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Maria Filomena Molder: “Só começamos depois de continuar”

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PERTENÇA. Wittgenstein, Kant, Benjamin, Dante, Broch. Uma biblioteca sem eles não seria de Maria Filomena Molder

luís barra

Chegou à Filosofia por não saber o que era. Foi professora até 2013, daquelas que não se esquecem. Escreveu uma dezena de livros e o que se segue está prestes a sair. Foi-nos revelado o final: a arte ganha

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

Texto

Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

Chega-se e não há engano possível. Lá estão os sinais que a definem, a superpovoada biblioteca, as fotografias, os quadros, a janela sem cortinas para entrar a luz. E ela afável entre os seus tesouros, de que lançará mão durante a conversa. “Posso ler-lhe uma passagem?”, diz mais do que uma vez. Maria Filomena Molder, filósofa e professora (aposentada), não resiste ao poder de uma frase bem dita. Mesmo que o texto seja um descampado, um vinho de sabor estranho. Quem foi seu aluno na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, onde lecionou durante 30 anos a disciplina de Estética, fica a sê-lo para sempre. É uma condição da qual não se sai. Semelhante à da própria filosofia, essa pergunta sem resposta em que se integram todas as perguntas e respostas, num movimento instável e perpétuo sem o qual deixaria de existir. Numa manhã de maio, falámos longamente sobre esta sua escolha. Sobre o seu novo livro (escreveu uma dezena). Sobre o papel do filósofo e sobre os que lhe são familiares. Sobre as causas que a espicaçam, que não estão fora do mundo. E sobre uma insatisfação inesperada — talvez o motor que a faz continuar.

“Não me encontro entre aqueles para quem as palavras não chegam.” Esta frase define-a?
Sim. Quando a disse devia estar a falar de Wittgenstein e da ideia poderosa de não se poder recuar a antes da aprendizagem da fala. Não quer dizer que antes da fala não haja um enxame de disposições que atravessam a criança. Mas a verdade é que, desde que nasce, a não ser em condições muito fora do que chamaríamos uma forma de vida humana, ela está logo banhada pela palavra. Lembro-me da descrição muito breve, num texto de Primo Levi, de uma criança que tinha nascido num campo de concentração e tinha ficado sem mãe. E ninguém a ensinou a falar. Aos três anos andava como um zombie, era uma figura do horror.

Estava fora da palavra.
Impressionou-me imenso. Aquilo que citou tem que ver com a noção de que tudo o que passa pelo nosso corpo está sempre a ser envolvido e atravessado, como o sangue nas veias, pela palavra.

Perguntava-lhe se isso a define, o falar.
Sou uma pessoa que nasceu para falar e contar histórias. Mas nunca fui uma grande contadora de histórias, nem para as minhas filhas nem para os meus netos. Tenho é a impressão de que quando falo, sem contar nenhuma história, é como se estivesse a fazê-lo. Como a minha avó Luzia fazia. Devo ter herdado isso dela, que não aquela habilidade prodigiosa de contar histórias de encantar — essa herdou-a a minha mãe. Quando ficamos mais velhos percebemos que somos uma manta de retalhos de tudo o que viveu connosco. Dessa avó fiquei com o gosto de falar. É um falar acerca da vida, não uma construção que se basta a si própria. Isso pode ser nocivo.

Porquê?
Refiro-me a um tipo de discurso filosófico que dispensa misturas com outras inspirações, literárias e artísticas. Não chegaria ao ponto de dizer que as despreza, mas ignora-as como disciplinas autónomas que não se devem tocar.

Isso não é de todo o que a Maria Filomena é ou faz.
Não é, sem dúvida. Nem é o que os antigos filósofos gregos fizeram.

ESCREVER. “Rebuçados Venezianos” é o título do seu novo livro, que se soma a uma dezena já publicada

ESCREVER. “Rebuçados Venezianos” é o título do seu novo livro, que se soma a uma dezena já publicada

luís barra

A Maria Filomena era a criança que se perguntava “porque é que a cadeira se chama cadeira”, questionando a relação entre a palavra e a coisa nomeada.
Até aos sete anos fiz essa pergunta, à qual a minha mãe e irmãs não podiam responder. O não responderem provocava em mim um desastre, ficava doente por não poder preencher uma expectativa que para mim tinha de ser preenchida. A resposta habitual é: a relação entre a palavra e a coisa é convencional. O que não serve para nada.

