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Elas é que ficam presas

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Ele chegou a pendurá-la pelas pernas da varanda do segundo andar. Foi apenas um dos momentos em que Liliana julgou que não tornaria a ver os filhos. Não consegue precisar quantas vezes foi vítima do homem com quem acreditou iria ter uma vida feliz, uma família feliz. Quando era agredida, esforçava-se por tentar esquecer e acreditar que iria ser a última vez. Nunca foi

“Os primeiros tempos foram maravilhosos... ”, quando recorda o início da relação, não consegue evitar as lágrimas que lhe travam as palavras. Pára, pede desculpa e continua. A primeira agressão aconteceu ao fim de três anos. Já o filho mais velho tinha nascido. “Ele chegou a casa alcoolizado e não gostou de eu estar a fazer perguntas. Deu-me uma chapada.” Ela achou que se calhar a culpa tinha sido dela, que alguma razão ele teria, e não imaginava o tormento que viria depois. Murros, pontapés, chapadas, puxões de cabelos. “Eu não sei onde é que ele ia buscar aquele ódio por uma pessoa que fazia tudo por ele, que estava sempre presente na vida dele. Não sei, era um bicho, era uma coisa fora do normal, eu não consigo descrever.”

A desconfiança já tinha dado sinais mas disparou. “Ficava sempre com ciúmes que alguém estivesse a olhar para mim. Porquê, não pode ser, tu conheces, e tu já estiveste, já tiveste outros, andas à procura de outros homens... Começou a ser mais obsessivo quando eu não estava grávida”. Diz que durante a gravidez do segundo filho não deixou de ser agredida. Depois do nascimento, emagreceu muito, perdeu o apetite.

“Ele achava que o meu emagrecimento era para provocar e para chamar a atenção de outros homens e tornou-se mais obsessivo.” Teve de deixar trabalhos porque ele fazia escândalos, sempre a acusá-la de ter amantes, sempre a controlar-lhe telemóvel e mensagens. Não havia razões mas ela por vergonha acabava por se despedir. Chegou ao ponto de uma vez num dia festivo o marido ter insistido com ela para que dançasse com um colega que a convidou para dançar. “Eu não queria mas fui porque era a vontade dele. Só que a seguir à vontade dele veio a discussão, porque eu fui dançar, porque estava interessada no colega dele. Deu-me um empurrão, levou-me para trás do carro e deu-me dois socos na barriga.” Dessa vez contou a uma prima mas nunca contava a ninguém.

“Eu tratava sempre de esconder as coisas, apesar dos hematomas e dos ferimentos. Nunca me sujeitaria a ir ao hospital e a vergonha, as outras pessoas saberem o que eu me sujeitava, não nunca”. Maquilhava as marcas e quando eram mais visíveis pedia um dia de férias. A mãe apareceu-lhe uma vez de surpresa em casa, “tinha uma perna toda negra e tive que dizer que tinha caído”. Além da prima e do marido da prima, os vizinhos também sabiam o que se passava porque ouviam os gritos, quando ele não conseguia tapar-lhe a boca enquanto a espancava. Mas ela implorava que ninguém se metesse - “iam bater lá a porta, gritavam a dizer que iam chamar a polícia e que iam pedir ajuda e eu pedi sempre por tudo para não o fazerem” - e ninguém se metia. Ela achava que o problema era do álcool mas hoje já não pensa assim.

Liliana é um dos testemunhos do programa “E Se Fosse Consigo?” sobre violência doméstica. O crime é público mas quando a agressividade sobe de tom até que ponto alguém é capaz de se intrometer? No meio da rua, um homem maltrata a mulher à vista de quem passa. São dois atores mas reproduzem a realidade. Quantos estão dispostos a parar, a fazer alguma coisa?

Enquanto os três filhos eram pequenos, Liliana fechava-os no quarto para não os sujeitar à violência mas quando cresceram não conseguia evitar que eles vissem o pai transformar-se no carrasco da mãe. “Eles agarravam-se a mim a chorar, inclusive o mais pequeno, que tinha muito medo. O mais velho quando começou a ter tino começou por dizer que isto tinha de acabar e se eu não conseguisse meter um ponto final, ele, além de contar, ia fazer frente ao pai. Eles tinham muito medo do que me podia acontecer e que eu não acordasse mais.”

Os filhos viram-na inconsciente mais do que uma vez. “Eu não sei o que acontecia, se ele pensava que realmente tinha acabado comigo, se achava que por eu ter desmaiado já tinha batido o suficiente, porque quando eu acordava quase sempre ele ou não estava em casa, e eu era acordada pelos meus filhos, ou estava a dormir como se não se tivesse passado nada.”

Foi o filho mais velho que pôs mesmo um ponto final. Um dia, durante uma discussão, ela mais uma vez pôs-se à frente dos filhos para evitar que fossem agredidos e foi ela o alvo da tareia. O filho foi buscar uma faca à cozinha para enfrentar o pai e no dia seguinte ela saiu de casa com os três filhos. Mas não foi o ponto final. Andou escondida, aterrorizada. Ele fazia ameaças pelo telemóvel, fez-lhe ameaças no local de trabalho, junto da casa dos pais, “que me matava, que me ia partir o pescoço, que eu ia ficar sem os meus filhos e que me ia enterrar num buraco muito fundo.”

O tribunal sentenciou três anos de pena suspensa e decidiu mantê-lo afastado dela, com pulseira eletrónica. Primeiro a 350 metros de distância, depois a 500. A medida foi revista porque ele não cumpriu. Mas, ao fim de mais de dois anos, o aparelho ligado à pulseira continua a apitar, a dar sinal de que ele já foi longe demais e está perto demais. Liliana nunca sai sozinha para lado nenhum. Vive refém, do medo e do desgosto. Como se estivesse presa.

Depois do divórcio, o filho mais novo ficou com o pai. Ela pensava que era uma forma de apaziguar a guerra. De comum acordo, ficou estabelecido que os filhos mais velhos acompanhariam o irmão entre a escola, a casa da mãe e a casa do pai. Hoje, o arrependimento toma conta dela. Há dois anos que não vê o filho. O incumprimento já foi relatado ao tribunal que decidiu que teria de haver encontros da mãe com o filho com terceiros a mediar. Também nunca aconteceram. O menor não tem contacto nem com a mãe nem com os irmãos. E o pai também prescindiu do contacto com os outros filhos. “Eu não vou desistir nunca do meu filho, não vou deixar de lutar porque ele vai ser sempre o meu filho e eu amo-o tal e qual como amo os outros. Não há um único dia em que não me lembre dele.”

A história de Liliana é como se fosse passada a papel químico das histórias de outras mulheres. Também ela se calou durante demasiado tempo, permitiu abusos durante demasiado tempo. A justiça só considera o final da história, a partir de quando ela decidiu dizer basta e apresentou queixa. Por isso ele teve uma pena suspensa. Não tinha antecedentes. Agora não cumpre e faz a pulseira apitar mas isso também não é suficiente para a justiça usar a mesma mão pesada que ele usou para espancar a mãe dos filhos. A lei portuguesa trata a liberdade como um valor supremo. E é. Mas nos casos das vítimas de violência doméstica, para a justiça parece que esse valor diminui. E se fosse consigo?

A maioria das vítimas de violência doméstica são mulheres. A violência no contexto do casal é física, psicológica, sexual. Desde o início deste ano já levou à morte onze mulheres. Este é o tema de hoje do programa “E Se Fosse Consigo?”, às 20h45 em simultâneo na SIC e na SIC-Notícias, seguido de debate na SIC-Notícias.