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Imigração e exclusão social são fatores de risco para o VIH

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MANJUNATH KIRAN/AFP/Getty

Prevalência da infeção em grupo de migrantes vulneráveis em Lisboa é nove vezes superior à taxa estimada em todo o país, revela um estudo que é apresentado esta terça-feira

Pertencer a um grupo menos abrangido pelos serviços de saúde, com comportamentos sexuais de risco, reduzida auto-perceção desse risco, com insuficientes práticas preventivas e socialmente mais vulneráveis são características que tendem a aumentar a exposição ao vírus da sida. Um estudo realizado a um subgrupo de imigrantes vulneráveis na área de Lisboa – com a maior concentração de migrantes no território nacional – detetou uma prevalência da infeção de 5,4%, isto é, muito acima dos 0,6% registados entre a população portuguesa.

"Os dados estão em linha com dados europeus e representam uma oportunidade para alterar uma situação que pode ser revertida através de estratégias de prevenção direcionadas para grupos prioritários", explicou ao Expresso a coordenadora do trabalho, Sónia Dias. A investigadora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical salienta ainda que fica evidente a necessidade de "aprofundar o conhecimento sobre os padrões de utilização e as barreiras no acesso aos serviços de saúde sexual e ao testo do VIH pelos imigrantes para os poder melhorar".

O estudo incluiu 790 participantes, com uma média de idades de 38,4 anos, oriundos maioritariamente da Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola e São Tomé e Príncipe e permitiu ainda apurar que 16,7% já foi confrontado com o diagnóstico de uma infeção sexualmente transmissível. Do total, 3,5% declarou ser seropositivo, com as mulheres em maioria e assim fugindo ao padrão português. "Há questões culturais a ter em conta, como a influência do papel do género, que tende a colocar as mulheres em maior risco, enquanto na Europa a infeção tende a ser mais prevalente nos homens", explica a investigadora.

Sexo forçado

Um dos exemplos concretos da maior vulnerabilidade feminina é a prática de relações sexuais forçadas: "Quase 10% dos participantes declara ter tido relações sexuais de forma forçada alguma vez na vida, sendo esta proporção maior nas mulheres (15% das mulheres e 6% dos homens)", lê-se na sumula do trabalho. Menos discrepante é a noção do risco de contrair o vírus da sida, no caso a falta dela. Cerca de metade dos inquiridos não se acha em perigo. "Dos participantes que não usaram preservativo na última relação sexual, quase metade não se considera em risco de contrair VIH". E o mesmo se aplica aos que tiveram dois ou mais parceiros no último ano, com 38% a não reconhecer a ameaça.

Sem preservativos gratuitos

Dos 790 imigrantes estudados, com o apoio de Organizações Não Governamentais no terreno, a grande maioria vive em Portugal há mais de cinco anos e está em situação de vulnerabilidade social – 77% declarou que o rendimento familiar é insuficiente e 48% não tem emprego. Os investigadores apuraram ainda que 77% dos homens nunca foram a uma consulta na área da saúde sexual em Portugal e que mais de metade não recebeu preservativos gratuitos no último ano. Além disso, 54% não sabe onde fazer o teste da sida.

Face às conclusões, os autores do estudo afirmam que "os dados obtidos reforçam a importância de considerar a população imigrante como uma população prioritária de intervenção". Sónia Dias sugere uma estratégia: "Reforçar o desenvolvimento de iniciativas de proximidade promovidas por equipas de terreno capacitadas, que têm relações de confiança com a comunidade e conhecimento exclusivo do seu contexto."

A investigadora diz que os responsáveis estão atentos à situação. "Tem existido uma preocupação da Direção-Geral da Saúde - um exemplo é a realização deste estudo, solicitado pela DGS – para conhecer melhor esta realidade específica e compreender como atuar de forma mais eficaz", salienta Sónia Dias. "Outro aspeto encorajador é que se pretende discutir estes dados com a comunidade alargada, incluindo as próprias comunidades imigrantes e os principais intervenientes", acrescenta.

Estigma continua a existir

Sónia Dias sublinha que "estas iniciativas demonstram que há uma forte consciência de todos de que é preciso intervir e alterar a situação atual", no entanto há ainda muitas dificuldades. "Não podemos esquecer que ainda existe um grande estigma e discriminação associados à problemática do VIH na população geral e também nestas comunidades, que conduz à renitência em descobrir o estatuto serológico e em utilizar os serviços que possibilitam minimizar os impactos da infeção e viver com qualidade de vida."