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Mulheres tomam conta da Medicina, mas “querem qualidade de vida”

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O recém-eleito presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna está preocupado com a "invasão" de mulheres nos cursos de Medicina

António Pedro Ferreira

A “especialidade mãe de todas as especialidades” atrai recém licenciados pelo aspecto científico, mas afasta-os quanto ao lado financeiro. As mulheres são agora em muito maior número do que os homens nos cursos de medicina e demonstram, na opinião do novo presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, uma apetência maior pelo dinheiro, ou seja, por especialidades mais fáceis e lucrativas.

Entre os seis mil médicos internos nesta altura a fazerem a especialização em 47 áreas, mil são de medicina interna, uma especialidade que trata questões complexas, é desgastante, incompreendida e mal remunerada. E, ainda segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, pouco atrativa para as mulheres, já que estas estão mais preocupadas com a sua qualidade de vida, preferindo por isso uma área menos trabalhosa e mais rentável.

De uma forma simples, diga-se que o internista, como se intitula o médico de medicina interna, está para o doente adulto como o pediatra para as crianças. Pela lei, “ocupa-se da prevenção, diagnóstico e orientação da terapêutica curativa não cirúrgica das doenças de órgãos e sistemas ou das afeções multi-sistémicas dos adolescentes, adultos e idosos”. Como refere Luís Campos, para compreensão geral, é uma “espécie de doutor House do hospital”.

"Tem de haver discriminação positiva na medicina interna com vários tipos de incentivos, para que consigamos dar uma retribuição distintiva aos médicos que optem por esta especialidade e faça com que, como era tradicional, os melhores venham para esta especialidade já que é a mãe de todas as especialidades”, disse ao Expresso Luís Campos, numa conversa sobre a sua recente eleição para a presidência da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI).

Mas já há falta de internistas? Na última leva de internato, a segunda especialidade com mais vagas foi a Medicina Interna, eram 201 e ficaram preenchidas por 142 mulheres e 59 homens. O maior número de lugares (473) coube à Medicina Geral e Familiar, vulgo clínica geral, os quais também foram ocupados maioritariamente pelo sexo feminino: 354 contra 119. É preciso ter em conta, porém, que dos 1569 licenciados que cumprem desde janeiro o ano comum de internato, 1070 são médicas e 499 médicos.

Há uma década, pensou-se impor cotas contra a "feminização"

“Temos de olhar para a progressiva feminização da profissão médica, neste momento a maior parte dos estudantes e dos especialistas são mulheres e estas — toda a gente em geral, mas as mulheres em particular —, atendem muito à questão da qualidade de vida e daí a opção por especialidades que lhes permitem compaginar a atividade profissional com qualidade de vida, como sejam a dermatologia e a medicina geral e familiar”, afirma Luís Campos. (Para dermatovenereologia, havia dez vagas, sete das quais foram conquistadas por mulheres)

Na opinião de Luís Campos “a carga assistencial é, de facto, muito pesada e cada vez mais exigente”, já que os internistas “asseguram os serviços mais difíceis: a emergência, cuidados intensivos, serviços de medicina, hospitais de dia, consultas”, prestando também apoio social, já que a maioria dos doentes que chega aos hospitais é idosa. E, por outro lado, dado o grande instrumento da medicina interna ser a análise da história do doente — “75 por cento do diagnósticos conseguem-se a partir da historia clínica e exame físico” —, de implicar poucos procedimentos, nada de cirurgia, e de a especialidade não estar implantada no privado faz com que do ponto vista económico não seja das mais compensadoras.

Por isso, quanto à apetência pelo lado material da vida pelo sexo feminino, o ex-vice agora presidente da SPMI, está convicto: “É um problema geral, mas acho que é mais por parte das mulheres e talvez esta dificuldade em atrairmos internos tenha um pouco a ver com isto. Tem de haver discriminação positiva, incentivos financeiros e outros que tornem a especialidade gratificante também do ponto de vista económico”. Por curiosidade, referia-se que a única área pela qual as mulheres não mostraram qualquer apetência foi a de medicina desportiva, deixaram as duas vagas para o sexo oposto.

Há uma década, pensou-se impor cotas contra a "feminização"

Por causa deste “problema”, em 2004, surgiu a ideia, ao que parece adormecida pouco depois de tornada pública, de introduzir cotas para homens, a fim de travar a "invasão" de mulheres nos cursos de medicina. À data, as queixas masculinas da feminização da medicina tinham em conta a frequência de mais 1500 mulheres, relativamente ao número de homens, nos sete cursos de medicina nacionais. No ano de 2015, entraram 10359 raparigas e 4050 rapazes, ou seja, elas são mais 6309 do que eles, conforme dados da Infocursos, a plataforma lançada este ano pelo Ministério da Educação e Ciência.

ideia veio à baila em Berna, na Suíça, durante a reunião anual da Associação de Educação Médica Europeia. Mas que fazer se todos os anos entram mais mulheres do que homens para a universidade, um facto que traduz a composição da sociedade? Anos a fio, os cursos pertenceram aos homens, devido ao lugar subalterno que o Estado conferia às mulheres, e o sexo masculino nunca pareceu importar-se com o facto. Além disso, as mulheres podem ser a maioria na profissão, mas o cargo de diretor clínico dos hospitais portugueses continua a ser desempenhado por homens, maioritariamente.