Não serve para arrumar, para preencher um vazio?
Sim, mas todos os rituais humanos são convenções, e o que é que isso diz sobre os rituais ou sobre nós? Ficamos com a batata quente na mão. Em Walter Benjamin encontrei um grande desafio a essa ideia de convenção: para ele, isso era desfigurador do que está em causa na linguagem. E na linguagem está em causa a essência da vida humana, que tem que ver com comunidade, com transmissão, com uma espécie de sonho humano de adaptar de modo cada vez mais justo as palavras que se dizem àquilo que está ser dito por elas. Há um caso estranho, que é o dos nomes próprios. Ao passo que os outros nomes implicam algum conhecimento das coisas, este nome não equivale a nenhum dado que se tem sobre a criança. É um reconhecimento, como dar as boas-vindas.

Gosta do seu nome?
Não gostei durante quase toda a minha vida. Achava-o detestável, soava-me mal. Era pesado, um fardo. Tinha quatro sílabas, como Margarida — mas esse eu idolatrava, apesar de hoje não me dizer nada. Quando tinha oito anos, Filomena deixou de ser santa, o que foi uma tristeza para a minha mãe. Mais tarde, para grande alegria dela, descobriu-se a razão: Filomena era o nome que se dava a todas as santas. Hoje aceito mais o que tenho e o que sou e já gosto do meu nome. Aceitar leva tempo. Pode dizer-se que tive uma adolescência longa, que durou quase até ao nascimento das minhas filhas — e a adolescência é a idade em que se recusa tudo.

Disse que tinha “um desprezo entranhado pelos adultos”. É a idade destruidora?
Destruidora dos elos naturais, familiares, de todas as visões do mundo que foram apreendidas — ou quase todas, porque senão ficamos sem nada. Há quem fique sem nada. No meu caso, queria ter nascido de mim própria. Bastar-me de tal modo a mim própria que não devesse nada a ninguém. É uma ideia terrível que temos quando abandonamos a infância ou quando a infância nos abandona.

A ideia de recomeçar. Lembra-se de algum recomeço?
Havia aquele poema de Alberto Caeiro do “Guardador de Rebanhos”, que fala de Maria, mãe de Jesus, a única mulher que nunca amou para ter um filho, e do Deus Pai, sempre a dizer impropérios. Quando li isto, aos 15 anos, foi uma revelação. Ele estava a dizer tudo o que eu não ousava pensar mas sentia. Estava a destruir a idolatria medonha que se faz em torno da virgindade da mãe de Cristo e também a terrível compreensão que se faz do pai do filho. Se pensarmos em termos hebraicos, o sacrifício do filho pelo pai cessou com Abraão. Sabemos que a morte do primogénito era uma tradição em culturas arcaicas. E aqui, um anjo segura a mão de Abraão. Com o Novo Testamento, o cristianismo reacende esta tradição.

É crente?
Tive formação cristã, católica. Não tenho crença há muitos anos e tenho um sentido crítico muito apurado em relação ao catolicismo. Sem ignorar as suas grandezas, as suas misérias são demasiadamente grandes para o meu gosto. E a relação entre Deus pai e Deus filho é para mim inaceitável, porque repõe aquilo de que os homens se tinham livrado, numa espécie de renovação da mitologia. Segundo Walter Benjamin, que era judeu, a mitologia canoniza a crueldade, o que não significa que não haja crueldade na vida. Há muita. Mas a nossa visão da vida nos nossos dias é um fechar os olhos a tudo o que é cruel e grave. Não podemos extirpá-lo, mas podemos condená-lo, fazer leis que tendam a remediar e a precaver, que encontrem a boa consequência. Ou seja, a vítima tem sempre razão. Na nossa cultura, a vítima não tem sempre razão. Há uma ideologia que defende o criminoso, o que vem de uma interpretação religiosa segundo a qual o criminoso pode sempre arrepender-se e nós não somos ninguém para o julgar. Aí penso como Hannah Arendt: quem é que pode julgar senão o ser humano?

Definiu-se já como ‘arendtiana’. Não há perdão sem limites?
Não, não. Mas não acho que o perdão seja o mais elevado. Mais elevado é fazer justiça. A justiça é um esforço por reparar, enquanto o perdão é uma tentativa de aceitar e superar o acontecimento. E pode ser sublime, mas há uma hierarquia.

