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Menino que andou perdido na floresta perdoa os pais que o abandonaram

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KYODO / Reuters

O progenitor contou por entre lágrimas o que Yamato lhe disse: que ele era um bom pai. O menino estará arrependido por ter sido desobediente, mas serão as autoridades a ter a última palavra

Luís M. Faria

Jornalista

O menino japonês que se perdeu depois de os pais o deixarem no meio de uma floresta como castigo por mau comportamento já lhes perdoou. Numa entrevista televisiva, o pai contou que pediu desculpa ao filho pelo que o fez passar. A criança terá respondido que ele era um bom pai e lhe perdoava.

A história, que comoveu o Japão nos últimos dez dias, envolve Yamato Tanooka, de sete anos, a sua irmã, e um casal na casa dos 40. No passado dia 28 de maio, a família foi passear numa floresta do Hokkaido, a segunda maior ilha do Japão. O menino começou a atirar pedras a carros e, ao que parece, a pessoas também. Irritados, ao fim do dia os pais resolveram aplicar-lhe um castigo exemplar. Puseram-no fora do carro e a afastaram-se cerca de meio quilómetro. A ideia era pregar-lhe um susto que lhe servisse de lição. Mas quando pouco depois voltaram ao local já não o encontraram.

Segundo se soube agora, o menino ainda tentou ir atrás do carro. Mas desorientou-se e acabou por seguir numa direção errada. O resultado foi uma confusão que angustiou o país inteiro, com buscas que implicaram largas dezenas de pessoas e meios importantes. Um motivo de preocupação era a presença de ursos na área. Outro era a noção de uma criança, para mais tão pequena, que teria dificuldades em sobreviver num local remoto sem água nem comida.

Encontrado por três soldados

Vestido com fato de treino, t-shirt e ténis, Yamato terá inicialmente andado perdido pela floresta. Ao fim de algum tempo, encontrou uma estrada não alcatroada. Seguiu por ela ao longo de quilómetros, e acabou por chegar a uma cabana militar. Foi aí que se albergou durante seis noites, dormindo entre dois colchões. Para matar a sede, bebia água de uma torneira no exterior. Aí o encontraram finalmente três soldados que se procuravam abrigar da chuva.

Levado a um hospital, constatou-se que estava bem. Ele disse não saber como tinha descoberto aquele local (um soldado comentou que mesmo ele próprio levaria duas horas e meia a chegar lá, subindo pela montanha. Ainda por cima, Yamato caminhava no escuro). Ao fim de algum tempo tinha perdido o medo de estar sozinho.

Os seus pais, que só ao fim de um dia ou dois admitiram o que realmente se passara – inicialmente disseram que a família estava a apanhar bagas – foram muito criticados pelo que fizeram, embora também houvesse quem mostrasse compreensão. É possível que venham a ser acusados de abuso psicológico.

“Não ouvi o que o meu pai dizia”

Neste momento, estão sobretudo felizes por terem o filho de volta. Takayuki Tanooka, de 44 anos, contou na televisão que quando o incidente aconteceu já estava zangado com o filho devido aos problemas que ele tinha na escola, por andar a bater em carros com paus. A insubordinação durante o passeio terá sido a gota de água. Tanooka falou na sua dignidade de pai, e explicou que tentou mostrar ao filho "que posso ser temível quando estou seriamente zangado".

Jamais esperou que acontecesse o que aconteceu. Contendo as lágrimas, referiu as palavras que disse há dias ao filho: "O pai fez-te atravessar um tempo muito difícil. Desculpa". Yamato respondeu que o desculpava, e terá acrescentado: "Portei-me mal, pois não ouvi o que o meu pai dizia".

Entretanto, segundo o diário “Asahi Shimbun”, a polícia notificou o centro de proteção infantil mais próximo, na cidade de Hakodate.