Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Se queres ver uma criança feliz dá-lhe um irmão”

  • 333

Chip Somodevilla/ Getty Images

No último dia de maio celebra-se o dia daqueles que estão connosco desde sempre, com quem fazemos as primeiras brincadeiras, as piores birras e os maiores amuos. Lembre-se de desejar um feliz Dia do Irmão aos seus – mas primeiro leia este artigo, surpreenda-se e descubra porque é que eles podem representar a relação mais duradoura ou a pior inimizade da sua vida

Lembra-se daquele dia em que puxou os cabelos ao seu irmão e levou um raspanete (merecido) dos seus pais? E daquela vez que o irmão mais novo fez uma asneira e conseguiu de alguma maneira escapar-se e deixar as culpas para si? E das tardes a jogar fosse o que fosse – jogos de bola, de tabuleiro, de bonecos, sobretudo a aprender a negociar, ceder e disfrutar do tempo juntos?

Ainda se lembra de tudo isto? Se sim, aconselhamo-lo a parar imediatamente de ler este texto e a pegar no telemóvel para desejar um feliz Dia do Irmão aos seus. Se é filho único, não se preocupe – ter irmãos nem sempre é um mar de rosas, e os conflitos durante a infânica (e pior, já na idade adulta) tendem a surgir com facilidade.

"Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos". O lema, proferido pelo falecido fundador e presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN) e da Confederação Europeia de Famílias Numerosas, Fernando Ribeiro e Castro, dá o mote para a iniciativa promovida pelas duas organizações, que visa estabelecer o Dia dos Irmãos como uma efeméride por direito próprio, comparável aos dias que servem para homenagear a mãe e o pai.

"As relações com os nossos irmãos são das mais marcantes e duradouras que temos", esclarece Ana Cid Gonçalves, secretária-geral da APFN, ao Expresso, defendendo que faz sentido que este dia exista se já existem tantos outros para celebrar "muitos vínculos". "O dia 31 de maio foi declarado Dia dos Irmãos em 2014, pela Confederação Europeia de Famílias Numerosas, da qual somos associados".

Para provar que os irmãos interessam tanto ou mais do que o resto da família, as duas organizações promovem na Assembleia da República, mas também a nível das instituições europeias, petições para que a efeméride seja oficializada, uma vez que, defende a APFN, "os irmãos são os nossos mais próximos. Crescemos com eles, na família, numa teia de cumplicidade e vivências comuns. O que vivemos entre irmaos é único, irrepetível, molda a nossa vida para sempre". Margarida Gonçalves Neto, psiquiatra e ex-comissária para os Assuntos da Família, acrescenta que "a existência do dia dos irmãos pretende assinalar o mais feliz que podemos ser: irmãos", em crónica publicada no jornal "Público".

Eles também podem ser os nossos piores inimigos

Para Cristina Valente, psicóloga e autora do livro "Coaching Para Pais – Estratégias e ferramentas práticas para educar os nossos filhos", as relações com os nossos irmãos podem de facto ser as mais felizes das nossas vidas – mas eles também podem tornar-se "os nossos piores inimigos". "Tudo isto depende da forma como a relação e a competição entre os irmãos for alimentada pelos pais. Se o vínculo for fraco acaba por partir, por exemplo, depois da morte dos pais; se um irmão tiver ciúmes do outro, esse sentimento pode ficar sempre com ele", alerta a escritora em entrevista ao Expresso.

Por isso, o melhor que os pais têm a fazer nos naturais conflitos entre irmãos é, "em 99,9% dos casos", esperar que passe – a não ser que sejam capazes de arbitrar a situação de forma totalmente imparcial e explicar-lhes que devem "desenvolver um consenso e trabalhar em equipa". Se tal não acontecer, "pode haver um efeito nefasto a nível psicológico" porque há "tendência a defender um dos irmãos, que inconscientemente competem para saber qual é o preferido dos pais".

Irmãos mais novos são mais contestatários e protegidos

Nas relações entre irmãos, a psicóloga confirma que alguns dos mitos que se dizem por aí são mesmo verdade. "Os mais novos são geralmente mais traquinas e protegidos, e os mais velhos costumam ser mais responsáveis". Características que podem ter muito a ver com a formação da personalidade de cada um: "O mais novo pode ser mais contestatário para se distinguir do mais velho, tal como os adolescentes contrariam os adultos para se afirmarem como pessoas independentes. Assim, é normal que o irmão mais novo desenvolva competências em áreas muito distintas para sobressair e ocupar um lugar de destaque na família".

Outra das ideias sobre irmãos que se confirmam é a influência da ordem de nascimento. "Dois primogénitos de duas famílias diferentes podem ser mais parecidos do que dois irmãos da mesma família", explica a psicóloga, esclarecendo que "a educação não é igual para todos os filhos: na primeira vez os pais estão a aprender, a evoluir", e necessariamente agirão de diferentes formas. O que não é razão para não admitirem que "se identificam mais com o temperamento de um dos filhos, o que facilita a sua relação com eles" sem culpas, uma vez que isto não quer dizer que o amor que sentem por cada um seja diferente.

Num aspeto todos concordam: a existência de irmãos é um fator crucial para o desenvolvimento de cada um, uma vez que eles podem ser uma companhia "para a vida toda". A APFN, principal promotora em Portugal do Dia dos Irmãos, concorda: "O que vivemos entre irmãos é único e irrepetível, molda a nossa vida para sempre". As marcas que ficam e a relação que se desenvolve dependerão de cada um e muito da atuação dos pais, que devem intervir de forma sensata na relação entre irmãos e deixando-os "jogar o jogo deles", sublinha Cristina Valente.