familiar, quando ainda não havia livre circulação de pessoas na Europa e quando muitos dos emigrantes portugueses eram clandestinos. O pai era operário. Mesmo na prisão, não deixa de ser um representante do sucesso dos portugueses em França. O poder não é apenas feito de rosas e de contos de fadas.

[Atualização de artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 junho 2016]