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Quito: história colonial entre vulcões

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Capital do Equador guarda rico património cultural no meio de uma natureza exuberante

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Porta de entrada quase obrigatória do Equador, Quito merece, por si só, alguns dias de permanência. É seguramente uma das mais interessantes cidades da América do Sul. Não só por ter o centro histórico bem conservado — foi inscrito em 1978 pela UNESCO como Património Mundial — como também por ser o ponto de partida para quem gosta de caminhadas na natureza e de montanhismo.

A capital do Equador espraia-se por um extenso vale de mais de 30 km e está rodeada por uma majestosa paisagem andina onde imperam os vulcões Pichincha (4776 metros de altitude), Antisana (5704 m), Cotopaxí (5897 m) e Cayambe (5790 m).

Para quem vem do nível do mar, permanecer uns dias numa cidade a 2850 metros de altitude, percorrer a calçada das ruelas que sobem e descem e as amplas praças coloniais, acaba por ser uma boa forma de aclimatar o corpo à altitude. Pontos de interesse não faltam. Por exemplo, é obrigatório passear pela praça de São Francisco, dominada pelo monumental convento e igreja de São Francisco (foto 1). E não deixe de visitar a Capella del Hombre, criada por Guayasamín, lendário pintor equatoriano.

Muitas lojas do centro histórico já estão viradas para os turistas, mas quem quiser conhecer um comércio mais autêntico, aconselha-se o mercado de Santa Clara onde há imensa variedade de frutas, ervas aromáticas, artesanato (por exemplo, coloridos têxteis indígenas) e comida local.

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Se nos dois primeiros dias subir as escadas do hotel faz acelerar a respiração e provoca tonturas, depois tudo volta ao normal. Estamos aptos para testes físicos mais exigentes. Um bom desafio é apanhar o teleférico (foto 2) que sobe de 2900 metros a 4100 metros em 10 minutos, pela manhã cedo, quando não há nuvens. Depois de alguns momentos a contemplar o casario que serpenteia ao longo do extenso vale, o ar fresco da montanha convida-nos a subir pelo trilho que dá acesso ao topo do vulcão Pichincha. Uma caminhada desafiante que é feita por muitos locais e turistas.

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Outro bom exercício que testa a adaptação à alta montanha é uma visita ao vulcão Pululahua, extinto há 2500 anos. Fica a 17 km de Quito, já no hemisfério norte, e pode ir-se de táxi ou de autocarro. Passa-se pelo monumento Metade del Mundo (foto 3), que assinala a linha do Equador, chega-se ao miradouro de uma cratera de 5 km de diâmetro e de imponentes falésias de 400 metros de altura. No sopé avista-se uma fértil planície de campos geometricamente cultivados e uma pequena aldeia. Um oásis que terá resultado do colapso há milhares de anos do cone do vulcão. O desafio que se impõe é descer os 400 metros até à base, por um trilho, sabendo que depois é preciso subir.

De regresso a Quito, o visitante pode retemperar-se num dos diversos restaurantes no cosmopolita bairro de Mariscal e deixar-se tentar por um ceviche (peixe cru marinado em sumo de lima) ou pelo “seco de chivo” (um guisado de borrego) ou cuy assado (espécie de porco da índia). Depois, pode ser um bom programa passear pelas ruas que convergem na praça Foch e onde há inúmeras lojas de artesanato e animação noturna. Como souvenir, os fãs de chocolate não devem perder uma visita às lojas que vendem marcas equatorianas que ultimamente ganham concursos a nível mundial. Ao contrário das multinacionais do sector, praticam o comércio justo com os agricultores locais que lhes fornecem os frutos de cacau. Outra lembrança obrigatória é o panamá, porque estes belos chapéus são feitos no Equador e não no país que lhes dá o nome.

A linha do Equador

Pôr um pé no hemisfério norte e outro no hemisfério sul é um programa que muitos turistas e locais não dispensam. Deslocam-se em romarias ao monumento Metade del Mundo 3 que está transformado num autêntico parque temático onde não faltam lojas de bugigangas e fastfood. Curiosamente, a linha do Equador que foi marcada no solo afinal não é verdadeira porque os astrónomos franceses que fizeram as medições no século XVIII do planeta cometeram um “pequeno” erro de cálculo. Afinal, a verdadeira linha imaginária do Equador, que divide o planeta em dois, passa 240 metros a norte. Mas, se houver tempo (e orçamento) o Equador tem muito mais para ver. Dois exemplos: a vida selvagem da Amazónia e a biodiversidade das ilhas Galápagos.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 maio 2016