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Espião vai ser extraditado no fim de semana para Portugal

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Apanhado em flagrante a vender informações secretas da NATO em Roma a um espião russo, o agente do SIS Frederico Carvalhão Gil será interrogado em Lisboa na próxima segunda-feira

O Tribunal da Relação de Roma não hesitou em dar luz verde ao processo de extradição para Portugal de um espião português e um espião russo que foram apanhados em flagrante na capital italiana a traficar documentos classificados da NATO a 21 de maio. Os dois agentes secretos foram detidos no decurso de uma operação relâmpago inédita, montada pela Polícia Judiciária juntamente com o Sistema de Informações de Segurança (SIS), o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e o apoio das autoridades de Itália.

Frederico Carvalhão Gil, um agente secreto de 57 anos que trabalha para o SIS (Serviço de Informações e Segurança) há quase 30 anos e chegou a chefiar uma equipa de contraespionagem, optou por não contestar a decisão da justiça italiana e será, por isso, extraditado para Portugal já este fim de semana, assim que estejam cumpridas todas as formalidades.

A presença do espião português é aguardada na segunda-feira em Lisboa, para ser interrogado nesse dia pelos procuradores Vítor Magalhães e João Melo, responsáveis no DCIAP pela investigação em causa — batizada com o nome de Operação Top Secret —, e pelo juiz Ivo Rosa, do Tribunal Central de Instrução Criminal.

Indiciado por espionagem, violação de segredo de Estado, corrupção e branqueamento de capitais, Carvalhão Gil poderia ter recorrido para o Supremo Tribunal de Justiça italiana, mas preferiu não prolongar o processo de extradição.

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Segundo o Expresso apurou, a Relação de Roma também decidiu extraditar para Portugal o espião russo que foi detido minutos depois de ter entregue um envelope com 10 mil euros em notas ao agente português, a troco de outro envelope contendo vários documentos secretos relacionados com atividades da NATO. O Expresso não conseguiu confirmar, contudo, se Sergey N. P. apresentou recurso dessa decisão. A data para a sua extradição ainda não está marcada e o mais certo é que o agente do SVR — o braço internacional do FSB, os serviços secretos russos, que até aos anos 90 eram conhecidos por KGB — tente impugnar a sua vinda para Portugal. O espião russo possui passaporte diplomático, mas isso não impediu a sua detenção, pelo facto de não ter credenciais registadas em Itália. Sergey N. P. viajou de propósito de Moscovo para Roma para se encontrar com Carvalhão Gil.

A Operação Top Secret foi iniciada em novembro de 2015, depois de o secretário-geral do SIRP (Sistema de Informações da República Portuguesa), Júlio Pereira, ter comunicado ao Ministério Público um conjunto de suspeitas sobre Carvalhão Gil. O agente do SIS tinha sido fotografado por serviços secretos de um país ocidental a encontrar-se com Sergey N. P. na Eslovénia no outono do ano passado. Em articulação com a PJ e o DCIAP, o SIS decidiu manter o agente em funções como analista de informação, de forma a que Carvalhão Gil não suspeitasse de que estava sob investigação.

Os documentos relacionados com a NATO que foram intercetados em Roma na posse do espião russo estão classificados como secretos e, segundo apurou o Expresso, contêm informação sensível. O inquérito-crime acontece numa altura de endurecimento das relações entre Moscovo e o Ocidente.

Artigo publicado na edição do Expresso Diário de 01/06/2016