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#Humanidade. E os animais são eles?

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HARAMBE. O gorila não é a única vítima desta história

FOTO CINCINNATI zoo

Numa tarde de março há 36 anos a minha mãe estava sentada comigo em cima da cama do quarto dela a dar-me biberão. Tinha 26 anos, estava doente com tuberculose e com dois filhos pequenos: eu, com 7 meses, e a minha irmã Rute, que acabava de fazer dois anos. Não havia dinheiro para amas, nem para creches. O meu pai trabalhava quase de sol a sol e a minha mãe ficava em casa a cuidar das crianças. Mesmo quando estava doente.

Naquela tarde que podia ter sido fatídica, a Rute caiu na longa escadaria de pedra quando ia ter com o meu pai ao quintal. Ao ouvi-la berrar, a minha mãe colocou-me rapidamente no meio da cama, com uma almofada aos pés para não me mexer muito, e correu, desesperada, para ver como ela estava. Nem um minuto depois, era o meu choro que se ouvia. Então, a minha mãe deixou a Rute com o meu pai e correu, escada acima, até ao quarto. Ao chegar lá, viu-me rodeado de chamas. Tinha ficado sozinho poucos segundos, mas os suficientes para, com os pés, empurrar a almofada para cima de um aquecedor.

Sobrevivi, com queimaduras no joelho e na canela da perna direita. Não me impediram de, aos três anos, saltar a janela, atravessar toda a cidade, incluindo a linha de comboio, e ir a casa da minha avó reclamar a fatia de bolo que ela me negara no dia anterior. Lembro-me bem das chineladas que levei nesse dia, fechado na casa de banho, com o meu pai do lado de fora da porta a rogar-lhe "Oh Arminda, já chega! Deixa lá o miúdo". Acreditem, nunca mais fugi de casa.

Os meus pais são extraordinários. Criaram três filhos sozinhos, sem qualquer apoio. Deram-nos tudo que precisávamos para sermos bem-sucedidos na vida, ensinaram-nos a bondade, a generosidade, a humanidade. Lembrei-me muitas vezes deles esta semana, a cada comentário insano que li nas redes sociais sobre a mãe do menino de três anos que caiu no fosso de um gorila, no Zoo de Cincinatti, obrigando a que os tratadores abatessem o animal.

Nos dias que se seguiram à triste morte de Harambe, o Facebook e o Twitter encheram-se de peritos em zoos, comportamento de gorilas e, sobretudo, em parentalidade. Muitos não têm sequer filhos, mas apressaram-se a condenar a negligência daquela mãe e, imagine-se, até o miúdo (!). Os argumentos são sempre simplistas: a mãe devia ter explicado ao rapaz que não podia passar para lá da proteção (o que ela fez, segundo testemunhas); o rapaz tinha idade suficiente para saber que não o devia fazer; e, em qualquer caso, a mãe nunca poderia distrair-se e deixar que o puto caísse no fosso.

Derramado o sangue do gorila, milhares pediram a cabeça da mãe. Depressa surgiu uma petição online, reclamando que os pais da criança fossem responsabilizados pela morte do animal. Uma mulher que partilha o mesmo nome da mãe do rapaz recebeu ameaças na internet. A verdadeira mãe defendeu-se no Facebook, numa conta entretanto desativada, lembrando que os "acidentes acontecem". Mas nada disso parece abrandar a manada enfurecida, pronta a atropelá-la. Há quem queria que os serviços de proteção de menores a investiguem. E se isso levar a que lhe retirem os filhos e se destrua uma família, assim seja. Que não se distraísse no zoo.

Sorte tiveram os meus pais que não nos criaram na época em que os julgamentos se fazem nas redes sociais, sem presunção de inocência. Quantos peritos de pacotilha se apressariam a fazer juízos sem perceber o que realmente se passou? A morte de Harambe é um acontecimento trágico, mas não será vingada ao destruir a vida de alguém. Era bom que aqueles que pedem mais humanidade para os animais se lembrassem do que a palavra significa. E a praticassem mais vezes.

  • Há pessoas que conhecem as intenções dos gorilas e gostam de julgar, na praça pública, homens sensatos; há pessoas que não gostam de touradas porque matam os touros, mas não se importam com espetáculos onde pessoas são humilhadas; há pessoas que acham que a caça, a primeira das atividades humanas, deveria ser proibida. Há uma inversão de valores total, feita em manada sempre com o apoio das inestimáveis redes sociais.