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Bebé do São José: seis razões para um milagre

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A vitalidade sempre demonstrada pelo feto fez com que a equipa médica não desistisse de tentar salvar o filho de uma mulher a quem foi decretada morte cerebral

António Pedro Ferreira

Um momento único na carreira de mais de três décadas uma médica: uma cesariana tecnicamente simples, mas um momento emocionalmente muito difícil. Esta semana nasceu um bebé saudável de uma mãe a quem fora declarada morte cerebral há 17 semanas. Um caso raro na medicina mundial, contado na primeira pessoa pela obstetra que trouxe ao mundo um bebé ímpar

A mãe foi declarada morta às 23h43 de 20 de fevereiro. O filho nasceu às 15h05 de 7 de junho. Entretanto, algo aconteceu. Alguns chamaram-lhe milagre. Outros, como Ana Campos, a médica que realizou a cesariana que trouxe a criança ao mundo, preferem classificar este caso raro na medicina como um “avanço da ciência, resultado da eficácia do trabalho de uma equipa multidisciplinar”.

Tão multidisciplinar que Ana Campos, diretora-adjunta da Maternidade Alfredo da Costa, faz questão de sublinhar a importância dos médicos obstetras e da unidade de cuidados intensivos, mas também dos enfermeiros, nutricionistas e até dos auxiliares.

Profissionais que não desviaram a atenção de uma grávida de 37 anos a quem foi declarada morte cerebral. Ninguém esteve a mais nesta história que começou mal e acabou bem. Tão bem quanto possível, já que o funeral da mãe realizou-se esta quarta-feira pela manhã, enquanto Portugal se regozijava com o nascimento deste bebé inesperado. Ao Expresso Diário, Ana Campos conta como foi possível passar de uma criança que começou por ser uma “tentativa” e acabou convertida numa “realidade”.

Luís Barra

1. A decisão. Como foi tomada a decisão de manter esta mulher viva? Porquê este caso, e não outro?

Não há outros casos conhecidos de uma gravidez de 17 semanas e uma mãe com hemorragia cerebral. Se a gravidez fosse muitíssimo mais precoce, as opiniões teriam sido mais divergentes, provavelmente. A idade gestacional, o facto de esta ter sido uma gravidez vigiada até aquele momento (tinha sido feito diagnóstico pré-natal) e de o feto ter uma vitalidade que não estava de acordo com a situação materna foram os fatores que colocaram as equipas perante a necessidade de discutir que atitude tomar.

A mãe foi transferida para o centro Hospitalar de Lisboa Central/Hospital de São José num quadro de morte cerebral, sem qualquer indicação de que fosse doadora de órgãos. Na avaliação prévia, percebeu-se que o feto estava com batimentos cardíacos e tinha uma boa vitalidade. Perante isso, foi tomada a atitude pelo Conselho de Administração de contactar a Comissão de Ética e reunir-se para avaliar a situação com os médicos das duas especialidades em confronto: os de cuidados intensivos e os da obstetrícia. Foi, portanto, uma ponderação médica, seguida da informação à família, que esteve de acordo em tentar manter a gravidez. Para isso ser possível, não só era necessário o consentimento da família como a reunião de todas as condições para o suporte de vida da mãe, de forma a permitir a evolução da gravidez. O aconselhável nestas situações é que haja, como houve neste caso, uma concertação entre as opiniões médicas e da família.

2. SUPORTE DE VIDA. O que era necessário garantir do ponto de vista técnico?

O que foi montado foi o que existe habitualmente nas unidades de cuidados intensivos. O que era necessário era manter todo o suporte de vida da mulher e de hormonas, que dependem de funções cerebrais e que tiveram de ser dadas externamente, para além do aspeto nutricional, que teve de ser adequado a uma grávida. Os nutrientes tinham de conter proteínas, calorias e hidratos de carbono adequados a uma gestante, que são distintos de uma não grávida, de forma a garantir a evolução do feto. Quando falamos em suporte de vida falamos de ventilação mecânica.

3. OS RISCOS. Como evitar a morte da mãe? E do feto?

Para o feto, a possibilidade de aborto causado pelo insuficiente aporte de hormonas da gravidez que impeçam o normal desenvolvimento da placenta. A possibilidade de haver infeção materna, seja hospitalar seja causada pelo risco acrescido devido à diminuição da imunidade materna devido à gravidez. Os riscos de uma infeção renal de uma mulher acamada, ventilada e que está grávida, com o útero a crescer, aumentam. Esta mulher nunca fez hemodiálise porque os rins sempre funcionaram bem. Também não estava isolada dos demais doentes da unidade de neurocríticos. Os cuidados visavam sobretudo evitar a ocorrência de tromboses, devido à falta de movimento, e das infeções. Principalmente porque, na sequência de infeções, aumenta também o risco de partos prematuros. Também se temia a restrição do crescimento fetal, devido a um eventual fornecimento inadequado de sangue e nutrientes à placenta. Nada disso se verificou.

4. SEQUELAS. O bebé terá problemas de desenvolvimento por ter nascido de uma mãe em morte cerebral?

É cedo para saber. Do que foi possível observar ainda dentro do útero, não há indicações de alterações do sistema nervoso central. O bebé está na unidade de cuidados intensivos e o acompanhamento deste aspeto deve ser feito. Ele é um prematuro, por ter nascido antes de 37 semanas de gestação, e como a falta de relação emocional entre mãe e filho não está suficientemente estudada, esta deverá ser alvo de acompanhamento neste caso, para ver se poderá influenciar o desenvolvimento desta criança.

5. NASCIMENTO. Como foi escolhido o momento da cesariana?

A cesariana foi marcada com uma semana de antecedência. Ficou decidido que seria feita quando se completassem 32 semanas de gestação e, de acordo com as possibilidades da equipa envolvida, foi escolhido o dia. Foi então feito o que se faz com outros prematuros: o fornecimento de corticoides, para reduzir os riscos de prematuridade pulmonar do feto. Na sala da cesariana estavam a equipa de anestesia, de obstetrícia e as enfermeiras. Seis pessoas. A família estava na sala de espera. “Tecnicamente foi fácil, mas emocionalmente foi difícil”. Ana Campos conta que saiu da sala após o nascimento, e que, a seguir, as máquinas de suporte de vida foram desligadas. “Foi difícil para todos os envolvidos”.

6. RARIDADE. Porque é que estas situações são tão raras?

Porque felizmente as hemorragias cerebrais em mulheres grávidas são raras, embora talvez nem todas as que ocorram sejam relatadas. Não há, por isso, segurança dos números mundiais. A hemorragia cerebral é uma das causas mais frequentes de morte de homens e mulheres e também nas grávidas, devido muitas vezes a malformações até então desconhecidas. Para que o que aconteceu se repita, é preciso reunir vários elementos, como uma idade gestacional suficientemente avançada, a situação de base da mãe e as condições técnicas para que as equipas possam funcionar com o êxito que esta funcionou. “Não foi um milagre, mas um avanço da ciência e da capacidade de multidisciplinaridade e eficácia de uma equipa. Não são só os médicos, mas os enfermeiros, os nutricionistas, os farmacêuticos e todos os profissionais que contribuíram para este êxito”, que exigiu uma dedicação de 24 horas por dia, todos os dias. “A tranquilidade com que vivemos o desenvolvimento do feto foi o que nos deu segurança. O que não queríamos era que ele tivesse problemas graves”.