O perdão deixa tudo ser como é?
Deixa, porque dá o benefício àquele que cometeu o gesto detestável. Eu gostaria de ser perdoada em todos os casos? Não. Há um texto singular da Clarice Lispector sobre o perdão. Acha que posso ler uma passagem?

Claro.
Chama-se “É preciso também não perdoar”, sobre uma entrevista da BBC a uma prisioneira de guerra: “Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido mesmo errado pela vítima, e um partido mesmo errado contra o inimigo. E tornar-se primário ao ponto de dividir as pessoas em boas e más. A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é vítima é permitida, a crueldade e a revolta, e não compreender os outros é que é certo.”

É um texto contracorrente.
Benjamin tem uma imagem: a de escovar a história como a um gato, contra a pelagem. A Arendt era assim e é das pessoas mais lúcidas que li na minha vida, tal como a Lispector. É uma forma de lucidez que algumas mulheres têm, que não se encontra com as mesmas características nos homens mais lúcidos. Mas não tenho uma teoria sobre isso.

Fala de mulheres lúcidas e contra a maré. Também o foi?
Sempre vivi muito isoladamente. Sempre senti que não me podia deixar apanhar, domar, porque não gosto que mandem em mim. E se alguém não cumpria uma promessa, era como se o mundo entrasse em colapso. Por outro lado, era muito arisca.

Rebelde?
E silenciosa, até muito tarde — até as minhas filhas nascerem. Depois comecei a tornar-me mais faladora e hoje em dia pode-se dizer que sou uma pessoa sociável. Antes não.

Porquê?
Tem que ver com a minha timidez natural, com não me sentir bem em lado nenhum, com ter expectativas muito altas e desiludir-me facilmente... Quando fui para a faculdade tive uma desilusão tremenda. Gostava do edifício, da liberdade de que usufruía, da liberdade dos professores começarem as suas aulas num dia que eles próprios escolhiam, mas em grande parte pareceu-me uma coisa liceal. No entanto, professores como Vitorino Nemésio, Borges de Macedo, David Mourão Ferreira, Oswaldo Market, o padre Manuel Antunes e o padre Joaquim Cerqueira salvaram o meu dia. A uniformização doentia que entretanto se criou certamente terá que ver com um aumento da angústia. Quanto mais angústia mais regulamentação.

Como é que uma pessoa que odiou a escola desde o princípio se tornou professora?
Uso a palavra ‘odiar’ de um modo muito infantil. Tem que ver com resistência, não com rancor. Gostava de alguns professores e de ler, era doente da leitura. Todos os que me ajudaram a ler fizeram com que aguentasse estar na escola. Os que contrariaram isso ou tinham uma visão, no caso da filosofia, muito regulamentada e obediente a certos lugares comuns estabelecidos, eram nocivos. Há em mim outro elemento infantil que tem que ver com preguiça, com não me apetecer ouvir esta pessoa e ir-me embora...Tive algumas más classificações.

Tanto quanto li sobre si, a filosofia surgiu de um ‘não’. Porque a arte e a dança estavam lá antes.
Surge de um não, da impossibilidade de fazer o que queria (que era dançar), por razões de saúde. A filosofia interessava-me por não saber o que era. E quis decifrar esse enigma, que persistiu depois de acabar o curso. Um ano antes tinha começado a dar aulas, porque tinha de trabalhar. Não fui dar aulas por ser a minha finalidade na vida, que aliás não sabia qual era — provavelmente era andar ao deus-dará. Não gostava de dar aulas, mas as minhas filhas nasceram e algo mudou. Quando depois concorri para a Universidade, já gostava.

E descobriu o que é a filosofia? Há não muito tempo admitiu que não podemos estar certos de poder explicá-la, com alguma tranquilidade, a alguém.
Quem se dedica à filosofia está na disposição muito precoce de considerar que a vida é um enigma. Não estou a dizer que outros seres humanos não estejam nessa disposição, pois a filosofia desenvolve qualquer coisa que existe em todos os seres humanos. Se calhar, a certa altura, percebe-se que o enigma não pode ser decifrado.

É uma expectativa que não pode ser preenchida?
Walter Benjamin chama a isso o “ideal do problema”. Ou seja, aquela pergunta que não podemos fazer acerca de todas as perguntas e respostas que a filosofia se entretém a dar desde que começa. E, na verdade, quem começa a estudar filosofia começa sempre por se perguntar — e acabará sempre com essa pergunta — ‘o que é a filosofia’. O que significa que é um saber extremamente instável.

