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Velhos amigos

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António Vitorino de Almeida

antónio pedro ferreira

Se tudo começa na infância, então os brinquedos ditaram parte do que estas senhoras e senhores são hoje. Pouco tempo decorrido sobre mais um Dia Mundial da Criança, republicamos um artigo publicado originalmente na revista do Expresso de 7 de março de 2009 no qual várias figuras públicas regressavam ao tempo em que o mundo era só o que a sua imaginação queria

Teresa Gens (texto), António Pedro Ferreira (Fotos)

António Vitorino de Almeida

O macaco João Francisco - hoje mais farrapo que macaco - é um companheiro de vida para o maestro António Vitorino de Almeida. Embora pareça um brinquedo, e lhe tenha sido oferecido como tal, o macaco, cuja razão do nome o maestro já não recorda, não é o seu brinquedo mais querido, simplesmente porque nunca o encarou como tal.

É um companheiro, sempre o foi. Estava ao seu lado durante o estudo, sentava-se a seu lado quando tocava piano, estava sempre lá. Companheiro até nas brincadeiras com o campo de futebol fabuloso, esse sim, lembrado como o brinquedo mais especial.

É um companheiro, sempre o foi. Estava ao seu lado durante o estudo, sentava-se a seu lado quando tocava piano, estava sempre lá. Companheiro até nas brincadeiras com o campo de futebol fabuloso, esse sim, lembrado como o brinquedo mais especial.

Aliás, João Francisco era ponta de lança na equipa de António, que não era nem o Benfica nem o Sporting, mas os Favas. O porquê das coisas também aqui falha, diz o maestro. Na verdade, os Favas jogavam em amplo campo de futebol, sempre em construção, até hoje, obra inacabada apenas comparável à Sagrada Família, em Barcelona, ou à portuguesa obra de Santa Engrácia. Com os primos e amigos, este foi o palco de jogos e campeonatos inesquecíveis.

Maria Gambina

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

A Tucha, a Nancy ou a Leslie ocupavam, certamente, lugar no quarto de brinquedos mas só a Cristininha tinha uma aura que enchia o coração da pequena Maria. Maria Cristina batizou com o seu nome a mais preciosa das suas bonecas. Trocada por algumas pesetas num El Corte Inglés madrileno, Cristininha não falava castelhano, mas sim a linguagem universal do choro e do riso.

Solitária nas longas horas de brincadeira, Maria é o exemplo perfeito de como a brincadeira na infância colou com o que viria a ser a vida de adulta. A boneca tinha cama própria, cadeira de passeio em seu nome e roupeiro bem recheado de vestes criadas, em exclusivo, para ela. A assinatura da designer de moda Maria Gambina terá começado por esta altura. Tudo acontecia num pequeno ateliê de costura de roupa para criança, pertença da mãe. Os retalhos que sobravam, era certo, davam em saias ou blusas para a Cristininha, que a acompanhava, religiosamente, para todo o lado.

Aos 39 anos e com uma filha, Gambina diz que o seu mundo perfeito continua a ser, mais ou menos, o mesmo: cuidar, ser mãe e criar roupa num ateliê lá em casa...

Estela Barbot

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Numa viagem ao espaço, quem sabe que sorte de aventuras podem acontecer? Mas nada melhor que uma experimentada astronauta para contar. Tudo começava com uma simples caixa de aguarelas. Azul para levantar voo, amarela para reclinar o banco, branco para abrir a vigia, rosa para aterrar, laranja para abrir a porta que dava acesso a outras galáxias.

Bem, não necessariamente assim, mas parecido. “Transformava a caixa em botões e criava uma espécie de filme de ficção científica”, conta Estela Barbot, empresária e ex-administradora do Banco Santander de Negócios Portugal. Talvez por isso tenha alimentado o desejo de cursar física nuclear. Talvez fruto da educação rígida, que diz ter tido, e de uma infância muito isolada, que recorda com um nozinho na garganta, tudo funcionava como passaporte e fuga para uma liberdade maior. “Era uma necessidade minha, de me libertar, de sair.”

