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Os jovens e o álcool, direto ao cérebro

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“Não me faltou nada, eu não posso pegar por uma coisa que pudesse dizer 'olha, faltou-me isto'. Não, realmente eu tinha tudo.” E por causa do álcool, Ricardo, filho único, não tem dúvidas de que esteve quase a perder tudo. Já não se lembra da primeira bebida alcoólica mas sabe que tinha 14 anos e não gostou

No entanto, a vontade de pertencer a um grupo levou-o a alinhar nas idas ao supermercado nos intervalos ou depois das aulas para comprar garrafas. Depois, bebiam onde quer que fosse. O fascínio de poder transgredir, próprio da adolescência, começou a dar lugar ao hábito. O álcool desinibia-o, punha-o mais à vontade. «Sentia-me melhor em relação aos outros que não bebiam, sentia-me superior, uma ilusão autêntica». Sempre que queria, saía à noite. Foi crescendo lado a lado com as bebidas alcólicas, «fui tomando o gosto, e foi muito rápido até passar de bebidas leves para bebidas fortes, bebidas destiladas, misturas»

Os pais davam-lhe liberdade e confiavam. Era bom aluno, desportista. Fez karaté, vela, canoagem, aulas de equitação, ténis de mesa no Benfica. Mas pouco a pouco tudo isso foi deixando de lhe interessar. O que lhe interessava era a sensação que as bebidas lhe davam. Antes de chegar fosse a que local fosse já tinha de ter bebido, «naquela altura achava que era impensável ir sóbrio para uma discoteca, achava que não me conseguia divertir, achava que não conseguia ser eu, só me sentia bem se bebesse.»

Aos 18 anos, tirou a carta e começou a trabalhar. Só o álcool aproveitou o dinheiro e ainda mais liberdade. «Eu achava que era liberdade mas não, neste momento tenho plena consciência de que vivia prisioneiro dos meus consumos, dos hábitos que adquiri.»

Sabe que correu e fez correr riscos, tiraram-lhe a carta, teve acidentes. «Era teimoso ao ponto de dizer 'não, não, eu sinto-me bem', e pegava no carro e conduzia. Arrependo-me imenso porque não só coloquei a minha vida como a de outras pessoas que circulam em perigo e podia ter sido mais grave.» O programa e "Se Fosse Consigo?" aborda o consumo do álcool entre os jovens. Até que ponto alguém é capaz de impedir uma tragédia se vir um jovem insistir em conduzir bêbado? No meio da rua um casal de namorados aproxima-se de um carro, estão os dois embriagados, ela mais consciente quer impedi-lo de pegar no volante, ele insiste. Há gente a passar, mas quanto estão dispostos a intervir?

Os acidentes na estrada são uma parte das tragédias que acontecem na vida de jovens e adolescentes que bebem demais. É proibido o consumo antes dos 18 mas o descontrolo continua a acontecer antes dessa idade à vista de todos. A mudança da lei há três anos só veio apaziguar consciências, de resto nada mudou. Bem pelo contrário. Os especialistas que estudam esta realidade têm feito avisos, há estudos, há números. Em Portugal, os adolescentes começam a beber por volta dos 13 anos, as bebidas destiladas são as mais consumidas e as preferidas pelas raparigas. A psiquiatra Neide Urbano, do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, chama a atenção para a forma como a transgressão própria da adolescência atinge níveis como nunca antes se verificou. «Não há o consumo para a socialização, há o consumo para o objetivo que é ficar embriagado rapidamente, o "blackout" (perder a consciência)». O que é grave num adulto pode tornar-se irreversível num adolescente. O álcool ingerido por um adulto é matabolizado pelo fígado e só uma parte chega ao cérebro. Num jovem antes dos 18, 20 anos não. O fígado ainda não está preparado e por isso o álcool não passa por lá, entra na corrente sanguínea e vai diretamente às zonas cerebrais. A agravante é que o cérebro ainda está em desenvolvimento e por isso o consumo pode vir a prejudicar as capacidades de memorização, concentração ou raciocínio. Basta um ano a beber com alguma regularidade para se verificarem os efeitos negativos. Os jovens sabem disto? E os pais? «Os pais demitiram-se completamente.

Se nós andarmos na estrada a conduzir numa noite com tempestade e não tivermos sinalização na estrada, é muito complicado e assustador conduzir nessas condições.», são as palavras de alerta da psiquiatra Célia Franco sobre a falta de limites em que os jovens vivem. «Os jovens saem e entram em casa às horas que querem e os pais não estão muito atentos. Ah, entrou tarde, já estou a dormir, eu também tinha umas bebedeiras. Mas, as pessoas não têm a noção do real perigo que os miúdos estão a correr. Há fases em que de facto temos de ser muito firmes. O jovem pode bater com a porta naquele momento mas no dia seguinte acalma ultrapassa e segue. Eles entendem que isto os enriquece em termos de personalidade de estrutura, eles entendem perfeitamente.» Pelo que vai ouvindo nas consultas, a coordenadora da Unidade de Patologia do Álcool do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra não tem dúvidas de que um dos maiores desafios aos pais é o tempo para os filhos. «Um dos grandes problemas é que os nossos jovens também não são ouvidos, não conseguem falar, não conseguem partilhar as suas angústias, os pais estão ocupados, ou não têm tempo para isso. Muitas vezes queixamo-nos de que os miúdos estão agarrrados aos telemóveis, mas se olharmos bem os pais também estão ausentes, também estão constantemente a atender chamadas.»

Para Ricardo, chegou agora o momento de ser ele a olhar para os pais. «Arrependo-me de muitas vezes dizer 'mãe, pai hoje não janto' e depois saía de casa e aparecia dois, três dias depois. Não conseguia ter a dignidade de pensar 'bolas, eles são meus pais, devo-lhes uma justificação'. Não me interessava nada, interessava-me era o meu bem-estar, os meus consumos». Os consumos de Ricardo, a partir dos 18 anos, foram «a pique, mas sempre a subir». Passou a beber sozinho, os amigos passaram a ser os desconhecidos que encontrava quando já estava a cair. Chegou a dormir onde calhava, em sítios perigosos. Os pais chegaram ao ponto de o pôr fora de casa e ele até acreditou que era uma oportunidade para se libertar do vício. Mas desceu ainda mais. Quando lhe diziam que precisava de ajuda, recusava. «Não, não, eu consigo, quando eu quiser eu mudo, quando eu quiser eu paro de beber. Mas percebi que era impotente, que sozinho não era capaz, e foi aí que tomei um grande passo de aceitar, pedir e aceitar ajuda.» Está ainda em tratamento. «No fundo, tenho um sentimento de gratidão por me terem devolvido a vida, porque eu não vivia, eu sobrevivia.»

"E Se Fosse Consigo?", hoje, às 20h45, a seguir ao Jornal da Noite, em simultâneo na SIC e na SIC-Notícias, seguido de debate na SIC-Notícias.