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“Play it again, Sam”

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REGRESSO AO FUTURO. LA Screenings 2016 da CBS apresentam o novo “MacGyver”

d.r.

Hollywood apresenta ‘quando o velho vira novo’. A nova temporada de séries de ficção, a estrear entre o próximo outono e a próxima primavera, dada a ver ao resto do mundo esta semana em Los Angeles, tem um bocadinho de tudo para procurar vingar nas guerras das audiências – a norte-americana em primeiro lugar. Os focos mais luminosos e intensos apontam para o regresso ao passado, para o revivalismo, para a nostalgia. Vários estúdios foram ao baú buscar sucessos de outrora e reciclaram-nos. E (quase) nada acontece por acaso

Luís Proença, em Los Angeles

“Twin Peaks”, "MacGyver", o "Exorcista", atualizado e adaptado a série, "Prison Break" e " 24 Horas", para assinalar os títulos provavelmente mais orelhudos de sucesso do passado (recente) televisivo, estão de regresso nos próximos meses, no próximo ano, para alcançar novos e velhos públicos.

Se para os mais novos que se veem a mãos com algo de que apenas terão ouvido falar aos mais velhos – e, na melhor das hipóteses, espreitaram a correr um "clip da vida" disponibilizado no YouTube, a tendência será fazerem uma avaliação circunstancial, de gosto sobre o conteúdo a partir do zero, ou quase-zero, e sem memória comparativa, já os "targets" mais velhos terão a expectativa, eventualmente romântica, de regressar ao tempo e ao modo de quando e como viram e viveram estes momentos de entretenimento televisivo e de partilha. Até porque era o que havia para ver numa experiência mais ritualizada de: "dá neste canal, neste dia, a esta hora".

A indústria de Hollywood lida por estes dias com uma equação quadrangular, pelo menos. Tem, portanto, de atender a uma multiplicação diversificada das encomendas: fornecer os canais abertos nacionais norte-americanos, as "networks", com ficção mais transversal e popular dirigida aos públicos de língua inglesa que por razões sócio-económicas e etárias aí estão e aí vivem as experiências do entretenimento doméstico, conjugada com a necessidade de cuidar de produções dirigidas aos canais de cabo, cuja exigência crítica de gosto é de outro campeonato; e também fazer negócio com os chamados "frenemies" (amigos-inimigos) –os operadores de serviços de subscrição, distribuídos através da internet em streaming, onde pontuam a Netflix, a Amazon Prime Vídeo e a Hulu, por exemplo, que têm uma musculada capacidade de investimento e querem os seus conteúdos de ficção originais premium "Hollywood style".

Acrescenta-se, sem ordenação arbitrária, ao receituário de criação e produção a necessidade de cuidar dos seus próprios serviços de distribuição televisiva digital "Over the Top" (OTT), porque na América os estúdios de produção também são canais e, nalguns deles, as empresas de telecomunicações detêm a maioria acionista. Aqui chegados, e porque neste quadro a criatividade tende 'a bater no ferro', o regresso ao passado é um recurso relevante - e consequentemente uma pesada peça de fogo de comunicação e marketing.

O regresso do “herói das engenhocas”

As aventuras do agente secreto "herói das engenhocas" "MacGyver" regressam à emissão da CBS, produzida pela CBS, mais de trinta anos depois da estreia do primeiro episódio, em 1985. Pelo que aqui vi do episódio-piloto, e acabou por ser sublinhado pelos responsáveis da CBS, este conteúdo tem de levar, e está a levar, uma volta de 180 graus no elenco e na narrativa, mas ainda assim o "spin-off" de "MacGyver" acabou por ser projetado nas telas dos Screenings e irá avante no ar. E vai ser emitido pelo canal líder de audiências nos Estados Unidos, para princípio de conversa. Há de seguir para emissão em dezenas de canais à volta do mundo. O negócio da distribuição internacional das séries produzidas em Hollywood já vale, aliás, mais de metade do que é pago internamente nos EUA.

"Twin Peaks", a série realizada por David Lynch, é uma série de culto, de autor. Haverá de ser exibida no ano que vem e para num canal de cabo, a Showtime, propriedade da CBS. A título de comparação, e só para fazer notar a diferença de escala, de assinalar que o elenco de uma novela portuguesa com 300 episódios ou mais envolve, grosso modo, cinquenta atores e atrizes, "Twin Peaks" tem já escalados mais de 200 para somente uma temporada planeada.

Nesta maré de revivalismo que começou a ganhar escala no ano passado, nem tudo é um mar de rosas. Se os novos "X-Files" resultaram firmes que baste nas audiências, já "Minority Report" deixou bastante a desejar neste capítulo.

“Prison Break”

“Prison Break”

As séries recuperadas com títulos marcantes reduzem os custos de marketing e comunicação, sobretudo para os mercados internacionais, se não forem demasiado datadas, invocam alguns dos executivos da indústria televisiva californiana. O regresso de "Prison Break", por muito que possa ser encarado como uma guinada forçada na passada da narrativa, é tida na Fox como uma aposta pré-ganha, na medida em que o intervalo de tempo sobre o fecho da última temporada exibida (2009) nem é assim tão longo e porque a série marcou positivamente muitos públicos em muito mercados.

A nova "24 Horas", sem Kiefer Sutherland, mantém no episódio-piloto da nova temporada "one shot" o ritmo acelerado marcado pelo compasso da passagem do tempo, e recupera a tensão do conflito. Veremos se estes regressos ao passado mais recente ou longínquo têm força para se impor junto da preferência da maioria dos públicos ou se, por outro lado, vão acabar por estilhaçar a imagem de sucesso construída e da qual os estúdios souberam sair ainda em alta.