Ainda faz essa pergunta?
Claro que sim. A filosofia tem que ver com a dimensão crítica, essa dimensão de avaliação e de interrogação que faz com que o óbvio deixe de o ser. Tem que ver com o que acontece ao ser humano quando é abandonado pela infância. A filosofia é um desenvolvimento de experiências da adolescência, como não ter pais, como duvidar se a vida é real. Essas perguntas fazem-se não aos seis ou sete anos, mas aos 15 ou 16. E prendem-se com a falta de fundamento da compreensão, como dirão alguns filósofos, ou com o mistério da vida, como dirão outros. Porém, como diz Kant, na filosofia nunca se começa com a definição. No melhor dos casos, acaba-se com a definição.

Como o adolescente, a filosofia aspira a começar. No entanto, não há tábua rasa, constrói-se sobre ruínas.
É sempre um recomeço. Há uma afirmação, uma espécie de grito, que vem do Qohélet (o Eclesiastes): “Nada de novo sob o sol”. Durante anos interpretei-a como ausência de novidade, de reconhecimento da beleza de cada instante que se repete. E rejeitei a afirmação. Hoje penso que esta frase quer dizer que a vida é dor. Portanto, não há começo, há recomeço, e no recomeço há o estar desperto. Há muita destruição na filosofia. Destruição de convenções, de lugares comuns, de ideias preconcebidas e até de ideias muito bem concebidas às quais resistimos. Se essa destruição não for acompanhada de um ímpeto para uma aceitação qualquer, a filosofia torna-se hostil. Platão é hostil, não quer aceitar a vida como ela é. Quer corrigi-la.

luís barra

Num seminário disse que, para compreendermos a nossa existência, temos de compreender as suas condições concretas. Isto é o oposto do que se pensa da filosofia: uma disciplina que paira acima do concreto.
É verdade. Por um lado, há na filosofia esse momento destrutivo e analítico, sem o qual não há filosofia. E é por isso que muitos textos filosóficos parecem ilegíveis — é como querer ler uma partitura e não saber música. Mas há também, por exemplo em Wittgenstein, a noção de que o significado das palavras não pode ser compreendido antes de termos olhado com muita atenção para os seus usos. O significado abandonado a si próprio é opaco.

Mas qual o papel do filósofo? Há causas que a mobilizam, como a morte assistida ou o acordo ortográfico (AO).
Sou a favor da morte assistida e contra a tentativa de impedir a liberdade de cada um em relação à sua própria morte. Estamos numa situação do ponto de vista tecnológico que faz com que aquilo que já não é vida humana seja prolongado de maneira indecente. E quem está prestes a ficar numa situação dessas deve poder dizer que não o quer. Não há nenhuma crença religiosa que se possa erigir em juiz da decisão de uma pessoa que não tem essa crença.

E porque é se opõe com tanta veemência ao AO?
A ortografia não é a língua. Quando era pequenina havia muitos analfabetos que falavam um português maravilhoso. Porém, a língua não está separada da escrita. Nas “Investigações Filosóficas”, Wittgenstein diz: “Pensa que a imagem virtual da palavra nos é num grau semelhante tão familiar como a auditiva.” No AO, esta familiaridade foi quebrada por razões enganadoras. Convém não esquecer que se trata de um acordo, um compromisso de unificação do que não é unificável. E é um disparate, porque apregoa uma unificação que ele próprio não consegue: o próprio AO admite grafias diferentes para as mesmas palavras. Além disso, pela primeira vez, uma reforma ortográfica tem consequências no modo de dizer as palavras. O ‘p’ em ‘recepção’ tem uma função elucidativa da vogal aberta. Podia ter-se substituído por um acento grave no ‘e’, mas não se fez. A tendência do falante de português — não do brasileiro — será fechar essa vogal. A ortografia modificará a leitura e a linguagem falada. E já gera confusões, como vir no “Diário da República” escrito ‘fato’ em vez de ‘facto’.

Isso é ignorar o próprio AO...
Estou em crer que 99% das pessoas que o aplicam nunca o leram. O Frederico Lourenço, alguém que admiro, escreveu que sempre houve mudanças na ortografia e que já se perderam vestígios etimológicos. Tem razão. Mas há uma coisa que se chama memória. E porque muitos vestígios se perderam temos de anular os que restaram?

