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“Pergunto: como é que se pode confiar num banco?”

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MAGOADO. Artur Arruda, comerciante dos Açores, lesado em meio milhão de euros

D.R.

Está corroído pela ira o terceiro e último capítulo da investigação SIC aos pecados capitais do Banif, que é emitido esta terça-feira. A angústia dos lesados revela que os mesmos que ajudaram, um dia, ao crescimento meteórico do banco, estão a ser os primeiros a sofrer os impactos de tamanha implosão

Pedro Coelho/SIC

Não houve, em tempo algum, quem desconfiasse que aquele homem humilde teria algo mais do que a pequena mercearia em Vila Franca do Campo, nos Açores. Mas Artur Arruda conseguira juntar, ao longo de 40 anos de trabalho, cerca de meio milhão de euros.

Uma fortuna que manteve em segredo. Da vila inteira e da própria família. Preferiu proteger o dinheiro da inveja alheia ou de eventuais tentações e confiou parte da vida ao Banif. Perdeu tudo com a queda do banco. "Nunca vi a sombra daquele dinheiro. Sempre pensei que estava lá para o resto da minha vida", desabafa.

Era como um castelo de precioso papel que ergueu a custo e que gostava de admirar à distância. Nem o filho teve a oportunidade de o contemplar. Muito menos desfrutar. "Preferia que ele lutasse pela vida e não andasse à sombra do pai. E estava a ver quando amadurecia."

Está arrependido, admite. Prefere hoje aconselhá-lo a gozar a vida. Porque sacrifício e trabalho, sabe-o agora, podem ser a garantia de coisa nenhuma. Até mesmo para quem começou a "trabalhar duro e forte" aos 17 anos. "Nunca soube o que era uma boîte, não frequentava um café", lembra.

TRABALHAR NO DURO Artur Arruda na sua mercearia, em Vila Franca do Campo

TRABALHAR NO DURO Artur Arruda na sua mercearia, em Vila Franca do Campo

Houve tempos de pompa na venda de Artur Arruda, feitos de vida sôfrega inundada pelo vício do trabalho e do aforro. Vieram as grandes superfícies. Vieram a crise e os fiados. E o fulgor da venda esmoreceu. Mas Artur tinha o consolo da caixa forte. 500 mil euros que o Banif guardava e usava como queria. Em troca, recebia quatro e meio por cento de juros líquidos todos os anos. "Era dali que saía tudo. De seis em seis meses caiam-me ali os juros e eu geria a minha vida assim."

Criara, com o banco, uma relação próxima. "Era para mim um confessionário. A gente confessava a nossa vida ali ao empregado do balcão."

Não foi, por isso, difícil seguir os conselhos de investimento do mesmo balcão que lhe garantia mais de dez mil euros em juros a cada semestre. "Falavam sempre em pacotes. Nunca me falaram em obrigações ou fundos de investimento", lembra. "Depois do problema do Banif é que lá fui e vi que tinha 450 mil euros em obrigações Rentipar, de que nunca tinha ouvido falar."

Só nos Açores, 900 pessoas "ficaram a arder"

A Rentipar financeira - a holding proprietária do Banif - entrou em processo de insolvência. Os 450 mil euros de Artur, investidos em obrigações com a etiqueta desse império desfeito em cacos, são mais difíceis de recuperar do que os 50 mil colocados em obrigações subordinadas.

No país inteiro e nas comunidades emigrantes que acreditaram no Banif, as obrigações subordinadas somam quase 300 milhões de euros. Nos Açores "estamos a falar de 900 pessoas", segundo avança o Presidente do Governo Regional.

Quase em vésperas de eleições, Vasco Cordeiro gostaria certamente de ser arauto de boas novas. "Nada me daria mais gosto poder dizer-lhes: tenho a solução para a vossa situação. Mas não tenho", lamenta.

A implosão do Banif deixou exposta a estrutura usada para promover o crescimento do banco. À medida que o pó de tamanha queda vai assentando, muitos lesados começam a perceber que não sabiam onde haviam aplicado o resultado de anos de trabalho. "Muito poucas pessoas sabiam ao que iam. Neste grupo com quem temos reunido serão para aí 2% dos que sabiam ao que iam", garante o também lesado Carlos Presunça.

Como o Banif cresceu com a diáspora na África do Sul

É manhã de domingo. Estamos a momentos do arranque da missa da comunidade venezuelana na Igreja de Câmara de Lobos.

Por estes dias, e por estes lugares, Jaime Alves, Presidente da Associação de Lesados do Banif, era um pescador de homens. "Sabendo que há muitos emigrantes portugueses que estiveram na Venezuela, vinha na expectativa de estabelecer um contacto com eles", explica.

A igreja está cheia de gente que escapou da inflação galopante no Estado sem norte. Zelosas formigas que trabalharam e guardaram o fruto desse imenso labor. Não se denunciam mas muitos confiaram as poupanças ao Banif, o banco da Madeira.

A maioria está votada ao silêncio perante as palavras do sacerdote, também ele filho de emigrantes na Venezuela. "Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: 'Pai: dá-me a herança que me toca. Esbanjou tudo o que tinha numa vida dissoluta'".

Luxúria, o pecado capital do filho transviado. A luxúria do Banif despertou a ira de Maria Salomé. Ex-emigrante, esteve 40 anos na África do Sul. Poupou o mais que pôde. Entregou tudo o que conseguiu ao Banif.

No banco foi aconselhada, garante, a comprar ações e obrigações. Hoje está tomada pela ira a quem, um dia, confiou. "Se for encontrá-lo eu não lhe chamo 'Senhor'. Eu chamo-lhe aldrabão!"