Presidente eleito com pouco mais de três por cento dos votos

Luís Manuel Barreto Campos, de 61 anos e licenciado há 38 pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, foi recentemente eleito presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, a posse tomou-a perante mais de dois mil médicos, no XXII congresso dos profissionais da especialidade, que decorreu em Viana do Castelo, entre 27 e 29 de maio, mas os votos que lhe deram a vitória foram apenas 69, tendo-se registado 13 contra e 12 nulos. A lista única — uma sucessão natural da direção anterior liderada por Manuel Teixeira Veríssimo — conta apenas com três mulheres, entre 15 membros: uma vice-presidente da direção, entre três homens; outra, em idênticas circunstâncias, como secretária-adjunta; e a terceira como presidente do conselho fiscal.

A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna tem mais de dois mil sócios, mas nas eleições apenas votaram 94 internistas

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DR

A fraca adesão às urnas já não é, no entanto, uma novidade. Para Luís Campos, há cada vez menos envolvimento das pessoas em movimentos associativos, em sociedades e outras organizações. “Talvez tenha que ver com a educação. Os jovens ficam em casa, ligados ao computador entretidos na net, interagem menos uns com os outros”, por outro lado, a diminuta participação nas eleições é como em tudo, inclusivamente nos partidos políticos: "Se pensarmos quem é que elege os secretários-gerais, os delegados, etc., acaba por ser uma percentagem pequena das pessoas inscritas”.

“Apesar disso, na Sociedade tem acontecido uma coisa que é algo contrário do que tem acontecido ao pais e ao mundo em geral: cada direção tem deixado a Sociedade melhor do que a recebeu e esse é o meu objetivo”, sustenta o presidente desta associação de médicos fundada em 1951, para “promover o desenvolvimento da Medicina Interna ao serviço da saúde da população portuguesa”.

Segundo os estatutos da SPMI, os objetivos implicam o estímulo ao estudo e investigação de problemas científicos, a promoção do estreitamento de relações científicas entre os médicos portugueses que se dedicam particularmente a este sector da Medicina, a organização de atividades educacionais dirigidas aos médicos e à população em geral e a cooperação com outras associações científicas portuguesas e estrangeiras, além do patrocínio da presença de internistas em reuniões internacionais, da divulgação de documentos científicos e a representação de Portugal junto da Sociedade Internacional de Medicina Interna e de outras Sociedades Internacionais congéneres.

As farmacêuticas são o grande sustentáculo da formação pós-graduada dos médicos

Para prosseguir os objetivos, a SPMI socorre-se de patrocínios e subsídios da indústria farmacêutica, em especial. No ano passado, conforme se verifica na Plataforma de Comunicações – Transparência e Publicidade divulgada esta semana pelo Infarmed, a Sociedade recebeu cerca de 200 mil euros no ano passado. E o atual presidente não vê qualquer problema nesta fonte de rendimento que a Sociedade utiliza “em múltiplas ações de formação aos internos, na manutenção do site, na feitura da revista”, entre outras atividades.

“A indústria farmacêutica é o grande sustentáculo da formação pós-graduada dos médicos, o que tem de haver é transparência e esta medida de tornar explícitos os apoios é uma forma de caminharmos para essa transparência”, diz Luís Campos admitindo que se não fossem as farmacêuticas a financiar a formação, “muito dificilmente" os médicos teriam oportunidade de prosseguir a sua formação pós-licenciatura a ir a congressos ou fazer reuniões.

Além disso, não se trata de uma situação particular portuguesa, “acontece por todo o lado”. Na opinião de Luís Campos, trata-se até de uma quase obrigação natural, já que as farmacêuticas “têm lucros bastante significativos”. Para este médico, o que tem que haver é mecanismos que tornem estes interesses transparentes e impeçam interferências nas decisões quanto às normas de orientação clínicas. Até outubro de 2014, o valor mínimo a declarar por cada beneficiário era de 25 euros, nessa data foi aumentado para 60.

Além de ser diretor clínico do Hospital São Francisco Xavier há dez anos, o novo líder da SPMI faz medicina privada, é presidente do Conselho para a Qualidade em Saúde e consultor da Direção-Geral de Saúde, desde 2009, ano em que deixou prestar consultoria à José de Mello Saúde S.A. para a construção de novos hospitais em regime de PPP (Parceria Público-Privada) e membro da Comissão para a rede de Referenciação de Medicina Interna.

Luís Campos é ainda membro da Comissão Científica para as Boas Práticas Clínicas e, entre outros cargos e funções, foi até ao ano passado da Comissão de Acompanhamento da Reforma Hospitalar. Como arranja tempo, tendo de cumprir um horário completo no hospital público, onde tem 68 camas à sua responsabilidade,? “O segredo é ter boas equipas. Por exemplo, no serviço de medicina tenho uma magnífica equipa, pessoas solidárias e muito competentes, que sabem as suas funções, e em qualquer altura podem substituir-me sem qualquer drama”.

[O título original foi alterado a 7 de junho, retirando-lhe a palavra "só"]