Isto leva-nos ao seu novo livro, onde escreve: “Primeira regra: continuar. Segunda regra: começar.” A ideia, muito presente em si, de que nada vem do nada.
Essas regras vêm de um autor francês que estimo imenso e caiu no esquecimento, chamado Alain. E são mesmo regras para mim. Há uma história de infância que conto num dos meus livros. Eu brincava numa rua íngreme por trás da minha casa. Um dia subi-a, desci e fiz uma coisa que nunca tinha feito, que é olhar para o horizonte. E vi que estava lá o rio Tejo. Foi uma experiência muito forte, a de sentir que aquilo estava lá antes de o ter visto. Onde eu estava a começar, estava a continuar. Nós só começamos depois de continuar.

Numa conferência dizia que o leitor é aquele que relê. Que o ‘não entendo’ é não reconhecer que “a opacidade encontrada é a matriz de onde se tem de partir para voltar a ler”. É assim?
E o maior engano é a empatia. A empatia é um instrumento de familiaridade imediata que pode impedir a compreensão. Sentimos tanto que aquilo é assim que não fazemos nenhuma análise. E a leitura inclui esse momento destrutivo da análise, a decomposição do que se tem. Enfrentar a opacidade implica destruir o texto.

Alberto Manguel contava que só conseguiu ler “A Divina Comédia” aos 60 anos, após muitas tentativas goradas. Quando é que se está pronto?
Tem que ver com esperar a boa ocasião. Tenho muitas experiências semelhantes a essa. Também não li Dante quando era nova.

Mas leu Nietzsche insistentemente, mesmo sem perceber. Continuava.
Li muito nova “A Origem da Tragédia” e “Assim Falava Zaratustra”. Era como provar um vinho estranho, uma comida desconhecida, que amargava a boca. Sem conseguir parar. Depois só o voltei a ler anos mais tarde. Em relação à “Divina Comédia”, já tinha 50 anos quando li a edição do Vasco Graça Moura. Fiquei absolutamente varada e não sei se teria conseguido lê-la mais nova. Não se sabe quando estamos prontos. Sei que estamos prontos para continuar e depois começar quando uma coisa nos toca. E isso não é empatia, é sentir que aquilo vai entrar na nossa vida. Por vezes, entrar num texto é entrar num descampado. Temos medo, mas continuamos.

Disse que há filósofos que lhe eram adversos e que não quis conhecer bem. Quais são?
Um deles é Heidegger. Li-o na minha juventude com entusiasmo devorador, até sem saber alemão. Eu sei alemão, mas não sou sabida em alemão. Traduzo porque quero compreender melhor os textos e porque traduzir é o que me calha bem.

Esse gesto de tradução descreve-a, segundo Fernando Gil [que orientou a sua tese sobre Goethe].
Ele tinha razão. Estou sempre a traduzir, é algo assim como dar nome.

“Deixar cair isso de ser quem se é na língua materna”. Palavras suas.
É encontrar o ‘ele’, o anónimo, em nós.

E o que não encontrou em Heidegger?
É manipulador e eu detesto ser manipulada. Nunca poderei compreender porque é que a Hannah Arendt se apaixonou por ele, mas a paixão não é para se compreender. Ele é uma droga de alta potência, porque quem é apanhado não a larga. Transformou todos os filósofos gregos em alemães. Absorveu-os como se fossem ele: um homem do século XX, que considerava que o povo alemão tinha um destino e que a filosofia era o cumprimento desse destino. Os gregos são instrumentos dessa construção.

E quais os que quis estudar? Nas suas aulas costumava falar de pertença, de família.
O primeiro foi Heraclito, enigmático, desprezador da multidão e convencido de que qualquer um pode ir ter com a profundidade da sua vida. O segundo, Giordano Bruno, homem do Renascimento, mandado matar por imaginar mundos infinitos. O terceiro, Kant, foi o descobridor do espaço e do tempo como intuições da nossa sensibilidade, uma revolução coperniciana, o mais honesto dos filósofos, depois de Espinosa e antes de Nietzsche. Todos os outros vieram na sequência destes, sabedores dos limites humanos, nenhum vilipendiando esses limites: Arendt, Walter Benjamin, Wittgenstein, Nietzsche, Fernando Gil, Giorgio Colli. Broch, que não é filósofo, mas um grande pensador — tal como Dante.

