Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Moreira eleva para 18 os linces-ibéricos em liberdade em Portugal

  • 333

Moreira é a nova ocupante do matagal alentejano. Conheceu a liberdade na manhã desta quarta-feira, na última solta da temporada. Desde 2014 foram libertados em terras alentejanas 19 linces-ibéricos, mas só 14 continuam a deambular pelas terras em redor do vale do Guadiana. A eles juntaram-se recentemente quatro crias nascidas na natureza esta primavera (veja o vídeo)

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Um ano, cinco meses e duas semanas passaram desde que os primeiros linces ibéricos do programa de conservação da espécie começaram a ser soltos em território nacional. Atualmente, continuam a deambular pelo matagal alentejano em redor do Vale do Guadiana 14 dos 19 animais ali libertados neste período e a eles juntaram-se quatro crias ali nascidas há cerca de três meses.

A última adulta a ocupar este território é Moreira. A fêmea com um ano de idade e 11,5 quilos de peso, oriunda do centro espanhol de reprodução em cativeiro de Acebuche, na Andaluzia, saiu disparada mal os técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) abriram a cancela da jaula que a transportava. Aconteceu no final da manhã desta quarta-feira numa propriedade da Sociedade Horta da Laranjeiras, em Mértola. Agora, irá procurar o seu canto algures nas terras do Vale do Guadiana.

Uma das crias de Lagunilla

Uma das crias de Lagunilla

ICNF

Pelo concelho de Mértola, continuam a viver 14 exemplares da espécie de felino mais ameaçada do mundo. Nascidos nos centros de reprodução em cativeiro de Portugal e de Espanha, foram libertados nesta área geográfica de distribuição histórica da espécie no âmbito do projeto de conservação ibérico, que pretende criar uma população diversa e estável neste território, de modo a que a espécie volte a ser viável em meio natural.

O objetivo do projeto do “Recuperação da Distribuição Histórica do Lince Ibérico em Espanha e Portugal é chegar a uma população de Lynx pardinus com meia centena de exemplares em cada zona de reintrodução, dentro de cinco anos.

Cinco perdas

Pelo caminho perderam-se cinco dos animais ali reintroduzidos ao longo deste quase ano e meio. Duas fêmeas (Kayakweru e Myrtilis) acabaram por morrer, a primeira vítima de envenenamento e a segunda devido a uma infeção viral. Dois machos (Loro e Kempo) desapareceram dos "radares" e desconhece-se o seu paradeiro. E um terceiro macho (Lítio) foi encontrado debilitado e doente numa serra a norte de Huelva, em Espanha, e está em recuperação no centro de Donãna, devendo voltar ao Alentejo assim que puder.

Os linces-ibéricos libertados usam colares com sistema GSM que funciona como as redes de telemóveis, mas quando andam em zonas de sombra deixam de sinalizar e alguns já deixaram de funcionar, admite Pedro Rocha, que dirige departamento do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas do Algarve, que tutela o Parque Natural do Vale do Guadiana.

Quatro crias novas

Apesar das baixas, felizmente há boas novas reveladoras de que o projeto começa a dar frutos. Esta primavera nasceram no meio selvagem alentejano duas ninhadas que totalizam quatro crias (ver vídeo). A primeira a ser avistada na Herdade das Romeiras, no concelho de Mértola, foi a cria de Jacarandá – a primeira fêmea nascida no centro de reprodução em cativeiro de Silves (CNRLI) a ser libertada em Portugal. A cria a que para já deram o nome de "Nosso", terá perto de três meses, mas ainda não se sabe se é menina ou menino.

A segunda ninhada de linces confirmada no Vale do Guadiana em maio conta com três crias e tem como progenitora Lagunilla. A fêmea, oriunda do Centro de Reprodução de Zarza da Granadilla em Espanha, chegou à Herdade das Romeiras em maio de 2015 e, depois de deambular pelos concelhos de Castro Verde e Mértola, acabou por se fixar na zona do núcleo original.

"A existência de fêmeas reprodutoras em meio selvagem é muito positiva e é um indicador da saúde de uma população e sustenta o potencial sucesso do processo de reintrodução", sublinha Pedro Rocha.

As imagens captadas no terreno revelam uma mãe muito protetora das suas crias, a mais pequena das quais ainda a ser amamentada. Lagunilla não se pode afastar muito dos filhotes devido ao risco de existirem outro predadores na área, mas já foi vista a trazer dois coelhos de seguida até à toca. Dentro em breve, as crias terão de aprender a caçar sozinhas. E, por agora, por ali não há escassez de coelho-bravo, o seu manjar predileto.