A sua caixa de aguarelas, com tampa ornada com cowboys, era a passagem secreta para um reino onde não existiam as rédeas que, amiúde, freavam a menina educada que tocava piano e falava francês.

Guilherme de Oliveira Martins

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Tinha outros brinquedos, é certo, mas os olhos só faiscavam de contentamento ante um livro novo para descobrir. Desde que aprendeu a ler, com seis anos, era, invariavelmente, o que pedia quando a pergunta lhe era feita em vésperas de Natal ou de aniversário. Na altura, era já uma microbiblioteca, a sua, o espaço que achava mais encantador e encantado na casa de Campo de Ourique. “A Odisseia”, numa versão infantil, foi um dos primeiros a ser lido por Guilherme.

Este é, sem pestanejar, eleito o brinquedo mais querido da sua infância e aquele que guarda na memória como o mais especial. Ofereceu-lho, pelo Natal, o avô Francisco, atento ao apego que o neto tinha aos livros.

Ainda hoje o ex-presidente do Tribunal de Contas recorda a “descoberta fascinante que fez nesse livro da mitologia grega”, a da importância das viagens como oportunidades de descobrir a vida e o mundo. Hoje é um devorador de páginas escritas, já superou as 14 mil obras na sua biblioteca. O gosto, esse, é o mesmo que tinha o miúdo de seis anos.

Fernando Seara

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

O Tó Rique e o Ferrari eram presença habitual na casa de Fernando, em Viseu. Colegas da escola e amigos do peito, eram parceiros na vida e no futebol. Com eles partilhava tudo, menos a bola.

Há relatos de que, quando o esférico tocava para além da conta nas redes (imaginadas) da baliza da sua equipa - religiosamente o Benfica -, lembrava aos presentes que a bola era sua propriedade e, portanto, arrogava-se o direito de terminar por ali com a partida.

Eleitos ex aequo os dois brinquedos favoritos, entre os cinco e os oito anos, à bola juntava-se uma trotinete. Presente de Natal do avô materno, Américo, terá sido comprada no Porto ou em Lisboa e recebê-la fez aquele coração encarnado sair do seu compasso habitual.

Jogava à bola quando podia, na rua mas também em casa, onde havia um pátio espaçoso. A mãe, menos adepta das temáticas do futebol, fazia-o ler e Fernando gostava dos Cinco e dos Sete. Mas a bola, essa, ficou para sempre o seu brinquedo favorito. “Ainda hoje, apesar da barriga, continuo a jogar”, conta o presidente da Câmara de Sintra e comentador desportivo.

Francisco Moita Flores

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

As cigarras cantavam e fazia-se noite na planície. O pai ainda não tinha regressado ao Monte da Defesa de São Brás, no concelho de Moura, quando a família Moita Flores troca as boas noites. Chega a casa tarde terminando a jornada que o tinha levado à Feira de Gado, no Ribatejo.

Trazia um presente, como sempre, para o Francisco. Caminhou, pé ante pé, até à cabeceira do filho e ao seu lado deitou o camião de madeira. Calor e sono leve, talvez, despertaram-no, mas Francisco não se achou acordado. Aquilo era um sonho! O camião, tantas vezes pedido, tantas vezes lembrado, era agora seu. O miúdo não voltaria a dormir naquela noite e já não o largou mais. Só queria sair, pular, mostrar. Tinha uns sete anos e “uma paixão cega por aquele brinquedo”. “Quem visse acharia que eu seria camionista”, diz Moita Flores, ex-presidente da Câmara de Santarém.

Vivia num monte que era o maior jardim de infância que alguém poderia ter tido. Eram tempos de partilha e pouca fartura, e o estimado brinquedo era usado com os amigos, filhos de trabalhadores que também moravam no monte. Depois das aulas, os TPC eram em casa da mestre-escola. Depois... brincar, naquela terra sem horizonte. “É o tempo que guardo com maior saudade.”