Porque se dedicou às relações entre a filosofia e a literatura?
Porque adoro literatura e a filosofia é um género literário, inventado por Platão. Que se manteve, apesar de Aristóteles ter ido por outros caminhos. Sem diálogo vivo a filosofia enfraquece, o que se escreve perde massa muscular. Por isso é que a vida escolar é tão importante na filosofia. Hoje está reduzida a um espaço muito pequeno, mais ainda pelas facilidades tecnológicas que ajudam a criar falsas comunidades, em que as pessoas não estão à frente uma da outra. Não estar à frente uma da outra arranca o elemento tácito. Os gestos, os silêncios, ou o que não está a ser dito mas ambos sabemos.

Disse que a filosofia perdeu audibilidade. Não que perdeu voz, mas sim as condições para ser ouvida.
A comunidade filosófica hoje é quase estritamente académica. O que significa que temos de proteger a filosofia na escola, porque é a única possibilidade de diálogo e de argumentação vivos. Ao mesmo tempo, como a escola é a única reserva que a filosofia tem, perde imenso. Porque a relação filosófica não se compadece com o sistema de avaliação e de organização das universidades.

E porque a filosofia leva tempo?
É um modo de vida que segundo os moldes do nosso ensino começa a ser exercitado cedo demais. Plotino pensava que ninguém se devia dedicar à filosofia antes dos 28 anos. Na verdade, nós vivemos muito isolados, e todos os meios de aceder ao outro de maneira artificial aumentam o isolamento. São indutores falsos de proximidade espacial, e o espaço não é indiferente. O espaço da internet é uma coisa, este escritório é outra. A comunicação hoje restringe-se a um meio que anula o espaço como realidade qualitativa.

Permita-me insistir no papel do filósofo. Alguma vez pensou que a Europa estaria na situação em que está?
Não suporto o modo como os governantes portugueses têm agido diante dos poderes da União Europeia. Comportamo-nos como escravos e fomos pensados para escravos. Não sei se a não adesão nos teria levado até ao ponto em que estamos. Sei é que a agricultura foi dizimada e as pescas controladas de forma doentia, que as fábricas de tecidos entraram em colapso. Os europeus, como bons europeus, compram os tecidos às vítimas chinesas e indianas. E alegremente falamos de tolerância e direitos humanos, mas praticamo-los pouco. A questão dos refugiados é muito complexa. Uma coisa é compaixão e a compreensão de que a situação dos refugiados foi criada por uma guerra da qual eles não serão responsáveis, outra é deslindar as origens dessa guerra: lá dentro estão franceses, americanos, alemães, italianos, russos... Não tenho ilusões, nem percebo porque é que a Europa, em termos de política externa, é superior a qualquer outro continente.

Percorremos vários assuntos, o que não está longe da sua visão da filosofia enquanto disciplina que interliga, que estuda as relações. “Rebuçados Venezianos”, o próximo livro, não tem que ver com isto?
A filosofia está sempre à procura dos seus conteúdos, pode fazer-se filosofia com qualquer coisa. “Rebuçados Venezianos” é o título de um texto sobre a obra de Luísa Correia Pereira, uma pintora de quem fui amiga. E este texto é póstumo — ela não o pôde ler. Uma vez, a Luísa comprou em Murano uns rebuçados feitos de vidro e ofereceu alguns ao Jorge [Molder, o marido], que os fotografou para a série “The Secret Agent”. Entretanto, ela fez um pequeno óleo chamado “Rebuçados Venezianos”, que nós comprámos. É um nome que implicava uma série de nexos. É como uma discussão entre mim e ela — em que ela ganhou. Entre a arte e a filosofia, a arte ganha.

Diz isso com convicção e alguma tristeza.
Vejo muito fracasso na vida. Há pouco tempo comprei um livro da Arendt com poemas dela. E há ali um poema que me impressionou imenso, em que ela fala de uma insatisfação inesperada consigo própria. Eu partilho dessa insatisfação.

Essa insatisfação, o que é?
Não sei. Deveria corresponder a qualquer coisa que não consigo fazer ou alcançar. Mas não sei o que é que não consigo alcançar.

Será a filosofia?
Pode ser a filosofia.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 maio 2016