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Tirar o útero é cada vez mais a última opção

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Ana Luísa esteve para perder o útero, mas um tratamento conservador permitiu-lhe engravidar

Rui Duarte Silva

Estudo revela que idade em que histerectomias são realizadas está a subir e o número de cirurgias a diminuir

Christiana Martins

Christiana Martins

em Turim

Jornalista

Se Ana Luísa Cristo tivesse aceitado a primeira opinião médica que ouviu, não teria agora o segundo filho no colo. Já Maria Isabel Carvalho é um exemplo dos milhares de mulheres que todos os anos se submetem à mais comum das cirurgias ginecológicas, que, pela primeira vez, foi alvo de uma investigação científica de âmbito nacional. Em 2014 foram realizadas 9326 histerectomias nos hospitais públicos e entre 2000 e 2014 foram 166.177 mil as mulheres que perderam o útero em Portugal.

Os miomas uterinos afetam cerca de dois milhões de mulheres em Portugal, 40% das quais em idade reprodutiva, e são a principal causa das histerectomias. “O que o estudo demonstra é que há cada vez mais mulheres em Portugal a conservar os úteros”, resume Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG) e coautora da investigação, apresentada há duas semanas em Turim, no Encontro Europeu do Colégio de Obstetrícia e Ginecologia, e ontem aprofundada numa reunião da SPG em Braga. Em 15 anos, o número de histerectomias em Portugal diminuiu 19,4%.

“Havia casos de úteros praticamente normais que eram retirados porque as mulheres sofriam de hemorragias devidas à presença de miomas”, explica a médica. A tendência que o estudo comprovou é que nos últimos anos a retirada dos úteros está a ser aplicada cada vez mais apenas às mulheres que sofrem de patologias oncológicas ou prolapsos uterinos (quando os úteros saem da posição original, tornando-se externos).

Mas se a tendência pela manutenção do órgão acaba por não ser uma completa surpresa, as investigadoras ficaram bastante admiradas com algumas das evoluções regionais encontradas. Com especial destaque para a maior redução nacional, verificada no Algarve, com uma diminuição de 33,5% em 15 anos. Em segundo lugar surge a região metropolitana de Lisboa (-28,9%), mas onde ainda continuam a realizar-se muitas histerectomias é no norte do país, com uma diminuição verificada no estudo de apenas 4,7%.

Portugal melhor do que EUA

“Em todos os países onde este tipo de estudos foi feito, verificaram-se grandes desequilíbrios regionais, nem sempre fáceis de explicar, podendo-se dever a diferenças de técnicas empregadas ou até à diminuição de cirurgias em hospitais públicos acompanhada de uma maior realização nos privados, mas é importante que se perceba a real razão destas diferenças”, diz a médica. A investigação também comprova que Portugal apresenta menores taxas relativas de histerectomias do que países como a Alemanha ou os Estados Unidos.

Aos 35 anos, Ana Luísa Cristo é um exemplo de milhares de mulheres em Portugal, confrontada com recorrentes perdas de sangue teve de decidir sobre se aceitava submeter-se a uma histerectomia. Há dois anos, numa consulta de rotina, descobriu que tinha três miomas uterinos. O mais pequeno com 4,5 centímetros de diâmetro e o maior com 8,5 centímetros. Cenário que inviabilizava uma segunda e desejada gravidez. E qualquer outra no futuro: a solução seria a retirada do útero.

Uma segunda opinião médica confirmou o veredicto. A cirurgia para a retirada dos miomas chegou a ser marcada e Ana Luísa foi avisada de que poderia acordar sem útero. A previsão era de que a intervenção demorasse uma hora, mas levou cinco porque descobriram mais miomas para além dos três já conhecidos. “Pensei que tivesse ficado limpa”, conta a funcionária administrativa.

Seis meses mais tarde, numa ecografia de controlo, a médica disse que o útero de Ana Luísa estava “cheio de miomas”. Só à terceira opinião médica encontrou o que procurava: se fizesse um tratamento com acetato de ulipristal poderia preservar o útero e tentar engravidar. Oito meses de tratamento e três semanas depois estava grávida.

A história de Maria Isabel Carvalho é totalmente distinta. Aos 47 anos, começou a lidar com hemorragias e a formação de coágulos. Com a questão da maternidade resolvida — tinha um filho adulto — e desejosa de resolver o desconforto causado por dois miomas uterinos, optou pela retirada do útero. “Foi um alívio e representou uma importante melhoria de vida”, explica, passados três anos da cirurgia.

É esta melhoria de qualidade de vida que justifica que ainda sejam muitas as mulheres a pedir uma histerectomia. “Pediam-nos que retirássemos tudo para resolver as hemorragias e evitar problemas futuros”, garante a presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. Mas Fernanda Águas diz que a situação mudou e que a tendência atual é pedirem a conservação do órgão: “E o estudo mostra esta alteração na mentalidade da sociedade.”

Associada à diminuição de histerectomias está a redução de custos para o Serviço Nacional de Saúde, ao evitar-se a realização de uma grande cirurgia e o tempo de internamento. “Em geral, uma mulher precisa de um mês a cinco semanas para recuperar de uma histerectomia, mas se a solução for um tratamento com medicamentos ou a retirada do útero por via vaginal ou através da abertura de dois orifícios no abdómen (laparoscopia), a recuperação leva apenas cinco dias”, sublinha a médica.

* A jornalista viajou a convite da Gedeon Richter