"O Orlando e o Mendes eram os maiores. Agora já não prestam". Não o diz, mas fala de Orlando Freitas e Manuel Mendes. O primeiro era como um missionário encarregue de espalhar a palavra de Horácio Roque e recolher as poupanças da diáspora. Percorria a África do Sul de uma ponta à outra. "Tenho a consciência de que fiz pelo melhor. Não tenho felicidade nenhuma em ver as pessoas perderem dinheiro", assume.

O casamento terá beneficiado banco e emigrantes enquanto gerou liquidez. Mas o verniz viria a estalar quando o Banif caiu e se percebeu que o dinheiro... se tinha evaporado. "Houve pessoas que já ouvi, e lamento muito. Pessoas que nos anos anteriores receberam taxas agradáveis de 5%, 6 % e nessa altura o Orlando e o Mendes eram os maiores. Agora já não prestam."

DE “OS MAIORES” À DESGRAÇA. Manuel Mendes (à esquerda) e Orlando Freitas

DE “OS MAIORES” À DESGRAÇA. Manuel Mendes (à esquerda) e Orlando Freitas

Tanto Orlando como Mendes garantem agido sempre de boa fé num projeto no qual também acreditaram. A Orlando falta-lhe ainda a coragem para voltar a enfrentar os antigos clientes. "Logo a seguir ao Natal foi um período muito difícil para mim. Caíam-me chamadas no meu telefone. Eu compreendia. Mas chegou uma altura em que já não tinha capacidade para responder àquelas pessoas."

A ira, e o que a motiva, espalha-se agora como a peste. "Se vejo uma pessoa dessas sou capaz de fazer alguma coisa mais difícil, entende?", atira um dos lesados, perante a acidez da angústia e da raiva.

Propostas de rescisão a 400 trabalhadores

As ilhas respiram Banif por todos os lados. Ainda há restos de banco em lugares que escaparam à fúria transformadora do Santander.

Como a bandeira que um exército levanta quando conquista um território, também o banco espanhol quis eliminar as marcas do passado e erguer o logótipo vermelho e branco no topo do edifício da Avenida José Malhoa, em Lisboa. Foi, contudo, obrigado a recuar. "Estariam a pensar que eram detentores da totalidade do edifício mas isso não é verdade. O Banif detinha apenas 20%", revela Luís Duarte, antigo funcionário de Horácio Roque.

51 anos, ex-quadro de topo do Banif, é hoje presidente da comissão de trabalhadores da Oitante. Mais um nome pomposo para fechar a história de um banco que se afunda. A Oitante é o veículo público que ficou com os ativos não financeiros do Banif, que o Santander não quis.

Luís Duarte (segundo a contar a direita) durante a reunião de trabalhadores do Banif

Luís Duarte (segundo a contar a direita) durante a reunião de trabalhadores do Banif

"O Santander, vamos ser claros, não nos quer", ouve-se neste final de tarde na reunião geral de trabalhadores que encheu o auditório da antiga sede do banco do Funchal. A lista de ativos não financeiros desinteressantes para o Santander inclui quatro centenas de funcionários dos serviços centrais do Banif. As propostas de rescisão por mútuo acordo chegaram a meio de maio ao correio eletrónico dos 400 trabalhadores que ainda resistem.

Viver das mágoas

Já nas ilhas não há ainda sinais de despedimento em marcha. Mendes, um dos colaboradores do Banif que também trabalhava diretamente com os emigrantes na África do Sul, conseguiu ser absorvido pelo Santander. Orlando reformou-se a tempo. Saiu antes da queda. Um e outro vivem das mágoas. Provocam a ira. Vivem na ira.

"Nunca roubei nada a ninguém. Nunca ninguém me disse que faltava dinheiro. Transportei clandestinamente muito dinheiro sem qualquer documentação de suporte", desabafam os antigos funcionários, que ajudaram ao crescimento meteórico do Banco Internacional do Funchal.

Ambos preferem não detalhar os pormenores do transporte de dinheiro. As peças soltas, contudo, encaixam. A legislação sul-africana impede a transferência de somas avultadas para o estrangeiro. O Banif impôs-se na África do Sul porque Horácio Roque encontrou forma de contornar a legislação. Com ganhos avultados para o Comendador, as poupanças dos emigrantes madeirenses, acumuladas nesse extremo sul de África, apareciam milagrosamente transformadas em dólares nas contas do Banif no arquipélago.

O canal foi aberto nos anos 80. Orlando era funcionário da Caixa Económica do Funchal. Roque ainda nem sequer era banqueiro. Mas parecia. "Ele aparece-me no hotel de 'Rolls Royce'. Eu disse-lhe: "eu vou mudar de roupa. É a primeira vez que vou andar de Rolls Royce'". "Não. Você está muito bem para estar com os nossos emigrantes"", recorda.

Durante todo o tempo em que o transporte clandestino durou, Orlando e Mendes correram riscos que não querem recordar. Omitem pormenores do transporte que, só conversando com várias fontes, conseguimos reconstituir. Percorriam a África do Sul de uma ponta a outra. Recolhiam o dinheiro quase porta a porta. Algum desse dinheiro vinha do pequeno negócio do peixe. Quando chegava às malas dos funcionários de Horácio Roque, tresandava. O dinheiro, colocado nas traseiras do veículo, era tanto que o carro vergava.

Com isso, Roque gerava liquidez para sustentar os negócios na África do Sul. Sobre cada transferência, o Comendador cobrava uma comissão que, nalguns casos, pode ter chegado aos 30%. Os emigrantes pagavam de bom grado. Essa era, afinal, a única forma que tinham de fazer chegar as poupanças à Madeira. Uma parte desse aforro foi convertido em obrigações subordinadas; obrigações Rentipar; ações. Os juros eram bons. À luz do que hoje sabemos, demasiado bons.

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